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Cachimbo de Água

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Quando dizias que aos três anos de idade já voava...

Eles chegaram, o caixão ainda cheirava à tinta fresca da manhã, brincava um silêncio de olhos verdes no vão de escada,

Foder num vão escada, como fodem todas as palavras do poema...

Sabíamos que o corpo não pertencia às nossas vidas,

Clandestino, eréctil nas disciplinas do abismo, o poema esfomeado esperando o amante suicidado,

amanhã, amanhã nascerá um cansaço de medo no afastamento dos círculos das cidades embriagadas,

Sem iluminação, sem mulheres ou bares para combater a distracção, uns panfletos expostos na parede xistosa,

Há Tripas,

O caixão dançava no centro da sala de estar,

Confesso,

Nunca tinha assistido à dança de um caixão...

Já imaginaram o dançar de um caixão?

Há tripas e...

Moelas,

A aldeia padece de claridade, existem fios de escuridão nos telhados cansados das palhotas de algodão,

Enigmático, eu?

Nunca tinha assistido à dança de um caixão...

Já imaginaram o dançar de um caixão?

Há tripas e...

Moelas,

E palavras sem coração, sentia-me embriagado nas mãos do amanhecer, sentia-me um miúdo encostado à sonolência da idade,

A aldeia em chamas, os campos esbranquiçados na tela do desejo imaginavam canções de moluscos e alguns grãos de areia,

O desenho teu na cidade dos alicerces alienados, os bares em combustão, as miúdas dançando canções de solidão,

Amas-me?

Que não,

Que a arte vive e vai morrer no teu olhar,

Ouves-me?

E palavras sem coração, avenidas nuas, travestidas de machimbombos reumáticos voando sobre a cidade, eu... eu... adormecia,

Inventava beijos nos teus braços, a minha primeira paixão, imaginava-te uma flor triste e cansada, nos circos ambulantes da saudade,

Os sete orgasmos do Mussulo, a liberdade sobre as palmeiras invisíveis que me atormentavam, como campânulas de sofrimento, ao deitar, o caixão que dançava deixou de o fazer, dificuldades com o cachê, dispensa de artistas e cadáveres de cera, um altar recheado de almas, tantas almas como os versos do sem-abrigo quando sentado numa cadeira apodrecida de um circo ambulante,

Quero ser artista, mãe!

Nem penses..., nem... penses...

Filho meu não é artista!

Nunca,

Nunca, mãe?

Os sete, juntos, e sós, no Mussulo era mais barato, a saia descaída, o soutien desenhado no peito

E...

Nunca, mãe?

Nunca,

Nunca

No peito uma flecha de sémen rodopiando no gelo do ringue de patinagem... o belo, a dança... e o corpo em pequenas rotações...

Os teus lábios acorrentados aos meus beijos embriagados pelo desejo, não o sinto, o vulcão da tua pele, não vejo o sorriso da tua mão, em vulcão, mergulhada nas palavras que o silêncio desenha na melancolia,

É falso,

O dia disfarçado de lápide, os outros destinos rejeitados pelo cacimbo, há uma fogueira no corpo da sinfonia do amor,

É falso,

O falso prazer, a liberdade to TEXAS e Cais do Sodré gingavam na penumbra salgada do abismo,

O querido dança?

Fumo,

É falso,

São falsas, os textos a beleza e o amar, quando o amar pertence aos clandestinos eternos sonos dos Narcisos de prata, o pilar central do orgasmo mergulhada entre duas árvores,

Amar, amor,

Ao fundo os homens calcetando labaredas em poesia adormecida... é falso, que o amor morra nas planícies salgas do deserto...

Os outros, o monstro das quatro cabeças brincando dentro de mim, saltava à corda, subia aos pinheiros pintados em papel cenário..., e havia sempre um pigmentado sorriso nos seus lábios, era Sexta-feira, daquelas Sextas-feiras que iluminam as imagens a preto e branco, o sono, a agonia de olhar o mar desenhado numa das paredes do quarto, escuro, ainda boiava a noite nas veias da adrenalina constelação do amor, aquele amor inventado apenas para adormecer na poesia, nada mais do que isso...

