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Cachimbo de Água

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Vida de marinheiro

Francisco Luís Fontinha 17 Fev 17

Triste a vida de marinheiro,

Prisioneiro

Neste porto sem nome,

 

Estes socalcos me enganam

E abraçam o rio da saudade,

Estes socalcos lapidados na sombra da noite

Quando regressa a verdade,

E tenho no corpo o medo da revolta,

E tenho nas mãos o silêncio que não volta,

Estes socalcos da triste vida de marinheiro,

Prisioneiro

Neste porto sem nome…

E distante da madrugada,

 

Nem idade,

Nem dinheiro,

 

Triste,

Triste a vida de marinheiro

Assombrado pelo amanhecer do desejo

Que se perde num beijo…

 

Nem cidade,

Nem dinheiro,

 

E no tempo se esquece o coração de prata

Das marés loiras que o mar desajeita

E rejeita

Contra a corrente,

 

Triste a vida de marinheiro…

Triste,

Triste na cidade ausente.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

17/02/17

As amarras do sono

Francisco Luís Fontinha 18 Dez 16

O som melódico da noite

Misturado nas imagens a preto e branco do sono

O poema alicerça-se no teu olhar

E ancora-se aos braços da paixão

A sorte absorve-me como os rochedos absorvem o teu sorriso

Deitado na solidão

Há delícias do mar voando no teu cabelo…

E as marés da insónia

Poisam vagarosamente no teu peito

Vendi o sono a um transeunte infinito

Que se passeava junto ao cais da despedida…

E penso na morte

Meu amor

E penso na partida

Meu amor…

 

 

Francisco Luís Fontinha

18/12/16

Aborrecido de ser

Francisco Luís Fontinha 26 Nov 16

Me encontro neste caixote em cartão

Que a vida me deu,

Esta casa fictícia que só as madrugadas absorvem

Nos confins da tristeza,

Amanhã, amanhã uma árvore em despedida

Entranhar-se-á no meu corpo ósseo…

Do esquelético desejo

Entre os beijos desenhados

E os beijos… e os beijos aprisionados.

Sou uma planície sem nome

Mergulhada na solidão dos meus medos…

Me encontro

Neste esconderijo de cartão

Como um sonâmbulo desconhecido,

Triste…

Triste e aborrecido.

 

 

Francisco Luís Fontinha

26/11/2016

As falsas palavras do adeus

Francisco Luís Fontinha 20 Set 16

São falsas as palavras

que escreves na minha boca,

da inocência de um sorriso amargo

constrói-se a cidade louca,

quando no embargo…

o meu corpo morre junto ao rio,

uma gaivota em cio,

um olhar fundido na neblina

subindo montanha acima…

são falsas todas as palavras,

as esbeltas

e as parvas,

tuas palavras,

conjugadas na escuridão do dia…

desces a calçada,

encostas-te ao silêncio da tristeza,

e um barco sentia

o tremor da madrugada…

o tremor da beleza,

 

São falsas as palavras

ditas e não ditas,

escritas

e não escritas…

 

Na minha boca,

 

Tudo em ti é falso

como sentir da noite a construção do luar,

a cidade dilacera-se em constantes equações de sono

que o prazer alimenta,

envenena…

e faz voar…

as palavras locas

que escreves na minha boca,

 

Sinto nos esqueletos de xisto

as migalhas prometidas

por um falso homem…

às vezes

desisto,

às vezes preciso das nuvens aborrecidas,

 

São falsas as palavras

que escreves na minha boca,

e eu sem saber que a loucura

é uma parvoíce ensonada,

vive desajeitada,

na minha cama…

na minha cama amada,

na minha cama cansada…

 

 

Francisco Luís Fontinha

terça-feira, 20 de Setembro de 2016

O travestido cinema de Bairro

Francisco Luís Fontinha 29 Jun 16

Entre as linhas do silêncio

As ânforas madrugadas sem mim

O óbvio segredo das serpentes de granito

Antes do regresso do pôr-do-sol…

A limalha lágrima

Sufocando o rosto da Princesa

Os limites da equação do desespero

Voando sobre os telhados envidraçados

Das mulheres desejadas

O beijo feitiço

Os lábios denegridos da solidão dos dias embriagados

Que apenas eu consigo observar numa cidade sem nome…

Entre carris de esperma

A locomotiva da solidão

Descendo a montanha

Os apitos da loucura

Nos lençóis esquecidos numa qualquer cama

Desertas ruas envenenadas

À porta do cinema…

Simplifico-me

Travisto-me

E para nada…

Não passo de um sonâmbulo

Filho da alvorada.

 

Francisco Luís Fontinha

quarta-feira, 29 de Junho de 2016

Incandescentes noites de tesão

Francisco Luís Fontinha 30 Abr 16

Morro, sobre o incandescente teu peito.

