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Cachimbo de Água

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Os beijos da alegria

Francisco Luís Fontinha 8 Ago 17

O que eu quero não o sei,

Sei que nada quero,

Sei que nada tenho,

Querer-te assim, perdida no deserto da seda…

O que eu quero, o que eu não queria,

Ter,

Não sofrer…

O dia,

Cansado de viver,

Sinto em ti as palavras da morte,

Mas a morte é indefinida,

Tímida,

E triste,

Não resiste,

Mas existe,

Na palma da tua mão,

O que eu quero…

Queria…

Sentia na face os beijos da alegria,

Finalmente a noite,

Sentida em pleno dia,

Sofrido,

Como sempre…

Em cada luar teu.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 8 de Agosto de 2017

O grito

Francisco Luís Fontinha 24 Jun 17

Neste cansaço dia

Sinto o abraço da alegria,

Sou um homem desajeitado

E sem sono,

Sou uma pedra imperfeita,

Sou uma nuvem desfeita…

E este corpo ancorado,

E este corpo cruxificado ao teu olhar madrugada,

O feitiço de amar,

Na planície magoada

Pela bela trovoada…

Sou um homem desiludido com a cidade dos Deuses Tristes de Morrer…

Uma amêndoa apodrecida jaz sobre a minha mão de escrever,

Sempre me recordam as cinzas do teu silêncio amanhecer,

Neste cansaço dia

Sinto o abraço sem perceber o que sentia,

As albufeiras da solidão

Descem a montanha até ao meu coração,

Irritado,

Sou uma pedra de granito

E grito…

E sinto sem sentir…

A alegria de sorrir,

Na tristeza do grito.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24 de Junho de 2017

Os dias das noites cem dias

Francisco Luís Fontinha 6 Mai 17

Os dias entre dias

Nos dias sem dias…

Cem dias passaram

E sem noites

Cem noites me acorrentaram

Aos livros perdidos nos dias

Aos livros perdidos nas noites

Sem dias

Cem dias passaram

E sem noites acordaram

Os dias

Sem dias

E cem noites

Acordados

Nos escombros do papel queimado…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 6 de Maio de 2017

A flor desenhada no chão

Francisco Luís Fontinha 4 Mai 16

Finalmente o sossego chegou.

Liberta-se a tarde dos braços do dia,

Quase noite, oiço no interior do meu corpo o outro eu,

Cansado com a vida,

Não vê TV…

E só ouve poesia.

Debruça-se no parapeito da janela sem vista para o mar,

Fuma uns quantos cigarros de enrolar, e saboreia a Lua que se avizinha,

Não tem medo do escuro, não tem medo da chuva,

Mas tem medo da vizinha.

Algures do outro lado da rua

Uma flor desenhada no chão lê “LE CLÉZIO” … “A febre”,

E eu, sem razão aparente, sinto o calor no meu corpo,

Talvez contaminado pela “febre”, talvez porque a flor desenhada no chão

É a flor mais bela que nos últimos anos vi no meu jardim,

O outro eu, entretido com os cigarros de enrolar…

É doido,

Ouve poesia,

Despensa a TV…

E nem se apercebe que terminara o dia,

Levanto-me, estonteante, sinto um círculo de mobiliário do Século passado,

E livros,

Tento abraçá-lo, ele foge de mim como se eu fosse uma nuvem poeirenta,

Com fome,

E com a tempestade no ventre,

Fervilho, a flor desenhada no chão fecha o livro, sorri e desaparece como desaparecem as andorinhas depois da Primavera,

Finalmente está a chover,

E a “febre” começa a baixar,

Já consigo andar,

E sorrir

Para a flor desenhada no chão.

