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Cachimbo de Água

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Francisco Luís Fontinha 5 Mar 15

Sentava-me no Tejo a contar cacilheiros, no final da tarde, depois de alguns cigarros, percebia que todos aqueles cacilheiros pertenciam ao exército dos apaixonados anónimos, tristes, convictos, passeavam-se como se fossem crianças num qualquer recreio de uma escola já extinta, encerrada,

Morta

Morreu, o Miguel trazia na algibeira meia dúzia de moedas encardidas pela sombra da noite, dormia debaixo de alguns cobertores de cartão, antes de adormecer desenhava no passeio pedestre algumas das imagens sem nome, de tantas outras... as fotografias de família

Morta?

Pais, avós... irmãos?

Sentava-me no Tejo, brincava com as gaivotas, saltávamos à corda, pegava num cinzeiro e esvaziava a algibeira quase...

Morta?

Irmão de papel, fumado, defumado, as palavras no quase... e ele... procurando irmãos invisíveis numa cidade invisível, não há miúdas nesta terra? Ainda é cedo, mais logo, talvez

Quase a desmaiar, sem sonhos, talvez imaginasse esta terra a terra prometida, mas não

Esqueceu-se do aparelho, Sr. António? E agora... como vai ouvir-me...! Sentava-me junto ao Tejo, mas não, fumava charros de areia enquanto a preia-mar se abraçava a mim, beijava-me, fodíamos como dois livros entrelaçados...

Ẽ?

Toca o telefone, morta...

Morta?

Quase...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 4 de Março de 2015

Olhares em beijos de luar...

Francisco Luís Fontinha 4 Mar 15

Esboço os teus olhos na carlinga nocturna do prazer

finjo caminhar sobre as pedras íngremes do silêncio

em vulcão

as palavras desalmadas do caderno negro

as imagens da melancolia

no espelho secreto dos teus seios

fujo

e sem regresso...

imagino os rochedos da insónia

mergulhando na constelação do adeus

o plágio mágico de uma fotografia

e a simplicidade dos sentidos embainhados nas florestas em solidão

canso-me

e fujo

dos lábios em desejo

como as formigas procurando alimento

nas esplanadas da dor

esboço os teus olhos

o esquisso em desassossego dentro da caixa de madeira

janelas

portas

o segredo

quando os dardos envenenados atingem mortalmente o peito do artista

o circo ofegante

em murmúrios e pequenos gestos pincelados de sangue

os aplausos falsos

e os falsos sorrisos

na aldeia

entre ventos e tempestades de areia

sinto em mim o mar

e todas as marés do amor

o poeta adormece junto ao rio

escreve na espuma tingida de saudade

e canso-me

das palavras

e dos olhares em beijos de luar...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 4 de Março de 2015

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