Abraças-me como se esta fosse a minha última morada, mas não o é…

Tenho casa, cama, roupa lavada e livros, nada mais do que isso,

Engano-me quando acordo e sinto o teu rosto na minha mão, sorrio, alegro-me quando os teus lábios se prendem nos meus, não importa quem sou.

Sou eu.

Preciso de ti, bailarina dos labirintos da manhã, preciso de ti como preciso de oxigénio para sobreviver nesta selva de levianos lençóis de prata,

Sobrevivo, sobrevivo a este cansaço, a esta dor provocada pela tua ausência,

O frio enroscava-se nos teus braços, iluminavas-me até regressar ao meu leito, de marinheiro desempregado, sem mar, sem barco…

Escondo-me em ti.

Preciso de ti como os livros precisam das palavras, minhas, tuas, deles, é-me igual; a gaivota do teu desejo.

Morro, sobre…

Abraças-me nas cansadas noites de desejo, repetidamente… DESEJO

Poisava em ti, caminhava sobre os teus seios, veleiro da alvorada, triste e só,

Esta dor, este cansaço sofrido dos dias embriagados,

E das manhãs sonhadas pelo ausente.

Vivo, incandescente sorriso, olhando-te como uma fera doirada,

O invisível inclinado púbis que só a paixão conhece, amanhã não sei,

Amanhã, esperarei por ti, preciso das tuas palavras obliquas, das tuas equações de amor, e rectas vazias da tua vagina.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Sábado, 30 de Abril de 2016

A viagem do paquete amordaçado

Francisco Luís Fontinha 23 Abr 16

Os poemas perdidos, a noite incendeia a solidão do corpo enquanto lá fora o silêncio da morte acorda os pedestres rochedos da insónia.

Desço às profundezas do rio, toco na sua boca como se alguém me empurrasse para a escuridão, feliz aquele que vive só, sem ninguém,

Os poemas perdidos que invadem a tarde junto ao mar, lá longe, os sifilíticos segredos da esperança, perdidos, as palavras, os sons e a melódica tempestade dos guizos,

Perdidos.

Os poemas na minha mão caminhando sobre as areias finas do desejo,

Invento crianças que brincam nos quintais de espuma,

Marés de incenso sobre a secretária desarrumada,

Milímetros quadrados de nada, de ninguém, que só os muros da geada conseguem atravessar, tenho pena do coração da Primavera; triste.

Como eu,

Triste

Nos poemas perdidos,

Amanhã renascerá uma estrela no meu peito e o meu corpo transformar-se-á em lâminas de prazer, amanhã terei os poemas perdidos fora do livro, esqueléticos casebres das montanhas de neblina, rios que invadem a cidade e trazem a morte, dos poemas, e dos livros com poemas,

Triste,

Os poemas perdidos quando incendeiam os dedos amachucados pelos cigarros em despedida,

As fotografias dentro de uma caixa de cartão à espera de serem resgatadas pelas palavras dos poemas perdidos, sem ninguém, procuro nela o meu rosto de infância, imagino-me a olhar os barcos entre apitos e partidas, e o medo absorve-me…

Deixo de ver a cidade, dou-me conta em pleno Oceano, sinto o cheiro das gaivotas percorrendo os trilhos do sono, e dos poemas perdidos…

O sangue que corre nas minhas veias, os dias iguais às noites, as noites iguais às sílabas de luar quando olho pelo camarote um finíssimo fio de nylon que me acompanha até ao meu regresso,

Despeço-me dos poemas perdidos,

Despeço-me da aldeia onde nasci e abraço uma Lisboa camuflada pelas âncoras do Tejo, os caixotes em madeira presos aos meus pés, sem nada, apenas tarecos, apenas pequeníssimas coisas sem nexo,

Os poemas perdidos,

Despeço-me,

Deles, delas…

 

Sem perceber que os poemas perdidos nunca existiram em mim.

 

 

Francisco Luís Fontinha

sábado, 23 de Abril de 2016

O barco que fode o rio

Francisco Luís Fontinha 16 Abr 16

Acordou a manhã, o sifilítico cansaço da espera regressa após vinte e quatro horas de ausência, termina o tempo, ao revés do dia traz a noite os conflitos do dia, a paixão amargurada quando o papagaio de papel sobe e perde-se no Céu, o orvalho dentro de mim em pequenos salpicos de sangue, tenho pena do Ricardo, tenho pena da Madalena, e o sangue

Hoje vi-te pela primeira vez, tinhas no olhar o mel da madrugada, tinhas nas olheiras o rio da paixão, quando a noite geométrica de um cardo dorme, senta-se sobre o tapete do silêncio, a noite habitada pelos fios de nylon das pirâmides de vidro, tinhas fome, escondias-te num verso envenenado pelo cio, engatava-te como se engatam gajos em Belém, não faz mal, o tempo há-de dar-me razão, um dia, quando partires para as borboletas em flor, não havendo outro, vou eu, velho, submerso em ossos perfumados das sílabas de papel, não faz mal, não importa, e o sangue,