Gosto de Jazz, também gosto de poesia, se possível lida pela voz melódica da paixão,

E sentir na pele o salgado mar

Das cidades portuárias,

Embriagados versos

Ou marinheiros sem Pátria,

Tanto faz,

Quer ele queira quer não… vou abraçar o outro eu,

E seja o que Deus quiser,

Abraço-o,

Beijo-o,

E percebo que somos dois palhaços envidraçados,

Um fuma cigarros à janela,

E eu, o outro eu, encantado com a flor desenhada no chão.

Somos uns coitados,

Um esqueleto com duas faixas de rodagem,

Dois parvos,

Dois parvos.

 

Francisco Luís Fontinha

quarta-feira, 4 de Maio de 2016

A morte do dia

Francisco Luís Fontinha 3 Mai 16

O dia desaparece nos alicerces da solidão,

O meu corpo finge não pertencer a este objecto inanimado

Que habita esta casa, ouvem-se os pequenos resíduos do cansaço,

E antes de regressar a chuva, termino o meu desejo.

A paixão quando os olhos navegam sobre as searas conduzidas pelo vento,

E que mais tarde morre junto ao cais do sofrimento,

A dor entranha-se nos ossos da tristeza,

O silêncio alimenta o desassossego da alma…

Que permanece impávido quando lhe toco com a minha mão,

Não importa se a noite traz o prazer do sono,

E se os sonhos são desenhados nos corredores inabitados deste rio sem nome…

Morre o dia.

Libertam-se de mim todos os círculos da geometria

E todas as palavras do alfabeto,

O dia já foi, e não voltará mais ao meu corpo,

Abro a janela, sinto o odor do teu olhar

No sexo da melancolia,

Entre azedumes e poemas…

Camuflados pelo incenso da madrugada,

Odeio o teu corpo como sempre odiei o meu,

Pedaços de farrapos suspensos no estendal embrulhados em cordas de nylon,

Descendo a montanha,

Desço-a enquanto o dia é levado para outros longínquos lugares,

Triângulos de papel que ardem à minha passagem,

E tudo em que toco… arde, ou morre…

Morre o dia. Ergue-se a noite no esplendor do esquecimento, e este circo não cessa de dançar sobre os rochedos do medo,

A doença toma conta de mim,

Fico ausente perante os teus olhos,

Fico ausente quando acorda a noite e se libertam de mim as frágeis tempestades de areia,

O mar imagina-me brincando junto aos barcos de esferovite,

Sem motor,

Espero o vento das aldeias em flor,

E quando me apercebo… estou em pleno Oceano,

Liberto de ti

E das garras do teu corpo,

Morre o dia.

Morre o meu corpo.

 

 

Francisco Luís Fontinha

terça-feira, 3 de Maio de 2016

O vento que passa

Francisco Luís Fontinha 28 Abr 16

O vento que passa

E leva com ele a madrugada

O peso das árvores sobre o sorriso da solidão

Um livro assa

Na fogueira do teu coração

Quando a manhã acorda cansada,

 

O vento que passa

E traz a mim a insónia dos corredores

Preciso de espaço para saborear o beijo

E libertar-me da maça

Que lapida os meus ossos como flores

E me leva o desejo,

 

O vento que passa

E transforma a liberdade em melancolia

O sorriso da fera acorrentada

E se enlaça

No acordar do dia

Como uma montanha apressada…

 

Francisco Luís Fontinha

quinta-feira, 28 de Abril de 2016

Vertigem

Francisco Luís Fontinha 2 Abr 15

A vertigem

O dia triste

Quando é envenenado pela saudade

Há no olhar da esperança

Um cigarro poético

Derramando palavras

E nuvens cinzentas

A rua perde-se em mim

Como eu me perdi nos teus braços

De aço

Prisioneiro dos cadeados invisíveis

O marfim dos dentes do crocodilo

Esperam-me sobre a mesa da sala de estar

Não estou

A porta encerrada

Sempre

Sempre

Como o mar submerso na neblina de sal

A vertigem

Apodera-se dos meus sonhos

Não há rios nesta cidade indesejada

Os peixes

Não

Não estou

Hoje

Nunca

À tua espera

Porque não espero nada

Nem ninguém

Como nunca esperei a madrugada crescer

Nos teus cabelos

A vida me come

A vida me mata

A fome

E…

Será que tens cabelos?

