Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cachimbo de Água

MENU

A janela com vista para o mar

Francisco Luís Fontinha 1 Ago 17

Uma janela com vista para o mar,

O barco da despedida espera-me, e brevemente estarei nos teus braços,

Um livro recheado de imagens a preto-e-branco,

Renasce na tua mão. Posso manuseá-lo, mas perco os desenhos imaginados pelo louco autor das searas imaginárias,

Enquanto o trigo se despede da planície…

 

Eu brinco com o teu olhar escondido na sombra das árvores.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 1 de Agosto de 2017

as ruas húmidas do desejo

Francisco Luís Fontinha 24 Fev 15

Desenho_A1_056.jpg

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

quando as palavras semeadas no papel envelhecido

morrem

aquele que as escreve

despede-se

entre lágrimas e falsos sorrisos

um desenho insignificante

poisa docemente no vulcão da madrugada

sem mágoa

ou... ou paixão

abraça-se à noite dos tristes aconchegos

grita pelos sonhos

e... e em vão...

 

percebe que a vida é um triângulo de luz

voando nas ruas húmidas do desejo

tenho medo do silêncio

e do cansaço dos dias junto ao rio...

aquele que as escreve

despede-se

e parece um vadio

esmiuçando ossos e cigarros

ou... ou talvez não...

porque tem no corpo um vazio

um buraco negro recheado de insónias e imagens sem nome

como têm os pássaros nos prismas imaginados por uma árvore doente...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2015

 

Avenida da paixão

Francisco Luís Fontinha 28 Out 14

Os relógios enferrujados

encolhidos nas tristes alvenarias

as janelas escondidas...

no olhar da serpente

 

as estilhas adormecidas

nos pregos dentados

os relógios... os relógios encalhados

em rochedos rendilhados

 

o pólen de um olhar

semeado na escuridão

e os relógios sem fôlego

e os relógios... e os relógios sem pão

 

e a paixão?

matriculada nas putas avenidas

correndo

saltando... os muros embriagados dos ossos embalsamados

 

os relógios...

escrevendo na pele da solidão

horários enlouquecidos...

sem vontade de sonhar

 

sonhar a paixão?

há cadáveres perdidos

na eira da infância...

colchas de linho... suspensas nas árvores tombadas no chão.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 28 de Outubro de 2014

Três círculos de luz

Francisco Luís Fontinha 14 Ago 14

Uma casinha habitada por pequeníssimas lâminas de papel,

um coração de cacimbo voando sobre as sanzalas com telhados de insónia,

um homem, um poeta..., e a amante do poeta,

um corpo pendurado na preia-mar,

que espera o regresso do sonâmbulo cansaço da madrugada,

o silêncio disfarçado de mendigo passeando-se pelas ruas da cidade,

uma janela que nunca, que nunca se abre,

um poema nas mãos da clarabóia com braços de luar,

uma casinha,

e lâminas de papel,

um sorriso, um desejo... e três círculos de luz nos lábios do pôr-do-sol,

o sonho...

 

As paisagens pigmentadas nas paredes da casinha,

as palavras acorrentadas no estendal poético,

uma eira deserta, uma eira de vinil girando na noite...

e o sonho,

e o lugar que me falta alcançar antes de morrer,

a escola morta, a escola um amontoado de escombros,

cadernos apodrecidos,

quadriculados momentos que ficaram sob a árvore de sisal,

um menino brincando com um velho “chapelhudo”...

e um triciclo com o assento em madeira,

o mar, o mar do Mussulo em tracejadas rotações de amar,

no sonho, no sonho de voar...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 14 de Agosto de 2014

Cidades com coração de pedra

Francisco Luís Fontinha 17 Jul 14

Não me perguntes onde vivem as cidades com coração de pedra,

porque a noite é escura, porque a noite é bela, e sombreada...

não me perguntes de quantos desejos estou à espera,

porque não espero desejos,

porque não existem desejos nas cidades com coração de pedra,

 

Não me perguntes a cor do meu olhar,

não,

sim, sim... eu tenho olhar,

mas... mas não desconheço as cores,

mas... nunca vi o mar, o amor, e as flores,

 

Não me perguntes...

porque há em mim uma lâmina em betão armado,

triste,

triste e cansado,

não,

não me perguntes pelas árvores do meu quintal,

não, e nunca... e nunca tive um quintal,

e nunca, até ver... fui... fui degolado,

posso ser parvo,

e louco,

mas... mas não conheço as cores,

mas... mãos não sei o significado de “amores”,

 

Tudo para mim é pouco,

e perguntarem-me pela madrugada é como se me tirassem os livros, e o luar,

e a insónia, e todos os sonhos de criança...

