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Cachimbo de Água

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Sombras de papel

Francisco Luís Fontinha 10 Ago 17

Minha querida Mirian,

 

 

A pureza dos teus lençóis de prata enganando o meu rosto carcomido pelo teu sorriso,

Recordo os teus beijos aprisionados aos meus,

Quando tínhamos a janela aberta e entrava em nós a fragância do Sol que nos abraçava nocturnamente,

Poisavas o teu cabelo nos meus seios suados pela tristeza da tua partida,

Ouvíamos música, entrelaçávamos os dedos como duas crianças num qualquer jardim,

Brincando com pequeninas pedrinhas de sombra,

Sabes, meu amor,

Deixei de ler os teus versos,

Deixei de abraçar as tuas palavras como fazíamos no Inverno, quando abraçávamos o vento regressado das estátuas de luz,

Deixei de pertencer às tuas coxas desenhadas nos círculos de desejo, ao longe a árvore que nos escondia da tempestade,

Deixei de viver, meu amor,

Apenas finjo caminhar sobre a areia molhada da tua pele…

E ambas sabíamos que um dia tudo terminaria… a trágica morte das nossas sombras de papel.

 

Beijos

 

 

 

Viviane

Alijó, 10 de Agosto de 2017

Viagem ao Inferno

Francisco Luís Fontinha 6 Ago 17

Vai até à escuridão dos dias falidos,

Vai, corre enquanto a noite não regressa e te leve…

Vai até ao rio ver as gaivotas,

Os candeeiros devolutos abraçados aos barcos ancorados,

Vai, vai até à maré e finge que está tudo bem,

Está sol,

Tens as minhas palavras na mão…

Vai, vai até à revolta dos meninos que brincam na rua,

E nunca digas que estás triste,

E nunca digas que amanhã não estás cá…

Vai…

Vai e volta quando te apetecer regressar…

Mas nunca digas não.

Vai…

Vai e abraça-me,

Até que a saudade nos separe.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 6 de Agosto de 2017

A janela esfomeada

Francisco Luís Fontinha 25 Jul 17

Uma janela esfomeada

Virada para o mar,

O cansado dia prisioneiro na janela virada para o mar,

Uma janela esfomeada

Na luminosidade obscura da cidade,

Entra um barco em soluços,

Embriagado pelo sal,

Uma janela esfomeada

Na sombra das árvores do quintal,

Um pássaro vestido de janela…

Procurando o cortinado do anoitecer,

A prenda,

O segredo de hoje,

Os indignados de ontem…

Com a notícia de hoje,

O prego enferrujado no “CU” de Judas…

Longe de mim,

Perto de ti…

Uma janela esfomeada

Sem coração,

Recheada de beijos,

Abraços…

E o carrasco enforcado na janela esfomeada,

Virada para o mar…

Termina o Sol,

Nasce a noite nos socalcos do cansaço…

E vai-se vivendo ouvindo as tuas palavras vãs…

O anão,

O eterno anão a “cagar” no deserto.

FIM.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 25 de Julho de 2017

O homem suicidado (II)

Francisco Luís Fontinha 3 Jul 17

Uma criança de luz adormece no teu sorriso prateado,

Oiço o rosnar do fumo dos teus cigarros envenenados pela escuridão,

E o teu corpo é apenas um amontoado de ossos,

Morres-me nas mãos,

Suicidas-te com as palavras perdidas na Calçada do Adeus,

Pobre criança sem Pai,

Pobre luz sem Mãe,

E do mar regressam as cordas do teu sofrimento,

Alicerças-te a mim,

Pareço um rochedo ingrime perfurando o intestino do suicidado…

Nada mais posso desejar,

Que partas em breve….

E sejas feliz assim,

 

Assinado,

 

O homem suicidado.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 3 de Julho de 2017

O homem do mar

Francisco Luís Fontinha 1 Jul 17

Sentas-te no meu colo como dois pilares de areia envenenados pelo silêncio,

 

Oiço a tua respiração romper a manhã,

Ainda o sol não acordou,

Pego na tua mão,

Desfeita de aventuras,

E ternuras,

Que o tempo levou…

 

E perdeu no chão,

A chave do teu coração,

 

Sentas-te na minha sombra, menina do teu olhar,

 

Desfeito em lágrimas o amanhecer ausente,

Duas portas sem saída,

Nesta cidade perdida…

Perdida que não sente,

 

Porque te sentas,

Em mim,

 

Todos os dias loucos sem madrugada,

 

Oiço a tua voz pergaminho,

Perdida na brancura da razão,

Estou só, e sou um ninho…

Um ninho na solidão,

 

Sentas-te em mim,

 

Um homem construído de mar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 1 de Julho de 2017

