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Cachimbo de Água

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De tudo ou nada; estou farto.

Francisco Luís Fontinha 22 Abr 17

De tudo estou farto,

Às vezes, quando regressa timidamente o amanhecer, sinto as ruas sem saída desta cidade envenenada pelo tempo esquecido na minha mão,

Um livro desajeitado mergulha no olhar da tua presença, e ao longe, imagino as clareiras em construção que se afundam nos rochedos teus seios…

As noites são claras, as noites esperam-nos enquanto lá fora as gaivotas brincam nas tuas livres coxas,

De tudo estou farto,

Do deserto teu nome, do silêncio a tua amargura vestida de nada, e sei que nos trilhos da bênção existem sonolentas cabanas abandonadas,

Perdoa-me, e de tudo estou farto,

Às vezes, o nocturno vento inventando pálpebras de xisto, as janelas encaixadas no embriagado molusco da morte, de tudo estou farto…

Do corpo me afasto, do corpo me ausento saboreando a morte dos peixes sem nome, como se fossem caixotes de madeira com cabeças de ternura suspensas na cama da saudade,

De tudo estou farto, meu amor…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 22 de Abril de 2017

Embalsamado pelos relógios em suicídios soluços

Francisco Luís Fontinha 15 Abr 17

Deixo o meu corpo poisado na ribeira da solidão,

Suspenso no pesadelo da morte

Caminho pelas montanhas semeando espadas em granito…

E recordava a ruidosa noite dos corpos ensonados,

O cais onde habitavam os meus barcos parece uma cidade sem nome,

Distante da madrugada,

Descendo o rio até ao mar,

As gaivotas envenenadas pelas palavras amargas do teu sorriso,

E envelheci antes do teu regresso,

Vou à janela e sinto o raiar do amanhecer dentro de um livro apodrecido pelo tempo vazio da escuridão,

O amor não dorme mais,

Acorda-se enquanto as minhas mãos apalpam o olhar das tuas pálpebras nas paixões dos comboios entre sucata e pequenas miudezas, a algazarra dos teus gemidos inclinados no sótão dos cigarros inacessíveis nas nocturnas avenidas do desassossego,

Sou um palhaço embalsamado pelos relógios em suicídios soluços, uma arvore recheada de lentidão, a traição do corpo poisado na ribeira da solidão,

Tragam-me o escuro poema com asas em papel, tragam-me a rapidez dos alicerces do vento antes de apodrecerem as pontes imaginárias, e foi-se a idade, deixei de pertencer-te…

Deixei de amar-te.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 15 de Abril de 2017

É quase noite e vejo-me enrodilhado de palavras

Francisco Luís Fontinha 11 Abr 17

O dia vai longo, meu amor,

É quase noite e vejo-me enrodilhado de palavras órfãs que se masturbam junto à paragem do eléctrico,

Dos poucos livros que me restam apena o “fugitivo” ficou a acompanhar-me,

Dizem todos que sou louco, meu amor,

Porque gosto mais de brincar com as palavras do que jogar futebol na areia da parai, onde em criança, esquecia-me das tardes no Mussulo,

O destino vingou, das minhas mãos deixou de haver areia húmida e pedrinhas… que deitava escrupulosamente para um balde em plástico e depois enchia os bolsos de recordações,

O teu olhar, meu amor, na ausência das pálpebras incendiadas pela escuridão,

Ao longe um comboio recheado de crianças e palavras,

Barulhentas, brincalhonas como são as árvores no Outono, diariamente sinto no corpo o dardo envenenado dos teus lábios, quando sei perfeitamente que o amanhã não existirá mais…

Hoje pertenço-te…, hoje pertenço-te e pertenço-me, somos dois catetos galgando as tristes paredes de xisto da tua boca, vim de longe, segredei-te sem perceberes que eu te mentia, nem à hipotenusa consegues chegar… quanto mais a cateto…

Ou a triângulo rectângulo…

O dia vai longo, meu amor,

É quase noite nos meus olhos, e lá fora uma velha cancela geme, os pregos enferrujados, as ripas entrelaçadas num emaranhado de sombras regressadas do Além…

Roço-me no teu corpo e morro.

Abraço-te.

