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Cachimbo de Água

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Regresso (Setembro de 71)

Francisco Luís Fontinha 18 Set 15

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(Francisco Luís Fontinha – Setembro/2015)

 

Perco-me nos teus olhos de cereja envenenada,

Ao amanhecer, oiço a tua voz fundeada nos meus braços,

Um barco, sem rumo, desnorteado junto aos rochedos da noite…

Olho-te,

Beijo-te,

E sinto sobre mim todas as estrelas,

E sinto dentro de mim o teu corpo disfarçado de papel colorido,

Desenho em ti os sonhos,

Escrevo em ti todos os sorrisos dos marinheiros,

Olho-te, beijo-te…

Até que regressa a morte,

E desapareces na neblina do silêncio…

 

Despeço-me da tua sombra,

Invento cigarros nas andorinhas em flor,

Um barco, meu amor,

Um barco entre círculos de desejo e cubos de paixão,

Brinca na tua pele de amêndoa amaldiçoada,

Entra no teu peito,

Deita-se no teu coração…

E mais nada temos para escrever,

Não temos medo da geada

E das fotografias vestidas de madrugada,

(Perco-me nos teus olhos de cereja envenenada,

Ao amanhecer, oiço a tua voz fundeada nos meus braços),

 

E sei que amanhã não terei palavras para aprisionar o teu olhar,

 

O triângulo poético das tuas coxas suspenso no luar,

Um barco, meu amor,

Um maldito barco me trouxe para esta terra…

Maldito Setembro,

Maldita sanzala agachada no cacimbo…

E brincava com os mabecos,

E brincava com os papagaios de papel escrevinhado,

Sem tempo,

Sem sono,

Habito neste inferno sombreado de machimbombos

E triciclos apodrecidos…

E nunca tive coragem, meu amor, e nunca tive coragem de saltar o portão de entrada.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 18 de Setembro de 2015

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