O grito

Francisco Luís Fontinha 24 Jun 17

Neste cansaço dia

Sinto o abraço da alegria,

Sou um homem desajeitado

E sem sono,

Sou uma pedra imperfeita,

Sou uma nuvem desfeita…

E este corpo ancorado,

E este corpo cruxificado ao teu olhar madrugada,

O feitiço de amar,

Na planície magoada

Pela bela trovoada…

Sou um homem desiludido com a cidade dos Deuses Tristes de Morrer…

Uma amêndoa apodrecida jaz sobre a minha mão de escrever,

Sempre me recordam as cinzas do teu silêncio amanhecer,

Neste cansaço dia

Sinto o abraço sem perceber o que sentia,

As albufeiras da solidão

Descem a montanha até ao meu coração,

Irritado,

Sou uma pedra de granito

E grito…

E sinto sem sentir…

A alegria de sorrir,

Na tristeza do grito.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24 de Junho de 2017

Vou escrevendo

Francisco Luís Fontinha 20 Jun 17

Vou escrevendo antes que termine o dia,

E o meu corpo, se transforme em cinza luar,

Vou escrevendo sem alegria,

Porque regressando a noite escura,

Não tenho força para abraçar o mar…

Nem tempo para a ternura,

 

Sei que aos teus olhos sou um cadáver sem destino,

Um barco ancorado ao teu sorriso de prata,

Um pobre menino…

Vivendo num bairro de lata,

 

Vou escrevendo…

 

Vou escrevendo antes que termine o dia,

E o meu corpo, se transforme em cinza luar…

 

Vou vivendo o dia, antes que este termine e regresse o teu cabelo desajeitado,

Oiço no teu silêncio a viagem do mendigo…

Quando em tempos sentia

O peso esquecido

Da morte espada sentes de lutar,

 

Há-de crescer um dia,

Onde vou escrever as palavras dardos de sangue das tuas coxas de xisto prateado…

Sento-me na rua…

Sento-me, escrevendo o que a mão me deixar,

E alguém dizia,

Que a tua poesia

Livre e nua

Adormecia na minha solidão de amar…

 

Vou escrevendo, vagabundo da cidade perdida.

 

 

 

Francisco Luís fontinha

Alijó, 20 de Junho de 2017

Por uma vida melhor

Francisco Luís Fontinha 19 Jun 17

Por uma vida melhor,

Partir sem nada dizer,

Caminhar sobre a sombra do teu corpo,

Quando o mar se suicida contra os rochedos da inocência,

 

Por uma vida melhor,

Sentar-me junto ao rio,

Percorrer as ruas desertas de um livro…

De um livro acabado de morrer,

 

Por uma vida melhor!

 

Deixar-me desfalecer nas avenidas transparentes do infinito.

 

Por uma vida melhor…

 

Deixar de respirar,

Fugir para a montanha…

Ser pássaro sepultado na planície…

Por uma vida melhor,

 

Adormecer no teu colo.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 19 de Junho de 2017

Fuga

Francisco Luís Fontinha 15 Jun 17

Embrulho-me no fumo dos meus pobres cigarros,

Um cobertor obscuro de silêncio evapora-se no meu quarto… e rumo à janela desaparece no rio das pontes invisíveis,

Sinto o orvalho clandestino e secreto do teu sorriso,

Os barcos ancoram nos teus braços de silício…

E tenho medo de perder-te na escuridão do deserto,

 

A falência dos meus órgãos começa em cada Primavera,

E a vida é um destino longínquo de sofrimento…

Junto às tangerinas,

 

Morro na tentação de me evadir deste presídio abandonado,

 

Junto à janela,

 

Sentado na tua solidão.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 15 de Junho de 2017

Nunca me encontrarás

Francisco Luís Fontinha 8 Jun 17

Nunca me encontrarás porque eu sou a sombra,

Nunca me encontrarás junto ao rio a escrever nos teus lábios de Belém,

Nunca me encontrarás nos jardins de Belém…

Nem nunca me encontrarás abraçado aos braços da maré,

Nunca me encontrarás sentado a pensar em ti… porque, porque deixei de pensar em ti,

Hoje, nunca me encontrarás a desenhar nos teus lençóis os meninos a brincar na praia,

Porque a praia morreu,

Porque os meninos morreram,

Nunca me encontrarás enamorado pelo teu olhar,

Debaixo das nuvens envergonhadas dos finais de tarde,

Nunca me encontrarás enrolado nas tuas mentiras…

E batem à porta…

E espero que não me encontres neste circo ambulante,

Observando as árvores assassinadas pelos teus dedos…

Nunca me encontrarás nesta casa desajeitada e sem porta de entrada,

Que nem uma simples caixa do correio tem para receber as tuas cartas perfumadas,

Nunca me encontrarás a olhar o Sol… porque odeio o Sol,

Detesto o Sol.

Nunca me encontrarás passeando na rua atropelando automóveis famintos,

Tristes…

Tristes desencontros das ancoradas em flor…

Nunca me encontrarás nas tuas cartas nem no interior dos teus livros,

Porque não o quero…

Não quero ser encontrado.

Nunca me encontrarás.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 8 de Junho de 2017

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