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Cachimbo de Água

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Bilhetes de infância

Francisco Luís Fontinha 2 Ago 17

Perguntei ao flamingo se reconhecia a minha voz,

Escrevi-lhe bilhetes de infância sonorizados com nuvens envergonhadas,

Senti nele a tristeza das horas junto ao rio,

Permiti-me abraçá-lo, permiti-me acariciá-lo…

E daí nasceu um poema, palavras dispersas na madrugada por nascer,

Morreram os poemas, morreram as palavras…

Morreram os flamingos amigos do flamingo,

E, e eu fiquei só,

Tão só como as noites de Inverno.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 2 de Agosto de 2017

Da noite e do luar

Francisco Luís Fontinha 14 Jan 16

Flutuo sobre os lábios cinzentos da sombra,

Sinto a ferrugem da saudade a entranhar-se nos meus ossos,

Pareço uma velha peça de aço no interior de uma qualquer sucata…

Esperando o embarque,

Alicerço-me aos braços da solidão

Como se eu fosse uma estátua em granito

Tombada no chão,

Esqueço-me da noite e do luar,

Esqueço-me do dia e da majestosa manhã junto ao mar,

Flutuo…

Invento coisas com pedaços de papel

E sorrisos escondidos na penumbra madrugada,

Invento coisas com pedaços de papel

E Invernos desgostosos que nunca mais acabam…

Como o meu corpo desaparece

Quando abro a janela…

E a saudade desembarca no meu peito.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

quinta-feira, 14 de Janeiro de 2016

Este poema com o nome de beijo!

Francisco Luís Fontinha 13 Jul 14

Horrível,

este poema sem marinheiro,

feliz deste barco embrulhado no vento,

desgovernado,

só...

só... e em sofrimento,

faltam-lhe as palavras,

faltam-lhe... faltam-lhe os encantos dos murmúrios de Inverno,

este poema... filho do Inferno,

que arde na lareira do desejo,

horrível...

este poema com o nome de beijo!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 13 de Julho de 2014

Sabias dizer-me

Francisco Luís Fontinha 4 Jul 14

Sabias dizer-me a cor dos teus olhos,

nunca esqueceste o cansaço dos meus cabelos,

sabias... e deixaste de saber...

o que escrevo,

o que quero escrever,

sabias como eram as madrugadas de Agosto num jardim clandestino,

tão pequenino,

tão...

e deixaste de perceber os silêncios do amanhecer,

sabias dizer-me a cor dos teus olhos,

sabias,

sabias e tinhas medo da minha voz trémula,

 

Desfocada no espelho de um quarto escuro...

sabias,

e não me querias dizer...

como eram belas as gaivotas do Tejo,

 

De como eram belas as ruas desertas de Belém,

sabias a cor dos teus olhos...

… e não sabias... e não querias saber...

de como eram belos os barcos que vociferavam palavras nas noites frias de Inverno,

que inferno,

saberes...

e não me quereres dizer,

que... que havia uma janela pintada de veludo,

que... que havia uma clarabóia sobre o esqueleto do Oceano,

tu sabias,

tu sempre soubeste...

que eu, que eu era construído em ferro fundido dúctil.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 4 de Julho de 2014

Cerejas de papel

Francisco Luís Fontinha 11 Mai 14

O corpo é de espuma verde,

cintilam nela as cerejas de papel,

o corpo incendeia-se quando cresce a noite nas mãos do desejo,

e ouve-se o beijo,

deambulando nas orgias marés de Inverno,

o corpo em chamas, o corpo Inferno,

como lábios de mel...

a cidade desamarra-se do cais da liberdade,

 

O corpo é de espuma verde,

erva daninha nas encostas da montanha sem amanhecer,

o corpo brinca na lareira inventada dos olhos em verniz envelhecer,

o corpo ginga como uma moeda a morrer,

sei que vês os Oceanos marginais que a cidade embarca,

o corpo diminui, o corpo procura a sílaba tonta com perfume de naftalina, e há uma arca,

e há uma sombra, apenas com uma palavra e que não quero escrever...

o corpo é uma bala com nome de cidade,

 

A cidade a arder.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 11 de Maio de 2014

Inverno das madrugadas em geada

Francisco Luís Fontinha 24 Fev 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Sou um pássaro sem gaiola de aço

um rio sem pontes

sou um barco sem leme sem velas sem vento...