E o sangue rebelde nas veias de um covarde, o doente malcriado, sonâmbulo e indisponível das auroras assustadas, Ricardo e Madalena

Amanhã, meus queridos, amanhã,

E Ricardo e Madalena enjoados pelas umbreiras da loucura, a casa parecia uma espelunca recheada de rochedos, o sono, o lixo espalhado por cada milímetro quadrado, em esquadria, ele mentia

Está tudo bem meu amor, está tudo bem,

E ele mentia, não estava nada tudo bem, não havia locomotivas com sabor a Primavera, e ele, lá longe, entre gemidos,

Madalenaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

Lindíssima,

O era, confesso que nunca mais abri a porta de entrada, a sala sempre escura, negra, vazia, e o escuro sentado no sofá da inocência,

Dormes?

Acordou a manhã, a alegria do nascer do dia, o rosto inclinado do homem do terceiro esquerdo, os gemidos de Madanela, UIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII, ao fundo o rio, o Tejo entre os parêntesis da meninice dela, os lábios, o engate junto ao copo de uísque, já está, esfregava ele as mãos,

Tenho medo, confesso que nunca tive jeito para a escrita, não gosto de escrever, ler, gosto é de brincar num jardim junto ao rio,

Dormes?

Claro, acordou o dia, madrugada provisória numa greve de fome, tenho fome, abraço-te e beijo-te, levo-te para o quarto, encostas a cabeça ao meu peito e choras, recordas as manhãs numa qualquer rua da cidade entre bebidas baratas e quartos de esconderijo, claro que este corpo pertence-te, sempre te pertenceu, mas não gosto dele, mas não tenho braços para arcar com tanta dignidade, sobre a cama, ele parecia uma árvore em poiso, sobre a cidade, o rio, o barco que fode o rio, e o rio que mata o amor da minha vida?

Lindíssima.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Domingo, 17 de Abril de 2016

Túbia

Francisco Luís Fontinha 16 Abr 16

túbia dos lábios em cromados beijos

a fúria da tempestade alimentando o desejo

que se perde num olhar

não vejo o silêncio

não sinto o mar,

túbia do cansaço alicerçado à escuridão

um simples gesto

um simples poema

túbia do deserto quando a noite morta

invade a solidão dos musseques floridos

túbia da morte em circunferências loucas

finge-se a sorte

das planícies do medo

arrebata-se a sombra sobre os cadáveres do degredo

entre rochedos

e penedos

que apenas a ondulação da insónia sabe abraçar,

túbia meu do alimento proibido

que travestido de Inverno viaja de cidade em cidade

túbia sentido as pálpebras quebradas

do triste sino

das lamentáveis madrugadas.

 

 

Francisco Luís Fontinha

sábado, 16 de Abril de 2016

Amores de papel com lábios de algodão

Francisco Luís Fontinha 12 Abr 16

Deixei de contemplar o teu perfume.

Ausento-me desta cidade de espingardas envenenadas

Que assombram o meu sorriso,

Procuro-te, procuro-te na ânsia de encontrar a tua sombra

Nos buracos da noite, procuro-te sem saber se existes nesta cidade de espingardas envenenadas, mesmo assim, eu não me canso de te procurar,

Desenho-te. Escrevo-te sabendo que não consegues ler as minhas palavras.

Amanhã acordarei na preguiça do amanhecer, novamente te vou procurar, aqui, ali, em qualquer lugar…

Não sei, não sei se existes,

Não sei se és real como as árvores no final do dia, encolhem os braços e dormem, dormem acreditando, também elas, que existes algures nesta cidade,

Mas não acredito na tua presença,

Imagino-te sentada num qualquer jardim esperando por mim, imagino-te sentada junto ao rio esperando por mim, mas enquanto vou ao rio e ao jardim, nada, nada da tua presença,

Desisto?

Desisto.

Sigo viagem, vou à procura do meu caderno preto, vou à procura da areia finíssima do Mussulo onde brincava com os outros meninos, também eles, esquecidos, sucata, velharias à porta de uma taberna,

Estou só, estou só enquanto escrevo, não sei se existes…, mas…, mas não quero a tua presença enquanto escrevo,

Lamento-me,

Lamento-me dos confins da lixeira dos sonhos, invento amores de papel com lábios de algodão, sinto-o, sinto-o

Sinto-o na minha mão como um fidalgo desempregado, triste e vaiado numa noite junto ao mar, amanhã, talvez,

Talvez existas nos meus aposentos de criança, amanhã, talvez existas nas pedras circulares dos Oceanos abandonados,

Desisto?

Desisto.

Esqueço-me de ti,

Recordo a liberdade de viver sobre este cansaço de aço,

Recordo a ardósia onde escrevia poemas só para ti, mas tu, tu não existes,

Pareces a morte,

O silêncio disfarçado de morte,

E depois

E depois deixei de contemplar o teu perfume.

 

 

Francisco Luís Fontinha

terça-feira, 12 de Abril de 2016

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