Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cachimbo de Água

MENU

Sonho desmiolado

Francisco Luís Fontinha 9 Jul 17

Onde adormece o corpo que desapareceu na madrugada!

Estou aqui,

Sentado à lareira,

Estou aqui escrevendo palavras para queimar na lareira…

Antes de adormecer,

Estou aqui,

Esperando que regresse o sonho da clandestina noite sem escuridão,

Aqui…

Aqui me encontras, todos os dias, e todas as noites,

Perdi o barco da infância,

Perdi a terra húmida de quando criança,

Aqui,

Aqui me encontro, à tua espera, sonho desmiolado,

Aqui sentado,

Aqui me encontras,

Sonolento dia sem alvorada,

Estou aqui,

Todos os dias, e todas as horas,

Aqui me encontras, aqui me encontras antes de morrer,

Todos os dias,

Todas as noites…

A todas as horas.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 9 de Julho de 2017

os meninos da escuridão

Francisco Luís Fontinha 5 Jul 16

os dias anónimos

nas falésias do sofrimento

o mar sangrando nas lágrimas do só

quando o corpo se despede

e a alma voa em direcção ao abismo

a escuridão dos dias camuflados pelo silêncio

a sinfonia da paixão

nas mãos desordenadas de uma criança

que brinca em mim

até ao pôr-do-sol…

depois regressa a tempestade

traz nos lábios os beijos da saudade

 

(que só um sem-abrigo sabe fingir…

e desenhar

antes de partir)

 

tenho na solidão um amigo

uma amante desmedida

nas finas películas do destino

tenho no corpo um esqueleto vadio

sem nome

pobre

agreste como as palmeiras da minha terra…

e quando eu menino

e quando eu zarpava sem rumo

sem precisar de bussola ou astrolábio

e apenas me contentava

com os finos cabelos do amanhecer…

 

Francisco Luís Fontinha

terça-feira, 5 de Julho de 2016

Ausência

Francisco Luís Fontinha 20 Mai 16

Cessou a saudade. Sinto o peso da noite sobre os ombros,

Uma coisa inexplicável,

Sofrível,

Cessou a saudade repentinamente,

Como o calafrio do desejo…

Na incandescente manhã desassossegada,

O término.

Segundo as previsões astrológicas…

Nunca deveria ter nascido,

Mas quis um Domingo que eu olhasse pela primeira vez o mar…

Distante, mas enraizado nos meus braços,

Como a barcaça do sofrimento,

Anos mais tarde,

Encalhada nos rochedos da montanha,

E sentia no corpo a ausência,

Tão pobre este destino…

De ser criança…

De ser menino.

 

Francisco Luís Fontinha

sexta-feira, 20 de Maio de 2016

Em socalcos

Francisco Luís Fontinha 9 Jan 15

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

tento mergulhar nos teus braços

como se eu fosse um deserto esquecido no mapa

como se eu fosse um cubo de areia

ou... ou uma rua sem nome

na cidade que incendeia

e come

as palavras da liberdade

as palavras da madrugada,

o fumo constrói nos meus lábios montanhas de neve

e fios de gelo

lâmpadas de silêncio

e medo...

e tento

tento mergulhar nos teus braços

como uma criança faminta

uma árvore encaixotada

que o Oceano transportou

e perdeu...

num qualquer porto

numa qualquer baía,

e eu

eu não sabia

que os teus braços são de porcelana

que o teu corpo são socalcos olhando o rio...

e poisa na minha cama

em cio.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira. 9 de Janeiro de 2015

Paraíso

Francisco Luís Fontinha 15 Nov 14

Significas o quê?

o simplificado destino sem abraços ao cansaço,

se vives... grita,

chora,

constrói das lágrimas sorrisos de criança,

dança,

medita...

significas o quê?

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 14 de Novembro de 2014

A rosa embalsamada

Francisco Luís Fontinha 25 Fev 14

Sento-me nas esferas anacrónicas dos beijos de papel,

sinto o perfume cansado de uma rosa embalsamada,

ela dorme dentro de um poeirento livro,

e chora e sofre... e sonha,

sento-me e percebo que sou um pedestal sem mágoa,

um triste infeliz construindo barcos de esferovite,

sinto-me aprisionado aos tanques de marfim onde mergulhavam os meus bonecos de criança,

e sei que lá fora, quando cai a noite sobre o capim...

chora,

a cobra de quatro cabeças,

a longa esferográfica perdidamente apaixonada por mim...

que loucamente inventa palavras, círculos... e quadrados com olhos de insónia.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014

Na cidade

Francisco Luís Fontinha 16 Mar 12

Quando o céu se esconde na montanha

E na cidade

Entre as ruas em ruinas

Uma criança

Uma criança em lágrimas

Um candeeiro plantado no centro do passeio

Descendo a calçada

De olhar vazio

Dentro do rio

Um barco desgovernado

Nos seios da neblina

Quando o céu se esconde na montanha

 

Quando a noite

(E na cidade

A prostituta cansada

Doente)

Quando a noite dorme profundamente nos seios da neblina

E a prostituta contente

Engata o candeeiro plantado no centro do passeio

Como medo

Sem asseio

 

E na cidade

A prostituta cansada

Doente

Afaga o cabelo da criança em lágrimas

Procura os cigarros na algibeira

E finge caminhar junto ao mar

Sonho de Luanda

Francisco Luís Fontinha 24 Ago 11

Anoitecias nos meus braços

Era eu criança

E sabia que vinhas buscar-me – Monstro das três cabeças

O silício da noite

E nos meus tornozelos enrolavas um cordel

E puxavas e puxavas e puxavas

Era eu criança

E a tua sombra pesava e pesava e pesava

Anoitecias nos meus braços

E eu achava-te graça

Sorria

E nunca tive medo dos teus olhos

 

Às vezes chovia

Anoitecias nos meus braços

E puxavas e puxavas e puxavas

O silêncio do dia

 

Às vezes trazias-me o cacimbo do entardecer

Anoitecias nos meus braços

E puxavas e puxavas e puxavas

O dia a morrer

 

Anoitecias nos meus braços

Era eu criança

E sabia que vinhas buscar-me – Monstro das três cabeças

O silício da noite

E puxavas e puxavas e puxavas

Os meus braços

E puxavas e puxavas e puxavas

Era eu criança

Criança em cansaços

E noitecias em mim

E chovia e chovia e chovia

E acordava o dia

 

E brincava no jardim

Anoitecias nos meus braços

Mostro de cetim

Era eu criança à sombra dos palhaços

 

Deitado no capim

Anoitecias nos meus braços

Era eu criança

E puxavas e puxavas e puxavas

O dia que acordava

Era eu criança

E adormecias nos meus braços

E eu te beijava e beijava e beijava…

Das mãos de uma criança

Francisco Luís Fontinha 14 Ago 11

Das mãos de uma criança

Uma rosa em flor

Em cada dia a esperança

Na dor que lança

 

A espada do amor

Os sonhos agarrados à almofada

Das mãos de uma criança

Uma rosa em flor

 

Um sorriso inocente na madrugada

A gaivota que não se cansa de brincar

Das mãos de uma criança magoada

Esconde-se da manhã o mar…

Vai o mar e não volta

Francisco Luís Fontinha 5 Ago 11

Vai o mar

E não volta

Em teus lábios de beijar

O sorriso da gaivota,

 

Em tua mão eu poisar

O meu silêncio neblina

Regressa o mar

Ao teu corpo de menina,

 

Vai o mar

E não volta

E se evapora ao acordar,

 

E do vento amanhecer

Grita no areal a revolta

A criança a sofrer…

Sobre o autor

foto do autor

Feedback