Isso o quê, meu amor!

Os outros, o monstro

Batem à porta,

Livros, livros nas mãos cardume do carteiro, assine aqui se faz favor, assinei, foi-se embora, escondido no arvoredo comecei a acariciar o envelope, lá dentro percebia-se que alguém existia para me abraçar, daqueles abraços trigonométricos, sabes?

Sei, os outros, o monstro, a perfeita nostalgia, sebes de papel laminado voando sobre o jardim

O gajo passou-se, dizem...

Que sim, livros, Isso o quê, meu amor! Batem à porta, e falou comigo,

Beijou-me literariamente, sorri, levantei o olhar em direcção às palavras de amar, não tive coragem de abraçá-la com as vogais e as consoantes do poema, alegremente imaginava-me um transeunte sem identidade, nos sonhos aparecias vestida de melancolia, as fotocópias e as fotografias, sem identidade, nome, palavras de amar

Amanhã?

Não o sei, percebi que as pálpebras do desejo habitavam nos nossos corpos de cinza, perdia-me nos teus braços como se perdem as gaivotas nos cacilheiros da saudade, palavras, palavras enigmáticas em construção, o corpo minguava na escuridão, o monstro das quatro cabeças dançando nos meus ombros, sentia-me uma circunferência sem olhar, sem.… sem um corpo para aportar, a saudade

Sentidas,

Os tristes silêncios da minha infância saltando os muros da Primavera, as amendoeiras em flor, as andorinhas apaixonadas, e eu

Sentidas,

A saudade que os meus braços abraçavam,

Saudade?

Caminhei sobre as pedras sonolentas da literatura, cansei-me dos teus poemas e da “merda” dos teus desenhos,

Sentidas?

Sem identidade...

Podíamos ancorar a estes versos, permanecermos impávidos das celestes lágrimas do Universo, Saudade? Caminhei, sentei-me sobre as quatro sombras da preguiça, sofri, sonhei, aprendi que o amor é um cubículo sem janelas,

Junto ao mar,

É tão lindo, o mar, mãe...

Os barcos e as jangadas de silêncio, os embriagados corpos dançando no texto, encerra-se o livro, e morre o escritor,

Um poema...

Palavras, sons, imagens, barcos, marés... sucata amaldiçoada pela fresta do luar, a astronomia e a matemática, dormem, saciam-se nas metáforas da insónia, corpos, nus, entre eles... o sexo desenhado em cada esquina, a porta do quarto rangia, gemia, e sabíamos que ninguém nos ouvia,

Orgia?

De palavras e de poesia,

Um poema?

Negro, opaco, sem corpo nem cabelo, morto, fictício..., mas pouco, pouco, como os dias à tua espera...

O fugitivo regressa, aparece disfarçado de pássaro, não voa, deixou de voar, sonhar, deixou de viver, e de construir castelos de areia junto ao mar, quando dizias que aos três anos de idade já voava...

Eles chegaram, o caixão ainda cheirava à tinta fresca da manhã, brincava um silêncio de olhos verdes no vão de escada,

Foder num vão escada, como fodem todas as palavras do poema...

Sabíamos que o corpo não pertencia às nossas vidas, e o fugitivo sem regressar aos nossos lençóis de sémen foragido, sem pátria, destino

A porta de entrada encerrada,

Janelas ainda não tinham acordado,

Destino, viver dentro de duas folhas brancas com olhos verdes, um círculo, o Sol, a Lua, o vazio do corpo na alvorada clandestina, fria, fria e amarga,

A porta

Deus, criador de tudo e de todos, a porta gaguejando, rangiam os biombos da literatura quando imaginava o mar na parede da biblioteca,

Apetecia-me

Queimar todos os livros, meus, desenhos, vozes, corpos de insectos e rosas embalsamadas, queimar as fotocópias e os fósforos da insónia, beijar-te e olhar-te

A mim?

