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Cachimbo de Água

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A arte de ser poeta

Francisco Luís Fontinha 12 Jul 17

As palavras escrevem-se no rosário da noite,

Crescem livros de porcelana,

Relógios de Sol…

Telas em branco saboreando os pincéis da solidão,

Deito-me nesta cama,

E sem palmilhar este chão,

Agreste como aqueles que não têm pão,

O trigo invade a seara,

Desce a montanha…

E perde-se na razão.

 

 

As palavras ardem nesta fogueira,

Coração fraccionado e em pedacinhos,

 

Sempre que não regressa a tarde.

 

 

As palavras que escrevo no teu corpo,

Os livros que construo no teu cabelo lamacento depois das chuvas de Verão,

Seca o capim,

Fica a terra seca e gretada pela confusão das crianças que brincam sem parar,

 

E adormecem como gaivotas,

 

 

Que a noite os traga de volta.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 12 de Julho de 2017

O grito

Francisco Luís Fontinha 24 Jun 17

Neste cansaço dia

Sinto o abraço da alegria,

Sou um homem desajeitado

E sem sono,

Sou uma pedra imperfeita,

Sou uma nuvem desfeita…

E este corpo ancorado,

E este corpo cruxificado ao teu olhar madrugada,

O feitiço de amar,

Na planície magoada

Pela bela trovoada…

Sou um homem desiludido com a cidade dos Deuses Tristes de Morrer…

Uma amêndoa apodrecida jaz sobre a minha mão de escrever,

Sempre me recordam as cinzas do teu silêncio amanhecer,

Neste cansaço dia

Sinto o abraço sem perceber o que sentia,

As albufeiras da solidão

Descem a montanha até ao meu coração,

Irritado,

Sou uma pedra de granito

E grito…

E sinto sem sentir…

A alegria de sorrir,

Na tristeza do grito.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24 de Junho de 2017

A arte de sofrer

Francisco Luís Fontinha 12 Jun 17

Na arte de sofrer,

Quando dentro de mim arde um corpo esquelético, e sem o saber,

Ele ilumina a noite que se cansou de crescer,

 

Tenho nas raízes solares a vontade de partir…

Caminhar naquele rio absorvente

Que engole todos os corações,

Tenho nas mãos o sangue valente

Das marés e dos canhões…

Que me obrigam a sorrir,

 

Na arte de sofrer,

Deixo para ti o prazer…

O prazer de escrever,

 

No prazer de morrer.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 12 de Junho de 2017

O beijo do silêncio madrugada

Francisco Luís Fontinha 18 Mar 17

Um beijo que o silêncio madrugada

Afaga na escuridão da ausência,

As silabas estonteantes do sono

Que adormecem nas velhas esplanadas junto aos rochedos,

Vive-se acreditando na miséria do sonho

Quando lá fora, uma árvore se despede da manhã,

Um beijo simples,

Simplificado livro na mão de uma criança,

Um beijo,

No desejo,

Sempre que a alvorada se aprisiona às metáforas da paixão,

Sinto,

Sinto este peso obscuro no meu coração,

Sinto o alimento supérfluo da memória

Quando as ardósias do amanhecer acordam junto ao rio…

E na fogueira,

Debaixo das mangueiras…

Os teus lábios me acorrentam ao cacimbo,

Sou um esqueleto tríptico,

Um ausente sem memória nas montanhas do adeus,

Um beijo que o silêncio madrugada

Afaga na escuridão da ausência,

A uniformidade das palavras

Que escrevo na tua boca,

Sempre que nasce o sol

Sempre que acordam as nuvens dos teus seios…

E um barco se afunda nas tuas coxas,

Oiço o mar,

Oiço os teus gemidos na noite de Lisboa…

Sem perceber que és construída em papel navegante…

Que embrulham os livros da aflição,

Um beijo, meu amor,

Um beijo em silêncio

Galgando os socalcos da insónia…

Vivo,

Vive-se…

Encostado a uma parede de vidro

Como leguminosas no prato do cárcere…

Alimento desperdiçado por mim.

Desamo.

Fujo.

Alcanço o inalcançado…

E morro.