sou uma árvore dentro dos finos abraços

escondido nos montes

saboreando o sofrimento,

 

Sou uma nuvem envergonhada

correndo os corredores da dor

sou uma rua esquecida na cidade

sou uma sombra desenhada

do jardim em flor...

sou... sou um homem construído pela saudade,

 

Sou um pássaro sem poiso um pássaro fingindo amar

sou um esqueleto invisível caminhando junto aos rochedos do amor

sou... um pássaro conversando com pequenos livros de porcelana

sou uma janela virada para o mar

esperando a morte vestida com cor

esquecendo a vida em noite escura que a toda a hora me proclama,

 

Sou o Inverno das madrugadas em geada

o patamar dos vadios pés revestidos a azulejo

sou um pássaro voando nos sonhos inventados

uma ribeira gelada

sou... sou um pássaro em desejo

comendo corações apaixonados.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2014

Finos tapetes de solidão

Francisco Luís Fontinha 4 Fev 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Sentes o vento nos finos tapetes de solidão, e cansas-te, e murmuras...,

e murmuras os ínfimos castigos da cidade em construção,

tens medo dos holofotes que a madrugada desenha na tua vidraça, choras?

das gravuras que deixaram no teu olhar sinto a voz do silêncio,

observo as árvores que balançam, e quebram...

choras?

sentes o vento nas acácias manhãs de Inverno,

tempestuosas,

tormentosas...

como as mentiras dos carrinhos de choque na feira da alegria,

há sempre uma palavra no teu sorriso,

há sempre um sorriso meu... nas palavras tuas,

 

Sentes, choras, sentes os orifícios das conchas perdidas,

ouves o mar, e sabes que dentro dele eu, eu... eu brinco nas invisíveis ondas de espuma,

desço às profundas mágoas que a tempestade transporta,

há uma porta de entrada vazia, chorosa... ranhosa..., uma porta com dentes de carvão,

sentes e choras, e brincamos como crianças nas tristes ardósias junto ao rio,

há socalcos dentro de socalcos,

há ruas perdidas dentro da tua algibeira...

sentes o vento nos finos tapetes de solidão, e sabes, e sabes que hoje tive uma bandeira na minha mão,

cresceu uma flor no meu cabelo,

e diz-me o espelho nocturno dos milagres incompreendidos que... que amanhã...

que amanhã não choras, que amanhã não sentes,

que amanhã melhoras.

 

 

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 4 de Janeiro de 2014

Triste Inverno

Francisco Luís Fontinha 3 Jan 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Prefiro esquecer

não olhar o mar sobre as pedras cinzentas da dor...

não chorar porque nas lágrimas habitam os pássaros em papel

como palavras vivas

como... prefiro esquecer o sofrimento ensanguentado da noite

sentado

e adormecer

eu cansado... cansado de esperar que se ergam as flores do triste Inverno.

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 3 de Janeiro de 2014

O espelho com lábios rosados

Francisco Luís Fontinha 29 Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Não tínhamos sabão para lavarmos os pecados cometidos durante a noite, da torneira do lavatório, um objecto quase em putrefacção devido ao estado de abandono a que foi submetido durante os últimos anos de permanência do habitante caquéctico a que dizem ser meu tio, apenas um fino fio de ferrugem, abria-a, fechava-a, e na esperança que de pequeno fio se transformasse em grande novelo..., mas... nada, sempre pingos de ferrugem, e mais nada,

Vida desgraçada, dizem alguns de vocês,

Vida alegre e de felicidade, acho-o eu, porque feliz feliz é aquele que não sabe o que diz, como eu, e voltando ao sabão, em falta dele temos sempre a fé para nos redimirmos, e claro, começamos a rezar, rezamos tanto que quando terminamos... tinham passado quase trinta e cinco dias, sem comer, sem beber, sem beijos, sem abraços... apenas rezávamos e de vez em quando...

Vida desgraçada, dizem alguns de vocês,

Olhávamos a torre da velha Igreja e sentíamos o vento baloiçar nos corpos nossos caídos no soalho da solidão, dizias-me que

Amanhã tudo será melhor,

E hoje, que é o teu amanhã, não tudo melhor, mas... da torneira do lavatório apenas um pequeno fio de ferrugem e sabão, não sabão para lavarmos os pecados cometidos durante a última noite, perguntei à ferrugem se sabia quando tínhamos água

Que

Não o sei, nada percebo disso e apenas respondo ao senhor seu tio, e eu respondia-lhe que

O senhor meu tio foi-se, esfumou-se... voou enquanto dormíamos... como dois lençóis embebidos em sémen e gemidos roucos dos cigarros acabados de fumar,

Que, ainda fumas?