A porta entranhada entre dois segundos, as lâmpadas lá de casa todas fundidas, sós, escuras, como a humidade das palavras enquanto pessoas, nenhumas... monstras, vazio, a astronomia do ciúme suspensa num cabo de aço, Rua da Nossa Senhora..., Não está, hoje,

O Doutor, a secretária do Doutor, e a porta, envergonhada como eu, porque hoje não houve madrugada, porque hoje morrem as palavras...

(cansei-me, vou deixar de escrever durante uns tempos e de frequentar as redes sociais, cansei-me e apetece-me ouvir Wordsong... embrulhar-me nos sons das palavras... e imaginar AL Berto voando junto ao Tejo. Vou ler muito mais e dedicar-me ao desenho)

Mãe, como é o mar?

Lençóis de espuma, meu filho, silêncios de sombras poisadas numa tela virgem, aos poucos reaparecem as palavras e os riscos, a arte de amar e de navegar num beijo invisível, sem imagens, sem noite para chorar, as ruas completamente indiferentes às minhas tristezas, as cintilações dos versos descendo os socalcos imaginados pelas tuas brincadeiras de menino,

Fui menino, mãe?

Cansei-me das palavras,

Escrita... nunca,

Mais

Amanhã restará uma única sílaba ao acordar, o espelho

Mais nada a acrescentar aos teus desejos, meu filho...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

...

Francisco Luís Fontinha 8 Ago 16

Dos murmurados alpendres onde me arrumavas os braços e as pernas depois de me usares,

Acordavas cedo, puxavas as cordas da noite e começava a clarear o dia, inventavas

Descobri tardiamente

Que inventavas os dias só para mim, como o jardineiro quando sente que uma fina pétala se desprende do esqueleto da Cinderela e também ele, inventa as espinhas que sobejaram dos peixes de madeira que a filha fez numa das aulas de Trabalhos Manuais, ele aprendeu a pregar botões e a fazer uma simples instalação eléctrica, e com algumas picadelas nos dedos de areia

Descobri tardiamente que não tinha jeito para invenções,

De areia como as línguas de fogo que começaram a descer dos telhados de vidro das casas dos mais enlouquecidos pasteis de nata, do Rossio até Belém, aproveitando o vento e o sabor a morango do rio, a cidade ia ficando-se

Como tu antes de inventares esse maldito espelho onde te olhas ao acordar, a janela do dia de ontem, onde vês o restaurante encerrado por falta de clientes, as cadeiras vazias onde se sentavam as galdérias noites e candeeiros a petróleo que a cidade rejeitava, ouvíamos um banco de jardim a passear junto à Torre de Belém, fumava cigarros de enrolar, tinha na cabeça um pano vermelho, e era alimentado por painéis lunares, e

Saltitava-lhe da voz

Todos Todas Adivinhos,

A rouquidão do prazer quando os mamilos da Cinderela, colorida com os lápis de cor da miúda, a filha da Rosalinda, chegava da escola, e poisava a mochila no pátio de gelo em frente ao pindérico jardim onde brincava um casebre empobrecido, de lata, e um olho em xisto, E

E

Saltitavam-lhe da voz as laranjas podres e os limões sem as palavras que tu

(Inventas no espelho, e no caixilho onde dorme o espelho, inventas no prego, onde penduras o espelho, e na parede, inventada por ti, inventas na sombra que escurece no espelho, onde te olhas, onde fumas, no cigarro inventado, pela secura do silêncio agachado no pavimento ósseo com ripas de fumo e pedacinhos de suor da tua pele perfumada, na água inventada, inventas com as tuas mãos as calibradas pálpebras (de) (da) madrugada, perdem-se nos sossegados momentos de literatura dentro da esplanada vestida como as roupas por ti, inventadas

Todos Todas Adivinhos).

 

In “Noites de mim”

Francisco Luís Fontinha

...