 

 

Francisco Luís Fontinha

18/03/17

Vida de marinheiro

Francisco Luís Fontinha 17 Fev 17

Triste a vida de marinheiro,

Prisioneiro

Neste porto sem nome,

 

Estes socalcos me enganam

E abraçam o rio da saudade,

Estes socalcos lapidados na sombra da noite

Quando regressa a verdade,

E tenho no corpo o medo da revolta,

E tenho nas mãos o silêncio que não volta,

Estes socalcos da triste vida de marinheiro,

Prisioneiro

Neste porto sem nome…

E distante da madrugada,

 

Nem idade,

Nem dinheiro,

 

Triste,

Triste a vida de marinheiro

Assombrado pelo amanhecer do desejo

Que se perde num beijo…

 

Nem cidade,

Nem dinheiro,

 

E no tempo se esquece o coração de prata

Das marés loiras que o mar desajeita

E rejeita

Contra a corrente,

 

Triste a vida de marinheiro…

Triste,

Triste na cidade ausente.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

17/02/17

Insónia da meia-noite

Francisco Luís Fontinha 24 Jun 16

Habito neste poço

Mergulhado na escuridão,

Sinto o abraço do fantasma de cartão

Que foge da algibeira do moço…

Sem saber o significado do amor,

Ou da razão

De amar,

De ser amado,

O deslumbrante cidadão…

Aconchegado

Ao sorriso de algodão

Que alimenta a dor

E o cansaço da mão…

Esfuma-se no silêncio do mar.

 

Francisco Luís Fontinha

sexta-feira, 24 de Junho de 2016

Vampiros da noite escura

Francisco Luís Fontinha 9 Set 15

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(desenho de Francisco Luís Fontinha – Setembro/2015)

 

Esta cadeira onde te recordo

Acorrenta-me aos sonhos da noite escura,

Sobre a mesa-de-cabeceira… o livro que emagrece o teu corpo nas lâmpadas incandescentes do desejo,

Minto-te, meu amor,

Como te minto quando digo que sou filho da noite…

 

Não, não meu amor,

 

Não,

Não existe noite

E tão pouco sou filho dela,

 

Sabes disso meu querido,

 

Sabes disso…

Que amanhã recordar-te-ei como um pedestal em movimento,

Uma orquestra vagueando sobre o balcão de um bar…

 

Sabes disso meu querido,

 

Algumas pedras e gelo…

E um beijo nas velas de um veleiro,

Esperam que esta cadeira se sente…

Que esta cadeira se sente no meu colo,

E me beije…

Como beijam os vampiros da noite escura.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 9 de Setembro de 2015

Bala de tinta florescente

Francisco Luís Fontinha 4 Set 15

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(desenho de Francisco Luís Fontinha – Setembro/2015)

 

“Sábados,

Domingos…

… E feriados,

Lamentamos,

Estamos encerrados”,

 

No pólen amanhecer

Cresce uma abelha em flor,

É disparada contra o coração

Uma bala de tinta florescente,

E de espingarda na mão,

Aquele louco transeunte…

Senta-se sobre a invisível espuma do mar,

Lamentamos,

O amor encontra-se encerrado para remodelação…

A paixão…

Afogada numa caixa em cartão,

Segue viagem, e não regressa a este cais ambulante,

 

“Sábados,

Domingos…

… E feriados,

Lamentamos,

Estamos encerrados”,

 

Apaixonados!

 

Não sei se vos diga o que sinto…

Porque nada sinto,

É estranho,

Saber que amanhã não vai acordar a madrugada,

É estranho,

Perceber que amanhã uma rosa embalsamada…

Acordará no estômago de um velho livro,

E o amor… e o amor é um gajo “fodido”.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 4 de Setembro de 2015

Manhã de Luanda

Francisco Luís Fontinha 15 Ago 15

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(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

Sei que me esperas nas searas adormecidas,

Escreves o meu nome numa granítica sombra,

E eu,

E eu permaneço aqui, esperando que regresse o silêncio

E me traga a paixão,

Deixei de ouvir a tua voz,

Deixei de tocar no teu rosto,

Mas tenho as palavras do teu sorriso

Cravadas no meu peito,

Hei-de amar-te eternamente,

Desenhando nas estrelas os teus lábios,

Hei-de amar-te eternamente,

Escrevendo as lágrimas da chuva no teu cabelo…

E um dia,

A paixão nascerá numa manhã de Primavera,

Como eu nasci numa manhã em Luanda.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 15 de Agosto de 2015

Musseques da solidão…

Francisco Luís Fontinha 13 Ago 15

Encosto o meu cansaço aos sons nocturnos das tuas lágrimas,

Sinto o silêncio do teu coração,

Fogem-me as palavras,

E o medo embrulha-se em mim,

Não tenho alma,

Não tenho fôlego para gritar aos pássaros…

Que habitam no teu cabelo,

E o rio que brinca nas minhas veias,

Aos poucos,

Cessa de correr para o mar,

Senta-se,

Lê… e desaparece nos musseques da solidão…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 13 de Agosto de 2015

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