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Cachimbo de Água

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Amanhecer

Francisco Luís Fontinha 22 Jun 15

A paixão do homem

No homem camuflado,

Salto os muros da infância,

Perco-me nas arcadas dos alicerces cinzentos,

Sei que hoje o meu destino,

É saltar,

Voar sobre os fios de seda dos teus lábios,

Tenho beijos na palma da mão,

Sou um clandestino silêncio à procura do amanhecer,

Palpita no meu peito

O cansaço dos sonhos adormecidos num qualquer Oceano,

Aqui,

Não sou ninguém,

Pareço as ruínas de um edifício de ossos,

O pó poisa nos meus ombros em cartolina solitária,

Como um lápis de carvão,

Deitado na eira…

Os dedos enterrados no chocolate teu corpo,

Os comboios imaginários entranhados nas tuas coxas de marfim,

A paixão do homem…

No homem…

O camuflado cinzeiro das noites sem dormir,

No homem,

O homem,

Sempre na esperança de partir…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 22 de Junho de 2015

Era Setembro

Francisco Luís Fontinha 22 Jun 15

(durante uns tempos não escrever; peço desculpa)

 

Não

Não tenhas pressa de partir,

Imagina no teu olhar

As sonâmbulas asas do mar,

A gaivota desesperada,

Triste,

Tão triste que não dá por nada…

Levanto as mãos,

Passo-as no teu cabelo,

Imagino os teus lábios alicerçados à montanha do Adeus,

Desenhos geométricos no teu peito,

Os teus beijos camuflados pela noite da insónia colorida de prata,

E eu aqui…

Sem nada nas mãos,

Falta-me a última palavra,

E de tantas que escrevo,

Não tenho nada,

Torna-se invisível o teu corpo na alvorada,

Pareces um comboio descarrilhado,

Enferrujado,

Sem maquinista nas curvas do Douro amado,

O poço da tua voz sangrento entre iões e protões,

A lâmina do teu cansaço poisada nos meus braços,

Encerro a janela,

Pego num livro de “AL Berto”…

E não vejo o mar a entrar pela janela…

Ausente,

A partida sem destino na cidade dos Cacilheiros,

O amor dos corpos em sofrimento amor,

Eles amam-se…

Eu.. eu amo-os,

Espalho a saliva do pensamento numa avenida sem nome,

O engate em Cais do Sodré,

O vento emagrecido,

Descendo a “Calçada da Ajuda”,

Eu parecia um cigarro em sentido,

Numa parada imaginária,

Um soldado,

Eu,

Imaginem eu um soldado,

Com uma espingarda de sémen

Disparando palavras contra a ponte 25 de Abril,

Era noite,

Ela lindíssima… vestida de luz

E carros em papel,

Deitava-me debaixo das estrelas,

Escrevia o teu rosto nas minhas lágrimas,

Embriagada cidade das águas sem nome,

Queria ser uma guilhotina,

Uma pistola em chocolate,

Comia a guilhotina…

E oferecia-te o chocolate,

Brincávamos,

Brincávamos entrelaçando as mãos na luz aérea do silêncio,

Emagreço,

Sonho com as tuas fotografias,

Acredito nos caixotes em madeira amarrotados no convés de um paquete,

Era Setembro,

Lembro-me do cheiro das videiras

E das ruas sem transeuntes,

Ouvia o suor das manhãs clandestinas,

O dia,

Anoite,

E o medo…

O medo que tenhas pressa em partir.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 22 de Junho de 2015

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