Francisco Luís Fontinha 2 Ago 16

(…)

 

Triste?

Que algo de triste ia acontecer, e aconteceu, e.… senti-me ténue nas mãos garras da gaivota sem nome, pediram-me a certidão de nascimento, acanhadamente respondi-lhes que não a tinha, que nunca a tive, porque

Sou,

Sentia-lhe o cheiro da naftalina nas roupas emagrecidas, e eu

Sou, sou um apátrida com dentes de marfim, e eu, eu sabia que morreria como um rio de encontro ao mar, que morreria como um barco encalhado num velho quintal de um velho bairro onde habitavam velhas casas, com velhas árvores, onde viviam velhos

Sou,

Pássaros como bolas de naftalina, como beijos prometidos e nunca dados, como beijos perdidos na avenida longínqua da saudade, e sentia-te sentir na minha mão os teus velhos lábios, os teus lábios inventados pelo batom encarnado, e de uma roulotte ouviam-se-lhe os gritos da distância, no oitavo andar sentia-lhe os sons amorfos encurralados na janela de porcelana, ele chorava entre as linhas do velho, também ele, do velho

Caderno quadriculado?

Um lindo poema morre, e sou, sentia-lhe o cheiro da naftalina nas roupas emagrecidas, e eu conversava com as também velhas sombras de Deus, e de nada percebia, queríamos conversar e não tínhamos todas as palavras necessárias, Deus imaginava-me um louco vestido de andaime suspenso num oitavo andar da memória, Deus queria-me e eu sentia-lhe os sonoros melódicos suspiros do velho piano de cauda, um livro estava com febre, uma mão agachada no capim, tristemente agoniada... mão, não tinha força para se levantar, para gritar, para chamar os velhos pássaros que viviam nas velhas árvores no velho quintal,

Caderno quadriculado?

Sou,

Sou, sou um apátrida com dentes de marfim, e eu, eu sabia que morreria como um rio de encontro ao mar, que morreria como um barco encalhado num velho quintal de um velho bairro onde habitavam velhas casas, com velhas árvores, onde viviam velhos meninos, e que vestiam velhos calções e calçavam velhas sandálias... e nas mãos

Nas mãos velhos papagaios em papel pardo,

E nas mãos sentia-lhe o nome “pai”, e ele percebia o meu choro, as minhas lágrimas, como percebeu muito mais tarde o meu sonho...

Outros espiavam-nos juntos às bananeiras com quatro cadeiras e um círculo de sombra, fervíamos um no outro, e outros, e outras, aos poucos apenas o silêncio do teu corpo fervilhando entre os meus dedos, outros, e outras, aos poucos o teu púbis vulcânico descia a montanha do Adeus, e cada vez mais longe

Fervilhando,

Fervíamos,

Deixávamos os meninos em volta de pequenas poças de água, tinha chovido, a terra cheirava a fogo, e o céu começava a clarear como acontecia com as janelas da velha barcaça que nos levava até ao paradisíaco Mussulo, eu, eu amava-o, e tu, tu apenas encolhias as pernas, e sobre ti um lenço de desejo te absorvia, flutuavas como uma abelha dentro da cubata, rodavas em pequenos círculos trigonométricos, e dos teus lábios um líquido amargo com sorriso de co-seno desenhava-te na face esquerda uma parábola, a equação descia-te até enrolar-se nos teus tornozelos de areia branca, palmeiras e outros, e outras

Fervilhando,

Fervíamos,

E outras melodias esperavam no cais pelo desejado embarque, deixei-te para nunca mais poisar-me sobre ti, voando, eu, eu ainda tentei..., mas caí sobre o Oceano, mergulhei acreditando encontrar-te lá muito no fundo, mas

Fervilhando,

Pedras e nada mais,

O pôr-do-sol era triste, fervilhavas nos meus longos dedos, e os teus gemidos alimentavam todo o espaço vazio da cubata, não tínhamos sequer onde poisar uma gotícula de sémen, não tínhamos sequer onde deixar suspenso na madeira misturada com zinco o crucifixo que tínhamos trazido do outro lado da cidade, antes de partirmos, antes de te deixar sobre o cais..., e quando percebi

