Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cachimbo de Água

MENU

O eterno acusado

Francisco Luís Fontinha 12 Nov 17

Acusais-me de tudo e de nada.

Acusais-me da chuva e do sol,

Das províncias desgovernadas,

Dos socalcos inanimados,

Tristes…

Cansados.

 

Acusais-me do cansaço,

De ser o menino dos papagaios

E das estrelas em sombreados tentáculos,

Acusais-me de o mar não regressar…

 

E de matar.

Acusais-me do eterno ventrículo agachado no musseque,

Das palmeiras envenenadas pelo silêncio,

Acusais-me das palavras gastas,

Tontas,

Nas paredes da solidão.

 

Acusais-me de tudo e de nada.

Acusais-me do medo,

Da morte em segredo,

Acusais-me do sofrimento

Nas montanhas solidificas dos livros

E dos momentos passados na escuridão de um velho bar.

 

Acusais-me da dor,

Das metástases ensanguentadas de um corpo em delírio…

Acusais-me de nada,

De tudo,

Até da triste madrugada…

Que a sombra alimenta.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 12 de Novembro de 2017

Tulipas anónimas

Francisco Luís Fontinha 6 Nov 17

As minhas tulipas são anónimas.
Acordo ao som dos seus delas gemidos,
Entre parêntesis e pontos de interrogação,
A lapidação do meu corpo ao amanhecer,
O perfumado banho,
Antes de comer,
As minhas tulipas são ardósias.
Todas as palavras são assassinadas nas suas delas bocas,
Como se fossem nuvens esfomeadas,
Canibais canetas de tinta permanente,
Poisadas sobre a minha lápide invisível,
Todas as palavras me detestam,
Todas as palavras me agridem ao anoitecer,
Como correntes em aço que brincam na rua.
O espelho desfigurado,
Os lençóis emagrecidos pela geada,
O cansaço meu desperdiçado nas ombreiras do mar,
O sangue dorme. O meu corpo é uma jangada de vidro…
Perdido no cais da saudade,
Tenho medo das encostas da montanha,
Que assobiam a todos os minutos passados,
Que vão passar e todos aqueles que não passam,
Porque habito num apeadeiro selvagem,
Doente.
As minhas tulipas são anónimas…
E o meu jardim em papel amarrotado.



Francisco Luís Fontinha

...

Francisco Luís Fontinha 5 Nov 17

As ratazanas do quinto monte castanho, as metástases da dor suspensas num pendulo prateado, o relógio oculto no pulso da dor, o medo de perder-te no Oceano... Quando as palavras se suicidam nas tuas mãos de Princesa, choro, sofro, deixei de ter sorrisos e dou-me conta que estamos sós.

...

Francisco Luís Fontinha 4 Nov 17

Não sei o que te diga... A minha vida é um círculo em pequenas rotações, sem esperança, um cubo vazio, grená quando a escuridão invade o meu espaço. Não, não sei o que te diga... Porque as minhas palavras estão nas tuas veias.

O silêncio do imperfeito

Francisco Luís Fontinha 31 Out 17

Perfeito.

Imperfeito.

O silêncio mutante da escuridão,

Quando desce da montanha uma pobre canção,

Feio,

Feito, diz ele, antes da morte,

Perfeito.

Imperfeito.

Pobre,

Nobre,

Enquanto caminham sobre a Lua as sombras terrestres do medo,

Um foguetão em apuros,

Uma traineira desgovernada,

Só, e sem nada,

Perfeito.

Imperfeito.

Sempre suspenso no alpendre da dor,

Sente,

Sofre,

Para quê? Se ele percebe que vai morrer…

Sinto,

Ele,

No deserto das serpentes,

Perfeito.

Imperfeito.

Sem jeito.

Silêncio…

Um caixão em lágrimas,

As pálpebras em chamas,

E, a vida parece uma lâmpada sem alma.

 


Francisco Luís Fontinha

Alijó, 31 de Outubro de 2017

Coração das sete serpentes

Francisco Luís Fontinha 29 Out 17

Iluminado sejas, coração das sete serpentes.

O cansaço das pedras, perfumadas almas na escuridão,

Palavras dispersas,

Nas garras de uma canção.

