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Cachimbo de Água

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Despeço-me de ti

Francisco Luís Fontinha 2 Dez 15

Despeço-me de ti

Enquanto o meu corpo é desventrado através da mão da paixão

Cada pedacinho catalogado

Cada sombra desenhada na penumbra das imagens da loucura

Sou eu

O teu sonâmbulo beijo

Que as árvores comem ao pequeno-almoço

Sinto-me um pássaro nos teus lábios

Um rio descendo os teus seios mergulhados na poesia minha

O imbecil

Sou eu

Recordando sonhos das tristes tempestades de areia

O miúdo dos calções

Das sandálias…

Junto ao mar esperando o teu regresso

Leio os livros que escreveste na escuridão

Com uma esferográfica de cartão

Copiando as madrugadas num caderno negro

Quadriculado

O quadrado

A esfera omnipotente da sensação de estar só

E acredita

Estou só

Só hoje

Amanhã… amanhã não

O dia aparece no meu olhar vestido de sono

Pareço um palhaço brincando num quintal longínquo

Lá longe

Das fotografias aprisionadas numa estante vazia

As personagens invisíveis da minha infância

Descendo a calçada de bicicleta

O medo de

Perder-me

Perder-te

Ou amar-te

Tanto faz

E acredita

Estou só

Despeço-me de ti

Escrevo as minhas últimas palavras

Ofereço-te a minha última fotografia

Nunca tive irmãos irmãs…

Nunca tive um País

Uma Nação para com quem conversar

Sou um apátrida

Nasci no mar

Sou filho de ninguém

E apelidaram-me de… vejam lá só… J O A Q U I M

Quim para os amigos

Senhor Joaquim para os desconhecidos

E Quinzinho para ela…

Que tédio

Nervos

Euforia de estar só neste compartimento de vidro

Não tenho cortinados

Primeiro andar

Ou escadas de acesso ao sótão

Sou um triste

Nasci no mar

E acredito que a morte é um amontoado de sonhos com acção de despejo

Tudo penhorado

A vida

A morte

Assim-assim

O dia

A noite

Assim-assim

Tive um cão de nome REX

O meu melhor amigo

Ciumento

Doentio

E às vezes… traz

Dedo para o “caralho”

Fico só

Eu e ele

A dor

O sofrimento de uma noite de Dezembro

Confesso

Não gosto do Natal

Nunca

Nunca gostei

E hoje

E hoje tenho saudades do Natal…

Porque me despeço-me de ti.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

quarta-feira, 2 de Dezembro de 2015

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