Fervilhando,

Pedras e nada mais,

Percebi que tinhas desaparecido entre o cacimbo e a saudade, percebi que tinhas zarpado como a nossa velha barcaça, procurei por ti, inventei desculpas, cheguei a descer às profundezas do Tejo, entrei em Cais do Sodré, bebi, embriaguei-me, dancei sobre mesas e cadeiras, cambaleei até Belém, atravessei os carris e sentei-me junto ao rio..., fervíamos como líquidos amargos na imensidão dos botões de rosa, alguns bravios, outros, outros mórbidos, outras..., outros sem vida, e nada, e ninguém, nem sequer um simples peixe... para me informar do teu paradeiro, percebi que a nossa cubata tinha ardido, anos mais tarde, percebi que o teu corpo tinha crescido, mudado de forma, percebi que estávamos velhos, como o espelho da casa de banho, quando hoje me olha e diz-me

Fervilhando,

Fervíamos,

E eu, eu... no cais pelo desejado embarque...

Como ser feliz quando não se é feliz, como, como acreditar... como confiar... como?

Sendo,

E apenas, voando como as nuvens de chocolate na boca das crianças, como, sendo, as proibidas manhãs com Sábados invisíveis, acreditando?

Sendo, parecendo ser e não o ser, esperar, esperar, só, sentado, num banco em pedra, frio e húmido, de esqueleto quebrado, os ossos acabados de submergir das profundezas vozes sem as ditas

Palavras?

As loucas palavras?

Sendo, eu sei, voando, se eu soubesse, voava dentro de ti, teu corpo de magnólia com perfume a desejo, e ficando, e deixando

As loucas palavras?

Como retirara venda dos olhos, se ela, se ela é de aço maciço, como cordas de sisal suspensas do céu, servindo, como acreditando, apenas para acolher com doçura as velhas e cansadas árvores, as alegres e as tristes, como nós, e apenas, voando, e sendo, como tu, sofrendo como tu, apenas, assim.… como as algibeiras da noite rompendo a madrugada e pintando o sobejante com acrílicos em cadáveres, quase a serem enterrados vivos na fogueira, sendo, acreditando e

Palavras?

As loucas palavras?

Sofrendo, e ardendo em ti quando transportas contigo a fogueira inventada numa noite de Inverno, quando sentados, nós, desenhávamos o fogo nas paredes do escritório, como acreditar?

Acreditando,

E

E como confiar?

Confiando,

Não o sei, apagando esse fogo, ouvindo a música das plantas, simplesmente... ouvindo e sonhando e

Acreditando?

Deixara de chover, a máquina de lavar roupa pifou uma vez mais, constipação, ou

Fígado,

Ou

Talvez não,

Não temos tempo para despedidas, Pedro, O senhor Alberto para o filho que parecia uma abelha em círculos de luz às voltas do avô João, o carro pronto a avançar estrada fora, recheado de pequenas miudezas, batatas e couves, chouriços e presunto, pão de milho, e o Opel Kadett de 1964 aos soluços como os bebés depois de nascerem enquanto aguardam a chegada do babado pai e a enfermeira

É um menino,

Fígado,

Ou

Talvez não,

O pai retractava o filho com imagens a preto e branco, no tornozelo uma fitinha azul com o nome e o dos progenitores, e se fosse hoje, e se fosse hoje juro

Pifou

E deixara de chover.

