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Cachimbo de Água

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Outono em flor

Francisco Luís Fontinha 10 Out 17

O corpo pincelado de noite,

Quando da noite regressam as barcaças do Inferno,

Não trazem destino,

Como no Inverno,

O menino…

O menino recheado de luz e incenso verbo,

Lá fora chora uma flor,

Um pequeníssimo poema morre de dor…

E o menino em febre, cansado da flor,

Deita-se sobre o orvalho imaginado pelo seu progenitor,

Prometo conquistar todos os ossos do teu corpo,

Prometo desenhar no teu corpo a sombra da revolta,

E que nunca mais volta,

Às escadas do sofrimento.

Oiço o teu lamento,

Os teus gritos contra os cortinados da Primavera…

Oiço o Outono na tua mão tão bela,

Quando a barcaça,

Em passo acelerado,

Bate contra os rochedos da desgraça…

E o menino,

Coitadinho…

No chão sentado.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 10 de Outubro de 2017

Terra do silêncio

Francisco Luís Fontinha 5 Dez 16

Esta terra entranhada nas raízes do Diabo,

Sonolenta quando acorda o Inverno,

E uma lâmina de lágrimas brota do seu coração,

Saboreia as espadas da dor

No término da tarde onde inventa o silêncio do desejo,

Uma enxada poisa na sombra da terra lavrada,

E o vulto de cigarro em cigarro,

Como uma árvore deitada

Sobre a esplanada da paixão,

Dorme docemente…

Esta terra é íngreme como as montanhas do Adeus,

Sem sorriso,

E do cansaço brilham as estrelas da noite…

A casa gélida, triste,

Murmuram os candeeiros a petróleo nas cicatrizes da incerteza,

O absoluto orgânico melancólico cilíndrico…

Que o peso da lua deixa ficar sobre os envidraçados lábios,

Esta terra de beijos e moradas,

Esta terra queimada pelo incenso do amor

Que em todas as horas desperta como uma criança de luz…

Sinto o brilho dos teus olhos

Nas almofadas do desterro,

E as palavras que semeias…

Habitam este Inferno de viver.

 

 

Francisco Luís Fontinha

05/12/16

Sem cabeça

Francisco Luís Fontinha 20 Out 15

O inferno estava próximo, do corredor entranhava-se no meu corpo o cheiro a enxofre e a gajas nuas,

Menos tabaco nesses cigarros…, gajas no inferno?

E canteiros recheados de malmequeres, crisântemos e orquídeas selvagens, imperfeito, o vidro estilhaçava-se, ficou sem cabeça, ficou sem coração, e ficou com o medo misturado nos óbitos grãos de areia, ainda hoje acredito que um objecto depois de crucificado… permaneça o mesmo objecto, mas com formas e cheiros e desenhos…

Menos tabaco, amigo, menos tabaco,

Diferentes, tornam-se ausentes, tornam-se miúdos brincando no musseque, os charcos, o capim descendo a rabina, o miúdo do bibe acreditava na liberdade, e é tão difícil ser-se livre nesse País, tão difícil meu pai, tu sabes

Menos tabaco, menos,

Tu sabes que vivi encerrado entre quatro paredes invisíveis, tu sabes que vivi entre três janelas sem vista para o mar, mas sentia-o no meu quarto,

Lembras-te, filho? Os Domingos junto ao Porto e os barcos pareciam cancelas suspensas na madrugada, lembras-te, filho? Os Coqueiros, as gaivotas comendo os Coqueiros, e tudo apenas imagens a preto e branco do meu imaginário, porque, meu filho

Sim, pai?

Lembras-te do Mussulo?

Sim, pai, sim… a areia recheada de lençóis brancos, a poeira do cansaço vomitando languidas lâminas de azoto, e depois, e depois regressava a noite, dormias, sonhavas, gritavas… e eu, eu sem dormir, comer,

Ao longe, meu amigo, ao longe o inferno, as gajas, as nuas gajas junto à porta do inferno,

Louco, menos tabaco nesses cigarros, menos,

Ao longe a agonia do fim de tarde agachado em cima de um telhado em zinco abraçado a um livro, não sabia ler ainda, mas lia-o, absorvia-o, como hoje o faço, e não sabia ler ainda,

E tu, pai, e tu emprestavas-me os teus livros, e eu, eu dilacerava-me com o cheiro do papel, com as letras, com as imagens, com as tuas palavras “estes livros não são para a tua idade” como se houvesse idade para se manusear e cheirar e “foder” um livro… vigava-me, riscava-os, tal como as paredes do corredor, riscos, riscos, um livro entre gemidos, um livro em pleno orgasmo… Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…

Desaparecem todas as palavras, o inferno estava próximo, do corredor entranhava-se no meu corpo o cheiro a enxofre e a gajas nuas, pensei (estou em cais do Sodré) não, não estava, nunca lá estive e nego-o, absolutamente,

Menos tabacos nesses cigarros, menos

Aproximava-me, lentamente a minha verticalidade diminuía, sentia-me um miúdo de bibe gritando, berrando, “fodendo” livros com uma caneta de tinta permanente, e nada, até hoje, nada, morreu ele, morri eu, morremos todos.