Iluminado sejas, corpo desengonçado das sete maravilhas…

O sorriso perfeito, nas tardes estátuas,

Os livros mortos, os textos acorrentados aos braços da madrugada,

Iluminado sejas, obscuro cansado prato, sobre a mesa do sono,

E das pedras abençoadas.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 29 de Outubro de 2017

Os livros sobre a mesa

Francisco Luís Fontinha 22 Out 17

Nas cinzas do meu corpo

Habitam as palavras do fogo sombrio do sofrimento,

A dor semeia-se na terra cansada da minha mão,

Quando o luar adormece, quando uma flecha sangrenta se espeta no meu coração,

Domingo à noite,

Música fúnebre para me alimentar,

Palavras que voam em direcção ao mar…

E te levam, e te levam para o Oceano da tristeza,

E fica a beleza,

Os livros sobre a mesa…

Escrevo-te,

Imploro-te…

Que fiques, aqui, comigo…

À lareira.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 22 de Outubro de 2017

Outono em flor

Francisco Luís Fontinha 10 Out 17

O corpo pincelado de noite,

Quando da noite regressam as barcaças do Inferno,

Não trazem destino,

Como no Inverno,

O menino…

O menino recheado de luz e incenso verbo,

Lá fora chora uma flor,

Um pequeníssimo poema morre de dor…

E o menino em febre, cansado da flor,

Deita-se sobre o orvalho imaginado pelo seu progenitor,

Prometo conquistar todos os ossos do teu corpo,

Prometo desenhar no teu corpo a sombra da revolta,

E que nunca mais volta,

Às escadas do sofrimento.

Oiço o teu lamento,

Os teus gritos contra os cortinados da Primavera…

Oiço o Outono na tua mão tão bela,

Quando a barcaça,

Em passo acelerado,

Bate contra os rochedos da desgraça…

E o menino,

Coitadinho…

No chão sentado.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 10 de Outubro de 2017

Radiografia

Francisco Luís Fontinha 8 Out 17

Radiografia de tecidos envergonhados,

Trapos vagabundos no telhado pendurados,

A caligrafia cessante nas palavras imaginárias,

Do louco amante…

Nas tardes acorrentadas,

 

O silêncio dos teus ossos suicidados

Na noite desassossegada,

 

Os corpos mutilados,

E a tristeza dormindo na madrugada,

 

Radiografia de tecidos envenenados,

Tristes livros assassinados,

Palavras ensanguentadas

Como acontece a todos os corpos rasurados…

Na clemência das palavras.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 8 de Outubro de 2017

Ficavam sempre pendurados nas mangueiras

Francisco Luís Fontinha 6 Out 17

O vento emagrece os ossos pincelados na Ressonância Magnética, a chuva miudinha alicerça-se-lhe no cabelo prateado do Outono, aos poucos caem as folhas no pavimento térreo das lágrimas invisíveis, aconchega-se contra o espelho suspenso há anos no quarto, e vê a fotografia de um condenado à morte, sofre, chora… e brinca com as pétalas das drageias que lhe envenenam o corpo, os ossos partem-se como veleiros à deriva no Oceano sem nome, sempre só, ele deita-se na cama desengomada e dorme ao sabor da tempestade encarnada, vomita as palavras nocturnas que lhe correm nas veias, e para assassinar o tempo vai até à casa de banho fumar um cigarro,
Escreve “merda” na vida, desenha sombras nas sombras da vida, e tenho medo da partida, o só, o desajeitado das palavras encostado a uma esplanada esperando o engate do final da tarde, lamenta-se,
Lamento-me, não sei o que fazer enquanto os ossos de ontem enfraquecem os ossos de hoje, respira fugazmente, pega nas lâminas da manhã e esconde-se no rio…, lamento-me nos dias em que sou possuído pelo medo, lamento-me quando abro um livro e ela,
Hoje não consigo respirar, as palavras voam como voa o meu cabelo quando os pássaros mergulham na minha mão e adormecem, não consigo, queria dormir, quero dormir, quero brincar no quintal e fazer-te um papagaio em papel, daqueles que eu te fazia,
Lembras-te?
Ficavam sempre pendurados nas mangueiras, entre o Sol e a alegria da juventude, e o vento?
O vento emagrece os ossos pincelados na Ressonância Magnética, e os teus braços abraçam-me na solidão vagabunda do planalto, olho a montanha, olho-me no teu espelho,
E tão velha…, e tão sonâmbula das noites sem dormir.



Francisco Luís Fontinha
06/10/2017

Sobre o autor

foto do autor

Feedback