 

In “Noites de mim”

 

Francisco Luís Fontinha

O barco que fode o rio

Francisco Luís Fontinha 16 Abr 16

Acordou a manhã, o sifilítico cansaço da espera regressa após vinte e quatro horas de ausência, termina o tempo, ao revés do dia traz a noite os conflitos do dia, a paixão amargurada quando o papagaio de papel sobe e perde-se no Céu, o orvalho dentro de mim em pequenos salpicos de sangue, tenho pena do Ricardo, tenho pena da Madalena, e o sangue

Hoje vi-te pela primeira vez, tinhas no olhar o mel da madrugada, tinhas nas olheiras o rio da paixão, quando a noite geométrica de um cardo dorme, senta-se sobre o tapete do silêncio, a noite habitada pelos fios de nylon das pirâmides de vidro, tinhas fome, escondias-te num verso envenenado pelo cio, engatava-te como se engatam gajos em Belém, não faz mal, o tempo há-de dar-me razão, um dia, quando partires para as borboletas em flor, não havendo outro, vou eu, velho, submerso em ossos perfumados das sílabas de papel, não faz mal, não importa, e o sangue,

E o sangue rebelde nas veias de um covarde, o doente malcriado, sonâmbulo e indisponível das auroras assustadas, Ricardo e Madalena

Amanhã, meus queridos, amanhã,

E Ricardo e Madalena enjoados pelas umbreiras da loucura, a casa parecia uma espelunca recheada de rochedos, o sono, o lixo espalhado por cada milímetro quadrado, em esquadria, ele mentia

Está tudo bem meu amor, está tudo bem,

E ele mentia, não estava nada tudo bem, não havia locomotivas com sabor a Primavera, e ele, lá longe, entre gemidos,

Madalenaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

Lindíssima,

O era, confesso que nunca mais abri a porta de entrada, a sala sempre escura, negra, vazia, e o escuro sentado no sofá da inocência,

Dormes?

Acordou a manhã, a alegria do nascer do dia, o rosto inclinado do homem do terceiro esquerdo, os gemidos de Madanela, UIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII, ao fundo o rio, o Tejo entre os parêntesis da meninice dela, os lábios, o engate junto ao copo de uísque, já está, esfregava ele as mãos,

Tenho medo, confesso que nunca tive jeito para a escrita, não gosto de escrever, ler, gosto é de brincar num jardim junto ao rio,

Dormes?

Claro, acordou o dia, madrugada provisória numa greve de fome, tenho fome, abraço-te e beijo-te, levo-te para o quarto, encostas a cabeça ao meu peito e choras, recordas as manhãs numa qualquer rua da cidade entre bebidas baratas e quartos de esconderijo, claro que este corpo pertence-te, sempre te pertenceu, mas não gosto dele, mas não tenho braços para arcar com tanta dignidade, sobre a cama, ele parecia uma árvore em poiso, sobre a cidade, o rio, o barco que fode o rio, e o rio que mata o amor da minha vida?

Lindíssima.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Domingo, 17 de Abril de 2016

Os dias...

Francisco Luís Fontinha 20 Mar 16

Os dias encostados à maré, um sorriso de sémen aprisionado na garganta, sinto o peso do corpo sentado no esplendor da noite, entrelaço as mãos, começo a rezar…, esqueço-me de mim, de ti, dela, e dele, nunca percebi o silêncio das aves, dos pinheiros abandonados entre os rochedos do desejo, abro as pernas, sinto-te em mim, sorris

Amanhã um jazigo de sol entranhar-se-á em ti, à noite regressavam com os guizos da paixão, a borboleta poisada no teu ombro, meu amor, as imagens do nosso sofrimento suspenso nas sombras do esquecimento, estou só, sem o teu peso no meu peso, um dia voltarás a mim,

Sorris, fugimos do caos como fugiram todas as paixões deste areal, um barco morrerá nas tuas mãos, um marinheiro morrerá na minha mão, ele sofre, ele sente… o meu peso?