 

(ficção)

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 20 de Outubro de 2015

Este poema com o nome de beijo!

Francisco Luís Fontinha 13 Jul 14

Horrível,

este poema sem marinheiro,

feliz deste barco embrulhado no vento,

desgovernado,

só...

só... e em sofrimento,

faltam-lhe as palavras,

faltam-lhe... faltam-lhe os encantos dos murmúrios de Inverno,

este poema... filho do Inferno,

que arde na lareira do desejo,

horrível...

este poema com o nome de beijo!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 13 de Julho de 2014

Cerejas de papel

Francisco Luís Fontinha 11 Mai 14

O corpo é de espuma verde,

cintilam nela as cerejas de papel,

o corpo incendeia-se quando cresce a noite nas mãos do desejo,

e ouve-se o beijo,

deambulando nas orgias marés de Inverno,

o corpo em chamas, o corpo Inferno,

como lábios de mel...

a cidade desamarra-se do cais da liberdade,

 

O corpo é de espuma verde,

erva daninha nas encostas da montanha sem amanhecer,

o corpo brinca na lareira inventada dos olhos em verniz envelhecer,

o corpo ginga como uma moeda a morrer,

sei que vês os Oceanos marginais que a cidade embarca,

o corpo diminui, o corpo procura a sílaba tonta com perfume de naftalina, e há uma arca,

e há uma sombra, apenas com uma palavra e que não quero escrever...

o corpo é uma bala com nome de cidade,

 

A cidade a arder.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 11 de Maio de 2014

O perfume dos cigarros sem nome

Francisco Luís Fontinha 28 Out 12

Desenhava as espadas do inferno

nas húmidas janelas que as fotografias inventavam

na claridade poeirenta dos dias em solidão

e os corações de vidro

choravam em sílabas de sangue misturados às vezes na obscuridade

das palavras que a saudade alicerça no silêncio pequeno-almoço,

 

No peito esverdeado pela nascença de uma nova flor

abriam-se-lhe todos os espinhos da infância adormecida

no pilares de madeira que a noite come

abriam-se-lhe os poemas escondidos nas mãos de nevoeiro

que o amor escreve no cadáver da tarde dentro do rio sem barcos de papel,

 

Desenhava as espadas do inferno

como se as estrelas suspensas nos jazigos imaginários

escondessem verdadeiramente os duzentos e seis ossos de mim

pedaços de xisto mergulhados nas lágrimas

que os lábios de desejo

constroem sentados nas cadeiras de cartão

oferecidos pela loucura manhã de domingo

e nas longínquas taças de champanhe com bolinhas encarnadas

os disfarces de Marilú no poeirento espelho caquéctico da cave com grades em gemidos

e o perfume dos cigarros sem nome

em busca do sítio encantado das árvores azuis e nuvens de chocolate

que o poema esconde na garganta do boneco de palha.

 

(poema não revisto)

Dias com poesia

Francisco Luís Fontinha 25 Jun 12

Tenho dias de inverno

de inferno noite

tenho dias sem noite

e noites em dias

tenho horas com rios

e dias

noites dela em cio

tenho dias em dias

rio nas mãos do mar

dias de inverno

em inferno noite

e dias de dias às noites

 

tenho dias de inverno

de inferno noite

 

tenho dias à janela

outros dias

com a corda suspensa no mar

tenho dias de inferno

e noite de inverno

dias em dias dos dias de amar

 

e tenho dias com poesia

e dias que não consigo acordar

dias aos dias outros dias

dias sem trabalhar.

As gargantas do inferno

Francisco Luís Fontinha 17 Ago 11

Dentro das gargantas do inferno

O rio que se esconde da madrugada

E o frio e a geada

Que pausadamente esperam o inverno,

 

Perco a vontade de viver

E esqueço-me do mar

O que a vida me dá e o que me quer…

E percebo que a vida é uma roda que não se cansa de girar,

 

E tanto sobe como desce

Nas noites intermináveis quando as horas adormecem

E os meus olhos esquecem

A lágrima que aparece,

 

Dentro das gargantas do inferno

O rio que se esconde da madrugada

E quando nasce a alvorada

O mar fica eterno…

O inferno dos barcos amordaçados

Francisco Luís Fontinha 2 Jul 11

Este inferno

Dos barcos amordaçados

Que entram e saem

Dos meus braços cansados,

 

E das minhas mãos

Acordam as nuvens sem destino

Finco os olhos no espelho

E vejo-me menino

 

Nas ruas desertas da morte

Nos quintais empalhados pela sombra das mangueiras

Porquê, porquê esta vida sem sorte

Na sombra das oliveiras.

 

Este inferno

Na vida sem sentido na vida desgraçada

Eu, uma árvores inclinada na tarde,

Eu, uma flor desfolhada

 

Levada pelo vento e atirada ao mar,

Dos barcos amordaçados

As minhas pétalas em lágrimas de luar

Os meus olhos nas rochas encalhados…

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