 

Não me perguntes onde vivem as cidades com coração de pedra,

não me digas que amanhã os beijos são de papel,

não, não o suportaria...

que um dia,

que um dia me perguntasses como são os meus lábios enquanto dormem...!

 

Porque,

Porque os meus lábios nunca, nunca, porque os meus lábios nunca dormem.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 17 de Julho de 2014

casa da paixão

Francisco Luís Fontinha 4 Mai 14

esta casa sem mãos

esta casa com paredes de papel

esta casa sem janelas

porta de entrada

sem música

ou... palavras,

 

esta casa disfarçada de corpo

o teu corpo vestido de granito

esta casa

este grito,

 

esta casa sem amor

nem luz

nem... nem flores

esta casa vadia

escondida nas árvores do quintal imaginário

coitada desta casa apaixonada

que sofre

que vive...

esta casa

uma casa embrulhada em poesia

esta casa sem paixão...

esta casa... uma casa sem coração.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 4 de Maio de 2014

candeeiros com braços de prata

Francisco Luís Fontinha 18 Abr 14

quatro bancos em madeira

um jardim em desassossego

três árvores

… duas belas mulheres

uma Primavera

com plátanos de brincar

quatro bancos em madeira

dois corpos em translação

quatro seios em rotação

… e duas belas mulheres

duas mulheres em solidão

quatro bancos em madeira e uma gaivota em papel

 

um barco com pálpebras de chocolate

um marinheiro vestido de vampiro

duas belas mulheres

e quatro bancos em madeira

percebem na insónia a sinfonia dos candeeiros com braços de prata

um jardim em desassossego

um Oceano desgostoso

triste...

tão triste como os fios de nylon que aprisionam o sexo dos pássaros

uma Primavera inventada pelo poeta dos farrapos amanhecer

senta-se nos quatro bancos em madeira...

… acaricia as duas belas mulheres e as três árvores

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 18 de Abril de 2014

Coração em pedra

Francisco Luís Fontinha 29 Mar 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Ele tinha um coração em pedra, daquela pedra ínfima que alimenta os beijos nocturnos dos pássaros,

vinha a chuva, e viam-se-lhe as perdidas chapas de zinco nos pobres telhados da madrugada,

hoje, ele, hoje ele dispensa o significado da palavra “AMOR”, porque onde a tinha escrito, na folha caduca da árvore tombada, essa, essa... morreu, morreu a palavra... morreu a árvore tombada,

fingiam-se amantes abraçados aos pinheiros mansos no recreio da escola, e sempre, e sempre havia uma janela em ruínas, pedaços de lágrimas que sobejavam do sino da Igreja,

ao longe sentiam-se os feirantes que tudo vendiam, e de nada servia gritarem... “Vendem-se Beijos Embalsamados”, porque de beijos, nada, nem o vento, nem o triste amanhecer na boca dela,

 

Desenhei-lhe os lábios na esplanada do falso diamante,

escrevi nos seus seios “AMAVA-TE”..., hoje escrevo, não, hoje nada lhe escrevo, porque o amor desaparece e aparece como as sombras dos barcos em movimento,

recordo o púbis coloidal do imaginado olho de vidro, fundeado na minha mão,

a mesma que depois de suicidada, acariciava-te os esconderijos do néon vaginal,

e assim, ele tinha um coração em pedra, e assim... ele dorme sobre as candeias do luar.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 29 de Março de 2014

Testemunhas de uma fogueira em evaporação

Francisco Luís Fontinha 16 Mar 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Não sei quem és, como te vestes e o que pronuncias, não sei se és um pássaro em decomposição, uma árvore solitária que habita os jardins da cidade adormecida, tão pouco se és a madrugada, o Domingo quase a terminar, a noite a nascer, não, não sei o que és e quem tu és,

Como posso eu sorrir às tuas lágrimas? Percebes-me agora? O Domingo em término, a noite quase noite, a crescer e a erguer-se na tua boca de cristal, e quase não oiço as tuas palavras de porcelana, e quase, a janela da paixão a encerrar-se eternamente, para sempre e só..., hoje tu, amanhã eu, depois as pedras e os canteiros, as flores, os pinheiros de uma infância entre o mar e a montanha, sinto-me prensado, sinto-me um muro argamassado pela tristeza,

Quem sou?