Sem dizer ou escrever que te amo…

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 11 de Abril de 2017

A casa dos espirros

Francisco Luís Fontinha 9 Abr 17

Vagabundos,

Sonâmbulos

Cromos

E outros cromados,

Assim avança a vida do poeta…

Sobre a janela da solidão,

Desamados,

Triângulos de prata no papel amachucado

Correndo pela paixão na juventude das pirâmides sonolentas,

Vagabundos,

Sonâmbulos

Cromos

E outros cromados,

Enigmáticos circos de terra em terra,

Palhaços,

Candidatos a palhaços…

Num empobrecido poste de iluminação,

A forca miserável do inventor

Entre círculos e cubos de sombra…

A inquietude neblina que assombra a mão

Do palhaço candidato a palhaço,

As bocas de esperma descendo a calçada

Até se sentar junto ao rio,

Ouvem-se os socalcos do amanhecer

Quando as enxadas do prazer batem no xisto esfarrapado,

O circo não tem fim,

O fogo adormece as almas dos condenados,

E sobre o papel amachucado…

A casa dos espirros,

Os vampiros telhados das cidades em chamas…

Tudo arde no teu olhar

Como arderam as minhas palavras nas náuseas do sono…

Ergo-me,

Faço-me vagabundo como eles…

E vivo apaixonadamente no cubículo da idade.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 9 de Abril de 2017

STOP

Francisco Luís Fontinha 8 Abr 17

Finge o tempo acordar nos adormecidos sargaços da manhã,

Invento o esmagado espaço que os pássaros alimentam sem perceberem que a madrugada se suicidou nos rochedos da solidão,

Sou feliz assim…

Procuro nas janelas do amanhecer os carrascos envelhecidos da paixão,

E dou conta que nas minhas mãos restou a saudade,

Pego num livro,

Abro-o e procuro nele as personagens da noite,

Vagarosamente,

Construo o invisível visitante da desgraça…

Que vive em minha casa,

Oiço o teu sorriso nos alpendres da insónia,

Caminho sobre o teu corpo como um vagabundo da vergonha,

E mesmo assim… para ti, sou o assassino das palavras não escritas,

Velhas e irritantes,

Escrevo-te como escrevi milhares de vezes à Lua,

Em vão…

A distância dos supérfluos caminhos do desgosto,

Essas… parecem adormecidas nos meus pequenos lábios de porcelana,

As fotografias,

As imagens prateadas das sandálias do cacimbo que ficaram nas enxadas profundas dos charcos de água,

Os fantasmas do luar descendo a calçada até que a morte vinha e nos levava para destinos incrédulos, ausentes, sem nada,

Finge o tempo,

Finge o lamaçal de vaidades que me rodeiam e odeiam como serpentes de veneno encarnado,

O tempo que não avança nas tuas coxas,

Os teus seios que se encontram acorrentados ao mísero porto, o cheiro nauseabundo da nafta e de velhas sucatas, a proximidade do teu sorriso agachado no pavimento encaixotado, móveis, miudezas e outros ossos…

A loucura,

Que finge pertencer-me…

E que eu nunca tive a oportunidade de a vencer na batalha da solidão,

São, meu amor, são os poemas desertos do desencontro que me deixam atormentado,

São as tuas palavras cravadas no meu peito que me dão as asas necessárias para eu voar junto à janela…

E mesmo assim, queres que eu finja que sou poeta…

STOP.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 8 de Abril de 2017

Entre mim em ti… meu amor

Francisco Luís Fontinha 1 Abr 17

Os mares envergonhados da solidão

Que caminham durante a noite nos meus braços cansados,

Sinto no corpo as cancelas imaginárias da saudade

Como um sonâmbulo tresloucado,

Inferioridade minha das terras envenenadas

Da terra queimada,

Hoje, nada tenho para te oferecer,

Nem palavras,

Nem… nem amanhecer,

Os mares envergonhados…

Que as canibais laranjas deixam ficar nos teus lábios

E do sumo apedrejado pela loucura

Regressam as sonolências viagens sem destino…

Tenho no corpo o peso doirado da lua

Que alimentam as minhas mãos

Do silêncio vergado pelas pedras da paixão,

Não preciso da tua boca,

Dos teus beijos,

Das… das tuas palavras vãs…

Queria ter no peito o sol amargurado das ribeiras clandestinas

Que descem os socalcos do sono,

Envergar na lapela as sombras tumultuosas que poisam na minha janela,

Os pássaros destinos das árvores enganadas por mim,

Os papéis secretos do voo frenético e engasgado das gaivotas libertinas,

Às vezes tenho medo,

Às vezes pareço um menino aprisionado no cais da esperança,

Abraço-te imaginariamente como um louco veleiro encalhado na sombra inocente do esplendor amigo da rua sem nome…

