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Cachimbo de Água

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Defuntos cigarros

Francisco Luís Fontinha 31 Jul 17

Pergunto aos defuntos cigarros meus onde está o vazio,

Esta simples forma de viver acorrentado à cidade adormecida,

A doença aproxima-se,

Esconde-se no fumo,

E desaparece na madrugada,

 

O corpo range,

Evapora-se na tridimensional poesia da tarde,

O livro morre,

De tanto viver a saudade,

 

Pergunto-me… porquê?

 

Naves espaciais poisadas no meu quintal,

Homens pequenos,

Fumam cigarros emagrecidos pela geada,

Apetece-me fugir com eles,

Libertar-me destas correntes de aço,

E nunca mais regressar aos teus braços.

 

Defuntos cigarros,

Nas mãos calejadas pela caneta…

 

Palavras enroladas no vento…

 

Palavras mortas na noite.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 31 de Julho de 2017

Os barcos da solidão

Francisco Luís Fontinha 30 Jul 17

Nos olhos, a penumbra pomba adormecida,

Um raio de luz desce e poisa-lhe na mão amachucada pela alvorada,

O silêncio frio da despedida…

Quando o Tejo se esconde na madrugada,

Os barcos da solidão, cansados de esperar pela partida,

Uma casa abandonada, recheada de flores adormecidas,

Canções de amor, palavras esquecidas…

Não mão do escritor,

Sempre tive sonhos,

Viver sobre o mar da esperança,

Levantar bem alto o levante sofrido da escuridão…

Quando criança,

Pegava num pedaço de papel…

E escrevia-te, não percebendo que não existias…

Amanhã nova caminhada,

Amanhã nova estória…

Ensanguentada,

Liberta da memória,

E dos pilares de areia da saudade,

Nos olhos, a penumbra pomba adormecida,

Vive-se vivendo na tentativa de partir…

E nada deixar sobre a mesa… sobre a mesa sofrida.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 30 de Julho de 2017

O fantasma do fim de tarde

Francisco Luís Fontinha 23 Jul 17

Batem à porta,

Não vou abrir…

Nada espero, ninguém me espera…

Neste fim de tarde junto à janela.

Sentado.

Não me levanto,

Olho o relógio e são dezoito horas,

Tempo necessário para ir à doca e abraçar-me ao barco dos teus braços,

Batem à porta.

O silêncio constrói-se em mim com uma cabana na montanha,

Sinto o mar dentro do meu corpo indefeso,

Quando regressa o pôr-do-sol…

Batem à porta,

Não vou abrir…

Nada espero…

A não ser ficar aqui sentado.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 23 de Julho de 2017

O delírio fantasma da paixão

Francisco Luís Fontinha 11 Jun 17

O delírio fantasma que a paixão oferece nas noites de melancolia,

Vivo nesta cabana encerrada e sem alegria,

Entre livros e papelada,

Entre copos e corpos sofridos na madrugada,

Tenho nas veias o teu nome,

E na algibeira as réstias da fome…

Do mendigo ancorado às esplanadas de lata,

O Domingo termina na sanzala…

No capim brincam as minhas mãos de fada…

Que um papagaio de papel inventou na alvorada,

Sinto neste meu corpo desajustado da realidade

O vício sintético da falsidade…

O orvalho clandestino,

O sorriso do menino…

Na praia do Mussulo,

Só e abandonado,

Só e amedrontado,

Só nos rochedos pincelados de palavras mortas

Pela caneta do poeta,

Fracassado,

Pateta…

O delírio fantasma

Dos arraiais da felicidade,

Foguetes, e pó de enxofre na claridade nocturna do sentimento,

Sofro, sofro e guardo no sorriso a tua despedida…

Sangrando as avenidas

Desta cidade perdida,

Um diário disperso, um livro desassossegado,

O vazio buraco negro do desgraçado…

Mendigo da multidão,

Haja alegria e pão na eira,

Que no corpo da feiticeira

Argamassam os lábios da solidão,

Não durmo, meu amor, deixei de dormir, meu amor…

E passo a horas a desenhar,

No teu corpo, meu amor,

O delírio fantasma da paixão.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 11 de Junho de 2017

As cordas da saudade

Francisco Luís Fontinha 28 Mai 17

As cordas da saudade são invisíveis nos meus braços,

Oiço o apito dos barcos apedrejados pela maré quando o meu corpo envelhece no teu peito,

Sou fraco, sou fraco como uma simples folha amarrotada de papel encharcado de lágrimas,

E lá longe, os livros entranham-se no meu olhar,

Dançam nas minhas mãos as cansadas palavras da vaidade,

Oiço, oiço a pobreza das ruas em flor,

Me mato, parto em direcção ao rio subterrâneo da solidão.