Fios de xisto

Descendo o Douro

O meu pensamento está longe

O Tejo

Aguarda serenamente a sombra do meu corpo

A ponte iluminada

Dançava

Quando o vento se alicerçava

E eu

Brincando numa parada militar…

Soldado de pedra

Com uma espingarda de nada

A vertigem sonolenta das coisas belas

Quando o dia

Hoje

Não

Nunca

Os peixes

Não

Não estou

A casa desassossegada

Com a minha ausência

Parti

E ninguém

Percebeu que não estou

Os livros na intimidade do desejo

A vertigem

Nas minhas veias

Caminhando apressadamente

Como os homens acabados de regressar

Do infinito

Os cubos e os círculos de gelo

Palmilham as lâmpadas do medo

Na ardósia

As equações do amor

Sem resolução…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 2 de Abril de 2015

Pincelados corações de pólen

Francisco Luís Fontinha 6 Mar 15

O acrílico beijo

na tela do desejo

sem medo de perder

o acordar da madrugada

ele abre a janela

e percebe que afinal...

a madrugada é um fantasma

uma coisa de nada

sombras

silêncios

e

e abraços na escuridão

 

ela sabe que os dias morrem

e nas aldeias de granito

habitam pássaros de papel

coloridos

aventuras

sem destino

acorrentados aos gritos da caverna do adeus

ela sabe que os dias

poucos

nenhuns

absorvem a luz

disparada por um olhar invisível

 

e no entanto

o beijo transforma-se em fotografia

negra

como o poço da morte

na infância de uma cidade perdida

há nos seus lábios abelhas

e pincelados corações de pólen

e voam

poucos

nenhuns...

homens conseguem entranhar-se no seu corpo

e ela desaparece em cada avenida do sofrimento.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 6 de Março de 2015

Trapézio do sono

Francisco Luís Fontinha 5 Mar 15

Tenho na sombra do sono

um pilar de areia

uma casa em ruínas

sem telhado

sem braços

sem cabeça

tenho na sombra do sono

o cansaço das palavras

o sorriso do poema

enquanto o poeta gagueja

sofre

e sofre

 

(sem braços

sem cabeça

sem telhado)

os olhos da serpente

fingindo corações de luz

como charcos de lama

sapateando junto ao mar

e eu

na sombra do sono...

inventado papéis de amar

comestíveis

ao pequeno-almoço

 

(sem braços

sem cabeça

sem telhado)

este poema disparado

pela mão do sofrimento

levanto-me da insónia

pensando que já acordou o dia

levanto-me do dia...

acreditando que já é noite

escura

húmida

e vagabunda...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 5 de Março de 2015

Cigarros sem alma

Francisco Luís Fontinha 17 Dez 14

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

O biombo da saudade

que morre no teu ventre

o pensamento em pequenos voos

lentamente em direcção ao mar

rumo à cidade

do adeus...

o meu corpo sobre os carris do cansaço

tenho medo

tenho pena...

que este pobre poema

não consiga acordar a madrugada

que vive acorrentada,

 

há nas pálpebras do teu sorriso

fios de luz em decomposição

canções melódicas ensanguentadas pelo silêncio da tua voz...

… amarga

complexa

nesta triste matriz composta

neste triste cubo de vidro

com braços de papel...

o biombo da saudade

que morre no teu ventre

inventa-se

a cada segundo que o tempo come,

 

a rua incendeia-se

e todos os mendigos... não mendigos

e toda a fome... não fome

apenas as palavras sobrevivem aos teus encantos

e lamentos...

apenas as sombras nocturnas do adeus

conseguem trepar o muro da agonia

e resta este pobre poema

que um dia...

que um dia ressuscitará

das cinzas

como cigarros sem alma.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2014

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