As ruas desertas, o sexo misturado no luar, os dedos meus encarnados no teu peto, e sorris…

Partir, os dias encostados aos meus dias, imaginas-me dentro de ti, eu, e eu… tão longe da tua palavra, do teu silêncio quando o meu arde na fogueira do adeus, estou só, sozinho neste inferno de morte, a vida desgraçada descendo a calçada, o corpo amarrado aos cortinados do medo, o jazigo da paixão encolhe-se no seu esqueleto, hesito, tenho medo, e volto a fugir, amo-te, amo-te como jangada do poema deambulando os alicerces cromados do circo da alegria, hoje tiraram-me um retracto, ficou mal, estou velho

Velha, cansada deste inferno encostado aos estilhaços da saudade, encosto-me a ti, meu amor, encosto-me a ti sabendo que nunca mais voltarás a minha noite,

Cansado,

Estou velho. Pareço um farrapo engatando gajos antes de cair a noite, sonho, sonho com as viagens ao escuro, a fome, lá fora, vive, mora e morre a fome, meu amor, lá fora as esquinas do sofrimento, as velhas nuas avenidas das orgias em papel, a tinta desta caneta, só, sozinho, esquecido nesta alucinada grandeza dos povoados beijos do Além…

Amanhã, Francisco, amanhã…

Sinto-te, sento-me no teu corpo de velhice, sempre o sono, a amargura, e nada de beijos, meu amor, e nada de beijos, meu amor…

 

Francisco Luís Fontinha

domingo, 20 de Março de 2016

Ausência

Francisco Luís Fontinha 5 Mar 16

Ausento-me tantas vezes do meu corpo que até me esqueço que existo, verdade, tenho dias que não me pertenço, sou o nada, sou a sonâmbula madrugada vestida de ressaca, o triângulo equilátero suspenso na ardósia do medo, permaneço incrédulo, pasmo, ausento-me tantas vezes…, e nunca regresso ao ponto de partida,

Assim, então, és um desgovernado transeunte disfarçado de mendigo, assim, então, és a poesia trazida dos Oceanos do sono, porra, ignoras-te, sentes na pele a derradeira separação, o frio, a geada, as tardes enganadas em Vila Real, esperando tu, o quê?

Sete dias sem dormir, um bar quase a encerrar, e não tenho para onde ir…

Assim, então, és uma ratazana de esgoto, literatizes-te menino da geringonça, amordaçado pelo tempo,

Fui,

Fazes bem,

Ausento-me tantas vezes

Ontem veio a carta para pagar a electricidade, não tenho dinheiro para a pagar…, foda-se. Quarenta euros? Nem TV tenho, só se for a insuflável boneca que cá deixaste,

Parvo,

Parva,

Ausento.me tantas vezes, dias horas, minutos e segundos, são apenas palavras, palavras, palavras de nada…

Parvo,

De nada.

 

Francisco Luís Fontinha

Sábado, 5 de Março de 2016

...

Francisco Luís Fontinha 22 Fev 16

E poisava-me a mão sobre os meus débeis joelhos, não falava, nada dizia, e talvez escrevesse dentro dele

Eu também, minha querida, eu também..., mas diz-lhes que eu não estou,

E eu, esperava-o, sentava-me sobre a meia-lua do prazer, pegava num livro, lia qualquer coisa, e fechava-o, e recordava o cisco de oliveira cilindrado dentro de uma lareira de prata numa cozinha de aldeia, cansei-me, cansei-me

De ti,

Uma mala de chapa uivava junto aos meus pés, lá dentro, apenas papeis e livros, e claro, senhor anormal, os livros são constituídos por folhas de papel, logo

Os livros também são papeis,

Então trouxeste de tão longe, uma mala

Sim?

Uma mala de chapa e recheada com papeis,

De ti,

Porquê padrinho? Porque tens medo de mim?

E a meia-lua desesperadamente voava sobre os desvairados plátanos do pensamento, havia lápis de cor e folhas de cartolina, sobre os meus joelhos, a mão dele, sentia-a, como mais tarde senti a mão da solidão no interior do meu púbis, como mais tarde senti nas minhas coxas, sim padrinho

A sua suave voz melódica e poética que Deus criou, como as nuvens e os infernos das flores em putrefacção, corpos de carne misturados em bocas de mar que as árvores tanto invejam, Percebe-me, padrinho?

Não, não consigo imagina-te...