Não sei, nunca soube, talvez... talvez no Domingo que vem, talvez amanhã, talvez no descanso das roldanas, uma corda em direcção ao sexto andar, subo as escadas, sinto-me cansado, os cigarros, a idade, a saudade, novamente os cigarros,

Oiço-os como testemunhas de uma fogueira em evaporação,

Cigarros vadios, como-os vivos, oiço-te e não sei

Quem sou?

Sim, e tu, quem és, o que fazes aqui, aqui dentro de mim?

Uma esplanada vazia, e regressa o dia da Poesia e eu sem poemas para ti... porque, porque não sei quem és, o que fazes dentro de mim, deixas-me cansado, ausente, embriagado, e sei que algures nessa cidade vives e choras, e recordas meia dúzia de cartas, poucas palavras,

E eu, eu sem poemas para ti,

Quem sou?

O vento, sim o vento, pensas que eu sou o vento? Sim, penso, imagino-te sentado na esplanada vazia, apenas uma mesa e quatro cadeiras, conversas com duas ou três sombras, bebes uma bebida invisível, pegas num livro, voltas a poisa-lo sobre a mesa, depois vais à gabardina e puxas de um pequeno caderno, acendes o cigarro, desorientadamente...

Quem sou?

O cigarro acende-se a ele próprio, ganha vida como as tuas palavras, sofre e chora, e acredita na tristeza como acredita que tu, sim tu

O vento!

Sim eu, percebo que me imagines como o vento quando se alicerça na minha pele, sim como o vento, quando rodopia em redor dos meus seios, e tu, e tu

Eu?

Oiço a voz, oiço-os a arder na escuridão de um final de Domingo, amanhã, amanhã talvez..., amanhã talvez “uma esplanada vazia, e regressa o dia da Poesia e eu sem poemas para ti... porque, porque não sei quem és, o que fazes dentro de mim, deixas-me cansado, ausente, embriagado, e sei que algures nessa cidade vives e choras, e recordas meia dúzia de cartas, poucas palavras”, e eu, e... eu,

Só, eu e uma corda em direcção ao sexto andar...

E eu, eu sem poemas para ti,

Quem sou?

 

(ficção)

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 16 de Março de 2014

Uma cabeça

Francisco Luís Fontinha 1 Fev 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Uma cabeça voa nas esferas transversais da paixão,

pausa, recomeça num ritmo desenfreado como se fosse uma gaivota na roda da solidão, chove,

dormes fingindo que sonhas, e sonhas... fingindo que as mãos do desejo existem como existem... como existem as árvores, como existem os pássaros... pássaros, como existem as nádegas tuas nas cansadas geadas,

oiço e sinto-te quando caminhas no corredor da escuridão, trémulo, estonteante, como um vagabundo em busca de moedas esquecidas nas madrugadas do adeus, e chove e ris-te como se eu fosse o teu único espelho das manhãs sem sentido,

uma cabeça, uma cabeça regressada do infinito espaço das arcadas sem janelas,

os pássaros, os malditos pássaros, a loucura, a eterna loucura quando imitas os pingos Invernais da chuva,

hoje chove,

hoje parecias triste, ausente... um ninguém... sem cabeça, ela voa, ela parece um pássaro à porta de entrada do pólipo envenenado, hoje, hoje chove e tu, e tu... uma cabeça voa nas esferas transversais da paixão,

não dormes,

não comes... mentes,

e acreditas nas palavras que escrevo quando eu nunca escrevi nada, nada, nada do que tu percebas, do que tu entendas, porque eu, eu... sou uma cabeça que voa, que voa, voa... da paixão,

e na paixão adormeceu... e da paixão... morreu.

 

 

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 1 de Fevereiro de 2014

Sobre o autor

foto do autor

Feedback