Desço ao poço do sofrimento como uma gaivota envenenada…

Bebe, bebe sem a noção do tempo embriagado pelo sangue,

E escreve uma carta de despedida,

Sinto o desejo enjoado pela ondulação das nuvens prateadas,

E esqueço-me da tua ausência…

Adormeço em ti,

Adormeço como um sonâmbulo ruivo construído de barro nauseabundo do silêncio,

Ergo-me diante do espelho,

Vejo um cadáver sem nome,

Perdi-me,

Envelheci nos olhos das flores abraçadas pela noite,

Envelheci nos olhos das pedras dos alicerces da penumbra,

Os barcos nas minhas veias encostados ao coração…

Eu criança,

E brinco com as algemas de alvenaria da brincadeira,

Como um puto deambulando pelas ruas, livre como um pássaro,

Lindo como o pôr-do-sol,

Quando os amigos se despedem da minha sombra,

Sinto no meu caixão o mar da saudade invisível nos meus braços…

E caminho sobre a areia adormecida da limpidez dos beijos que um caderno quadriculado guarda na algibeira do remoto silêncio das ruinas…

E o medo envelhece a tristeza da partida,

Sempre se perde nos sonhos escoriados das palavras deitadas na fogueira,

Há na tua morte um sentimento de esquecimento,

Uma palavra estonteante que se alicerça às tuas coxas…

E no caixão dorme o meu olhar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 28 de Maio de 2017

Entre mim em ti… meu amor

Francisco Luís Fontinha 1 Abr 17

Os mares envergonhados da solidão

Que caminham durante a noite nos meus braços cansados,

Sinto no corpo as cancelas imaginárias da saudade

Como um sonâmbulo tresloucado,

Inferioridade minha das terras envenenadas

Da terra queimada,

Hoje, nada tenho para te oferecer,

Nem palavras,

Nem… nem amanhecer,

Os mares envergonhados…

Que as canibais laranjas deixam ficar nos teus lábios

E do sumo apedrejado pela loucura

Regressam as sonolências viagens sem destino…

Tenho no corpo o peso doirado da lua

Que alimentam as minhas mãos

Do silêncio vergado pelas pedras da paixão,

Não preciso da tua boca,

Dos teus beijos,

Das… das tuas palavras vãs…

Queria ter no peito o sol amargurado das ribeiras clandestinas

Que descem os socalcos do sono,

Envergar na lapela as sombras tumultuosas que poisam na minha janela,

Os pássaros destinos das árvores enganadas por mim,

Os papéis secretos do voo frenético e engasgado das gaivotas libertinas,

Às vezes tenho medo,

Às vezes pareço um menino aprisionado no cais da esperança,

Abraço-te imaginariamente como um louco veleiro encalhado na sombra inocente do esplendor amigo da rua sem nome…

Os vidros em cacos escorregam pelo meu corpo de pedra lascada

E suicido-me quando cai a noite em ti,

Meu amor, em ti…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 1 de Abril de 2017

Lábios sonâmbulos

Francisco Luís Fontinha 15 Mai 16

Hei-de construir um barco que voe…

Sobre os sobreiros da minha alma,

Hei-de desenhar um pássaro que navegue…

Nas ténues águas do meu corpo,

Como eu adoro habitar no silêncio…!

Arrancar todas as amarras da tarde

Que um louco relógio de pulso alicerçou ao meu peito,

A espuma do teu olhar enfeitado de amêndoas e flores,

O remorso da paixão absorvida pela solidão

Dos quintais de areia…

Hei-de construir um coração

Com as lâminas dos teus beijos,

Abraçar-te na escuridão depois de partir a noite,

E dizer-te baixinho… e dizer-te baixinho que amanhã há sonhos,

Palavras,

Livros com sabor a medo,

E na confusão do dia…

Hei-de construir um barco…

Um barco com lábios sonâmbulos.

