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Cachimbo de Água

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Francisco Luís Fontinha 3 Mar 15

Acrílico 40x50_2.jpg

 

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

O fugitivo regressa, aparece disfarçado de pássaro, não voa, deixou de voar, sonhar, deixou de viver, e de construir castelos de areia junto ao mar, quando dizias que aos três anos de idade já voava...

Eles chegaram, o caixão ainda cheirava à tinta fresca da manhã, brincava um silêncio de olhos verdes no vão de escada,

Foder num vão escada, como fodem todas as palavras do poema...

Sabíamos que o corpo não pertencia às nossas vidas, e o fugitivo sem regressar aos nossos lençóis de sémen foragido, sem pátria, destino

A porta de entrada encerrada,

Janelas ainda não tinham acordado,

Destino, viver dentro de duas folhas brancas com olhos verdes, um círculo, o Sol, a Lua, o vazio do corpo na alvorada clandestina, fria, fria e amarga,

A porta

Deus, criador de tudo e de todos, a porta gaguejando, rangiam os biombos da literatura quando imaginava o mar na parede da biblioteca,

Apetecia-me

Queimar todos os livros, meus, desenhos, vozes, corpos de insectos e rosas embalsamadas, queimar as fotocópias e os fósforos da insónia, beijar-te, e olhar-te

A mim?

A porta entranhada entre dois segundos, as lâmpadas lá de casa todas fundidas, sós, escuras, como a humidade das palavras enquanto pessoas, nenhumas... monstras, vazio, a astronomia do ciume suspensa num cabo de aço, Rua da Nossa Senhora..., Não está, hoje,

O Doutor, a secretária do Doutor, e a porta, envergonhada como eu, porque hoje não houve madrugada, porque hoje morrem as palavras...

 

 

(cansei-me, vou deixar de escrever durante uns tempos e de frequentar as redes sociais, cansei-me e apetece-me ouvir Wordsong... embrulhar-me nos sons das palavras... e imaginar AL Berto voando junto ao Tejo. Vou ler muito mais e dedicar-me ao desenho)

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 2 de Março de 2015

Os silêncios da geometria

Francisco Luís Fontinha 2 Mar 15

Acrílico 40x50.jpg

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

Sentia-me opaco

indigente

afogado nos silêncios da geometria

sentia-me um texto

um... um transeunte

calcinado pelo desassossego da luz

e dos esqueletos vestidos de luz...

sempre que acordava

pensava que me tinha esquecido de acordar

as palavras

e o vento

levando os meus braços para o mar

Março

e cá estamos

desesperados

e velhos

no cansaço inventado pela Primavera

quase lá

as gaivotas em telepatia com os meus sonhos

os barcos ancorados no meu peito

e um debilitado relógio de pulso

em saltos

na calçada do “Adeus”

porque a morte é cega

porque o vício é o vício

dos livros

e dos desenhos

à mercê dos morcegos

e dos murganhos...

a eira em chamas

e os cigarros enlouquecidos nos lábios de uma aranha

acreditam?

em saltos

na calçada do “Adeus”

porque a morte é cega

e eu... e eu... sentia-me opaco.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 2 de Março de 2015

 

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