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Cachimbo de Água

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Sonho desmiolado

Francisco Luís Fontinha 9 Jul 17

Onde adormece o corpo que desapareceu na madrugada!

Estou aqui,

Sentado à lareira,

Estou aqui escrevendo palavras para queimar na lareira…

Antes de adormecer,

Estou aqui,

Esperando que regresse o sonho da clandestina noite sem escuridão,

Aqui…

Aqui me encontras, todos os dias, e todas as noites,

Perdi o barco da infância,

Perdi a terra húmida de quando criança,

Aqui,

Aqui me encontro, à tua espera, sonho desmiolado,

Aqui sentado,

Aqui me encontras,

Sonolento dia sem alvorada,

Estou aqui,

Todos os dias, e todas as horas,

Aqui me encontras, aqui me encontras antes de morrer,

Todos os dias,

Todas as noites…

A todas as horas.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 9 de Julho de 2017

As sanzalas embalsamadas!

Francisco Luís Fontinha 20 Jul 14

Aos dias ímpares, as horas que me são roubadas por uma mão sem nome,

as sílabas disparadas pela espingarda das sanzalas embalsamadas,

o meu corpo não cessa no púlpito do cansaço, ele evapora-se, ele... ele transforma-se em zinco lamaçal,

há uma criança inventada, uma criança perdida na saudade...

aos dias ímpares, as horas malvadas,

que alimentam a dor,

que... que engolem todos os amanheceres,

e do meu corpo, apenas o coração de pedra ficou adormecido na eira da poesia,

 

Aos dias ímpares, o triste calendário envergonhado,

a desassossegada fantasia de um texto alienado, quando arde na fogueira da tua pele,

uma cidade nos espera, uma cidade em papel...

 

Aos dias ímpares, as horas, os minutos, e os... e os milésimos de segundo,

alguns em liberdade, e outros... e outros acorrentados a um envelhecido veleiro,

hoje não há vento,

hoje... hoje apenas a límpida tarde de pano a soluçar sobre as árvores do triângulo equilátero,

é este o meu Mundo?

ter uma cidade sem candeeiros em desejo,

ser filho de um desenho que o tempo apagou numa longínqua parede,

e contento-me com todos os dias ímpares, as horas que me são roubadas...

 

E a tua mão... e a tua mão, um dia, terá um nome, idade, raça, sexo... religião,

 

Aos dias ímpares, a geometria na doçura da caligrafia,

um poema morto, um poema descendo a calçada em direcção ao infinito...

e o meu corpo não cessa no púlpito do cansaço...

 

E o poeta permanecerá eternamente nas sanzalas embalsamadas!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 19 de Julho de 2014

O dia ainda a meio e eu farto dele

Francisco Luís Fontinha 17 Mai 11

O dia ainda a meio

E eu farto dele

Chove

Não chove

 

E sinto dentro de mim

O cansaço do dia

Que nunca mais termina

 

O dia ainda a meio

E nos meus braços silêncios

Os ossos em desassossego

Que esperam a noite

 

A noite longe

As horas suspensas na parede da sala

E na rua os pássaros contentes

Na rua chove

 

Não chove

Vai chovendo na minha janela

Sem vista para o mar…

E o mar tão longe

 

A noite longe

O dia ainda a meio

E eu farto dele

E eu pendurado na manhã ensopada

 

E eu sentado numa cadeira

A olhar o mar que espera por mim…

Sei que ele vem

Ele vem ter comigo quando a noite acordar.

 

 

Luís Fontinha

17 de Maio de 2011

Alijó

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