Os vidros em cacos escorregam pelo meu corpo de pedra lascada

E suicido-me quando cai a noite em ti,

Meu amor, em ti…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 1 de Abril de 2017

Dia mundial da poesia

Francisco Luís Fontinha 21 Mar 17

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103 com vista para o mar

Francisco Luís Fontinha 21 Mar 17

No corredor aglomerados de aço

Cadáveres de barcos

Braços

Sombras de amor embalsamadas

Passeando na réstia manhã adormecida

Lá fora o mar entranhado nas ervas esquecidas pelo Criador

Chove

Há nas quatro paredes invisíveis

Gotículas de uma lágrima sem nome

Em direcção ao infinito

Os gemidos

A fome disfarçada de noite

Lá fora o mar

Pintado no térreo pavimento da dor

Não há palavras

Poemas

Textos

Nada

Nada

No corredor

Aglomerados

Aço

Enferrujado

Velho

Sem saber a que cidade pertence

A idade

A idade em corrida

Tropeça na Calçada

Dorme

Acorda

E finge…

Finge não ter medo da madrugada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Cidade em pó

Francisco Luís Fontinha 19 Mar 17

Imagino os teus olhos lacrimejantes nas paisagens do Congo,

Transportavas no corpo as serigrafias do sono…

Que apenas um rio te separava da inocência,

Tinhas na algibeira os cigarros e a fotografia da tua mãe…

Inventavas poemas com palavras esquecidas no capim,

Que o cacimbo apergaminhava na aventura da escuridão,

Lá longe ficava a barcaça imaginária de um dançarino obsoleto,

Sentavas-te nas montanhas da tristeza e rezavas,

Rezavas pela melancolia dos destinos transparentes do olhar de uma serpente,

E nunca percebeste que eu um dia eu te recordaria como um sonâmbulo obscuro,

Que transporta os alicerces de uma cidade em pó…

E em pó te transformaste.

 

 

Francisco Luís Fontinha

19/03/17

O beijo do silêncio madrugada

Francisco Luís Fontinha 18 Mar 17

Um beijo que o silêncio madrugada

Afaga na escuridão da ausência,

As silabas estonteantes do sono

Que adormecem nas velhas esplanadas junto aos rochedos,

Vive-se acreditando na miséria do sonho

Quando lá fora, uma árvore se despede da manhã,

Um beijo simples,

Simplificado livro na mão de uma criança,

Um beijo,

No desejo,

Sempre que a alvorada se aprisiona às metáforas da paixão,

Sinto,

Sinto este peso obscuro no meu coração,

Sinto o alimento supérfluo da memória

Quando as ardósias do amanhecer acordam junto ao rio…

E na fogueira,

Debaixo das mangueiras…

Os teus lábios me acorrentam ao cacimbo,

Sou um esqueleto tríptico,

Um ausente sem memória nas montanhas do adeus,

Um beijo que o silêncio madrugada

Afaga na escuridão da ausência,

A uniformidade das palavras

Que escrevo na tua boca,

Sempre que nasce o sol

Sempre que acordam as nuvens dos teus seios…

E um barco se afunda nas tuas coxas,

Oiço o mar,

Oiço os teus gemidos na noite de Lisboa…

Sem perceber que és construída em papel navegante…

Que embrulham os livros da aflição,

Um beijo, meu amor,

Um beijo em silêncio

Galgando os socalcos da insónia…

Vivo,

Vive-se…

Encostado a uma parede de vidro

Como leguminosas no prato do cárcere…

Alimento desperdiçado por mim.

Desamo.

Fujo.

Alcanço o inalcançado…

E morro.

 

 

Francisco Luís Fontinha

18/03/17

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