Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cachimbo de Água

MENU

...

Francisco Luís Fontinha 18 Mar 15

A poesia habitava num edifício caquéctico, quinto andar esquerdo, António folheava as fotografias de Margarida,

O tempo entranhou-se nas nossas estórias,

Ouvia-a enquanto ela se despia,

Sentia-me uma letra esquecida nas pálpebras do anoitecer, lá fora brincavam crianças, fingiam que eram sombras húmidas abraçadas ao mar, o eterno

Se despia, dançava para mim, enquanto eu, eu nem a olhava, lia um poema de um autor desconhecido, embrulhava-me no poema... e

Se despia, o eterno momento do desejo, dois corpos de luz sós no vazio, nada, ninguém em redor, apenas percebia que o espelho do sexo baloiçava nas mãos de uma andorinha,

Miguel,

A guerra, “a merda da guerra”, a morte anunciada antes de partir

Vais morrer,

Antes de partir, nas mãos de uma andorinha, ele,

Fotografias...

Ele imaginava o pai um herói, e afinal... um covarde, o perfeito covarde das algas em flor...

Migue?

Sim, pai,

Ontem chegaste tarde a casa...!

Eu, pai?

António

Que não,

António defendia o irmão,

Tarde?

Cheguei depois dele...

Que não, que as guerras não deviam existir

Angola,

Amor de “mãe”,

Foi-se,

Morreu, em combate...

 

 

(ficção)

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 17 de Março de 2015

Sítios comuns

Francisco Luís Fontinha 17 Mar 15

Os sítios comuns

sempre a mesma rua

o mesmo cigarro

o senhor da esquina

jornais

sapatos

trapos

livros

velhos

o mesmo fumo

todos os dias

o horário nocturno,

 

as filas invisíveis para ancorar o sono

a cama

o sofá

velhos

iguais

feios

imundos como os meus poemas

os sítios comuns

em círculos de espuma

uma janela doente

o reumático

nunca se abre,

 

os ossos em papel

ardem

desassossegadas palavras

na algibeira do senhor da esquina

o corpo que se vende

e as estátuas que se compram

ninharias

coisas pequenas

pedras

barcos

cidades a apodrecer

sexos complexos nas montras do abismo,

 

acreditar

e desacreditar

nos livros

dos livros

e das jangadas de silêncio...

a mão poisa no ombro da manhã

afaga-lhe a cabeça

desenha-lhe no olhar a solidão dos panfletos adormecidos

publicidade

vende-se apartamento junto ao mar...

e sempre a mesma rua

sempre o mesmo cigarro.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 17 de Março de 2015

Sobre o autor

foto do autor

Feedback