 

Francisco Luís Fontinha

domingo, 15 de Maio de 2016

A morte do dia

Francisco Luís Fontinha 3 Mai 16

O dia desaparece nos alicerces da solidão,

O meu corpo finge não pertencer a este objecto inanimado

Que habita esta casa, ouvem-se os pequenos resíduos do cansaço,

E antes de regressar a chuva, termino o meu desejo.

A paixão quando os olhos navegam sobre as searas conduzidas pelo vento,

E que mais tarde morre junto ao cais do sofrimento,

A dor entranha-se nos ossos da tristeza,

O silêncio alimenta o desassossego da alma…

Que permanece impávido quando lhe toco com a minha mão,

Não importa se a noite traz o prazer do sono,

E se os sonhos são desenhados nos corredores inabitados deste rio sem nome…

Morre o dia.

Libertam-se de mim todos os círculos da geometria

E todas as palavras do alfabeto,

O dia já foi, e não voltará mais ao meu corpo,

Abro a janela, sinto o odor do teu olhar

No sexo da melancolia,

Entre azedumes e poemas…

Camuflados pelo incenso da madrugada,

Odeio o teu corpo como sempre odiei o meu,

Pedaços de farrapos suspensos no estendal embrulhados em cordas de nylon,

Descendo a montanha,

Desço-a enquanto o dia é levado para outros longínquos lugares,

Triângulos de papel que ardem à minha passagem,

E tudo em que toco… arde, ou morre…

Morre o dia. Ergue-se a noite no esplendor do esquecimento, e este circo não cessa de dançar sobre os rochedos do medo,

A doença toma conta de mim,

Fico ausente perante os teus olhos,

Fico ausente quando acorda a noite e se libertam de mim as frágeis tempestades de areia,

O mar imagina-me brincando junto aos barcos de esferovite,

Sem motor,

Espero o vento das aldeias em flor,

E quando me apercebo… estou em pleno Oceano,

Liberto de ti

E das garras do teu corpo,

Morre o dia.

Morre o meu corpo.

 

 

Francisco Luís Fontinha

terça-feira, 3 de Maio de 2016

Noite geométrica

Francisco Luís Fontinha 14 Abr 16

A desordem das coisas

Quando as roldanas da saudade invadem a noite,

Levam-me o sono,

Levam-me a alegria dos sonhos

Enquanto lá fora a ténue madrugada grita sozinha.

Não.

Avisto os rochedos cravados nos socalcos da insónia,

Visto-me de branco,

Alimento-me das palavras semeadas pela enxada da solidão, amanhã,

Um pedaço de terra tapar-me-á como se fosse um lençol de linho,

Branco e fino,

Com desenhos abstractos que só eu consigo ler,

Não.

A hipotenusa acorrentada à tangente do sofrimento, o seno do desejo, algures encurralado dentro do triângulo rectângulo, e um vício de seda entranha-se no teu corpo,

A geometria da ausência sente-se nos teus lábios,

A recta do amor escondida na mão dos cristais de prata,

Não, não, a fotografia minha despede-se do silêncio,

Oiço os apitos,

Oiço os navios que partem para o desconhecido,

Não. Não.

A desordem das coisas

No limite da escuridão,

O alpendre submerso pelas abelhas que procuram a minha fotografia, não, não preciso de mel, não, não preciso do mar e dos rios sem nome,

Porque amanhã, um pedaço de terra tapar-me-á como se eu fosse uma pedra sonolenta, triste, recheada de olhares sem amanhecer,

Não.

Não.

 

 

Francisco Luís Fontinha

quinta-feira, 14 de Abril de 2016

Barcos em silêncio

Francisco Luís Fontinha 18 Mar 16

Uma janela de sombra

Suspensa no parapeito da saudade

O equinócio sonho

Atormentado

Espera os meus braços de granito

Um grito

E fujo

Salto a janela de sombra

Corro calçada abaixo

Até tocar o rio salgado pela inocência da noite

E sou apedrejado

Pelos barcos em silêncio…

 

Francisco Luís Fontinha

sexta-feira, 18 de Março de 2016

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