Sentada neste sofá à espera que você regresse?

E se eu não regressar?

 

in “Noites de Mim”

Francisco Luís Fontinha

O objecto luminoso que acerca o meu corpo, são sete horas e ainda não acordei, imaginei-me nocturnamente um cubo de vidro com faces pinceladas pelo desejo do orgasmo invisível que a madrugada nos oferece

Amanhã, meu amor?

Nos oferece a cada tímido minuto de solidão, nos oferece a cada minuto de desespero, amanhã, meu amor, amanhã

Do amor?

Amanhã, os contíguos cortinados do medo embrulhados na atmosfera gasosa do abismo, o objecto, luminoso

Do amor, as canibais palavras que me bombardeiam diariamente, o amor, o amor envergonhado pela minha miséria e pobreza,

Não faz mal… sou feliz assim, diz ele todas as tardes junto à taberna, lá dentro meia dúzia de cadáveres embalsamados pelo álcool, os ossos rangendo como serpentes no acordar do amanhecer, desisto,

Luminoso, desisto do teu corpo, alimento-me de pequenas drageias e alguns uivos teus, nos oferece, e engana, o som da morte, rodopiando as tenazes aventuras como acontecia em Lisboa, íamos ao Tejo, vomitávamos as palavras do Sol que iluminava a parada, o amor, o corpo do amor, nos meus braços,

Do amor, a vergonha da miséria, a miséria alheia, a minha, a que aqueles que me odeiam preferem proferir a todos o acordar, deixam-me louco, sem palavras, amargo, invisível, snobe e encabeçado nas alegres manhãs de Primavera, amanhã, meu amor, amanhã

Do amanhecer, da preguiça de me levantar, tomar banho e lavar os dentes, o frio, a geada, a tua ausência, todas elas argumentos para eu

Amanhã, amanhã meu amor, amanhã vamos ao beliche dos sonhos ressuscitar a alegria, amanhã estarei no teu esconderijo, só, eu, para eu adormecer, fazer amor com o teu silêncio, amar-te como o olhar das serpentes, nunca e nunca te dizer

Amo-te!

O objecto luminoso que acerca o meu corpo…

 

Francisco Luís Fontinha

domingo, 21 de Fevereiro de 2016

...

Francisco Luís Fontinha 14 Fev 16

A via não regressa mais aos teus braços, meu amor, sentíamos os gonzos da insónia acorrentados aos nossos lábios, o dia consegue alimentar-se das ardósias sonsas do olhar, a noite envergonha-se nos nossos medos, de amar, ser amado, amarmo-nos sem percebermos que amanhã o amor é uma lápide de lágrima, tive um sonho esta noite, estávamos sentados na saudade

Saudade, meu amor? Sim, sim meu amor, sentados na saudade, as cancelas da morte entreabertas, sentados na saudade,

Amanhã, meu amor, os pássaros brincando na janela virada para a Quinta, ao fundo o Rio, o Douro envergonhado galgando os socalcos do desejo, a vida

Não, não regressa mais aos teus braços

Meus amor?

Sim, claro, amanhã, amanhã sentiremos o odor dos sufixos aprisionados ao Dicionário da paixão, a encosta, o medo de perder-te, meu querido, enquanto lá fora a noite vomitava fotografias da tua infância,

Saudade?

Os brinquedos, os primeiros beijos e cartas de amor, o papel, os poemas em pequenos suicídios, milímetros de suicídio, aos poucos, a partida, o Adeus, a brincadeira,

Não, não meu amor, amanhã não

Não consigo absorver-te como te absorve a noite, as laminadas fragâncias enferrujadas no cabelo da invisível maré de Azoto,

Saudade?

Os brinquedos

Saudade, das vitrinas cobertas de sono, os bonecos e bonecas visíveis nas vitrinas cobertas de sono, e a saudade regressava como um apito, a dor, o sofrimento, a morte…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

domingo, 14 de Fevereiro de 2016

 

in “Amargos lábios do poema”

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