Que

Não o sei, não o sei..., Amanhã tudo será melhor, Amanhã tudo será melhor, Amanhã tudo será melhor, Amanhã tudo será melhor, Amanhã tudo será melhor, Amanhã tudo será melhor, Amanhã tudo será melhor, Amanhã tudo será melhor... que

Não, deixei de fumar e pecar,

Não preciso de sabão, não preciso da água do lavatório nem dos lençóis embebidos em sémen e velhos gemidos, o senhor meu tio?

Foi-se,

Que..., que bicho mordeu ao seu namorado?

Saudades, apenas,

Ciumes?

Da

Da vida desgraçada, dizem alguns de vocês, ou...

Ou da noite em que tínhamos a certeza que nunca mais terminaria, perguntei à ferrugem, sentei-me na sanita e pasmei-me em perceber que dentro de nossa casa habitava uma comandita de trombudos deambulantes clandestinos pássaros que nos habituamos a apelidar de ferrugem e de ferrugem

O quê?

E de ferrugem nada tinham, sempre asseados, sempre penteados, sempre..., APRUMADOS,

Não tínhamos nada, parecíamos dois voyagers em busca dos caminhos perdidos, perguntava-lhe se ainda se recordava da tarde quando caiu sobre nós uma gaivota encharcada e com pequenos pedaços de

Ferrugem?

Lama, madeira da Índia e tílias falidas depois da tempestade lhes derrubar todo o telhado em zinco, a palhota a descoberto destruiu os poucos tarecos que sobraram do regresso a casa, e num caixote semelhante a uma pequena caixa de sapatos conseguíamos meter o que tínhamos de tão pouco o ser...

Algumas da cabras deixámos-las no pasto, lá ficaram, por lá ainda devem andar, quantos às vacas, essas, já devem ter morrido, passou tanto tempo meu querido filho

Tempo demais mãe, tempo é muito e às vezes é tão pouco,

A não ser que alguém nos empreste uma barra de sabão e um alguidar com água limpa, talvez a vizinha do quarto esquerdo

Essa não, essa não... tem a mania que é rica... todo cheia de coisas, não, essa não,

Então esperamos pelo regresso do barco que à quase quarenta e dois anos ficou de vir, e ainda não veio, e quem nos garante que ainda exista?

Ninguém, ninguém...

Tempo demais mãe, tempo é muito e às vezes é tão pouco, não tínhamos sabão para lavarmos os pecados cometidos durante a noite, da torneira do lavatório, um objecto quase em putrefacção devido ao estado de abandono a que foi submetido durante os últimos anos de permanência do,

Do VELHO?

Do minguante espelho com lábios rosados e seios de neblina, hoje sabemos que tudo foi uma mentira, mas ontem

Amanhã tudo melhor, meu filho, tudo melhor...

E não melhor, e não melhor, porque a ferrugem nunca cessou de crescer em nós, porque o lavatório ainda hoje chora as lágrimas negras das noites frias de Inverno, porque

Do VELHO?

Porque o VELHO... o VELHO era em aço laminado... a quente, a quente.

 

 

(não revisto – ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 29 de Dezembro de 2013

A colegial sem nome

Francisco Luís Fontinha 25 Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

A colegial sem nome que esconde os lábios na madrugada

o livro da colegial dorme como uma criança cansada

o cansaço inventa sorrisos nas mãos do desejo

e este

às vezes como um poço sem fundo

também como a colegial

sem nome

voa sobre as praças com candeeiros de prata,

 

Os lábios foram-me oferecidos pela madrugada

e a noite constrói-se nas lágrimas da chuva

dos orgasmos fingidos

que a colegial também esconde

não na madrugada

não no corredor da morte...

mas... mas esconde-os na alma do Diabo

como pétalas de insecto mergulhadas nas manhãs de Inverno,

 

A colegial é transparente

é imóvel

saboreia-se nas candeias que o destino lhe roubou

ela desconhece que a lareira existe apenas para a aquecer

despe-se para o espelho...

a colegial sem nome diz que quando for grande quer ser uma fotografia a preto-e-branco

perplexa

descobre o veneno dos zincos telhados que acordam a criança cansada...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 25 de Dezembro de 2013

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