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Cachimbo de Água

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Esqueletos de xisto

Francisco Luís Fontinha 6 Jan 18

Somos canções de espuma.

Somos corações de aço em revolta,

Somos o tecto da sonolência repartido pelo perfume da tarde,

Somos a esperança,

Somos os socalcos embalsamados junto ao rio…

Somos canções de luta,

Cansada noite entre sombras e cabeças de vidro,

As ruas, os edifícios mórbidos dos condomínios desassossegados,

Somos palavras,

Poemas, somos livros desajeitados,

Nas salinas do amanhecer,

Somos Pátria,

Somos sonâmbulos enfeitados de espuma…

Nas canções de espuma.

Somos a liberdade,

Somos os jardins abraçados à liberdade,

Somos desempregados, homens, mulheres e crianças,

No circo da aldeia,

Somos a bandeira,

Somos a esplanada junto ao mar,

Somos a noite,

Antes de acordar.

Somos equações, metáforas e limões…

Somos cabrões,

Árvores da inocência,

Somos o Inverno,

Nas lareiras do Inferno,

Somos o vento,

A geada e o pensamento,

Somos tudo o que quiserem…

Só não somos esqueletos de xisto.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 6 de Janeiro de 2018

Outono em flor

Francisco Luís Fontinha 10 Out 17

O corpo pincelado de noite,

Quando da noite regressam as barcaças do Inferno,

Não trazem destino,

Como no Inverno,

O menino…

O menino recheado de luz e incenso verbo,

Lá fora chora uma flor,

Um pequeníssimo poema morre de dor…

E o menino em febre, cansado da flor,

Deita-se sobre o orvalho imaginado pelo seu progenitor,

Prometo conquistar todos os ossos do teu corpo,

Prometo desenhar no teu corpo a sombra da revolta,

E que nunca mais volta,

Às escadas do sofrimento.

Oiço o teu lamento,

Os teus gritos contra os cortinados da Primavera…

Oiço o Outono na tua mão tão bela,

Quando a barcaça,

Em passo acelerado,

Bate contra os rochedos da desgraça…

E o menino,

Coitadinho…

No chão sentado.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 10 de Outubro de 2017

Bilhetes de infância

Francisco Luís Fontinha 2 Ago 17

Perguntei ao flamingo se reconhecia a minha voz,

Escrevi-lhe bilhetes de infância sonorizados com nuvens envergonhadas,

Senti nele a tristeza das horas junto ao rio,

Permiti-me abraçá-lo, permiti-me acariciá-lo…

E daí nasceu um poema, palavras dispersas na madrugada por nascer,

Morreram os poemas, morreram as palavras…

Morreram os flamingos amigos do flamingo,

E, e eu fiquei só,

Tão só como as noites de Inverno.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 2 de Agosto de 2017

Da noite e do luar

Francisco Luís Fontinha 14 Jan 16

Flutuo sobre os lábios cinzentos da sombra,

Sinto a ferrugem da saudade a entranhar-se nos meus ossos,

Pareço uma velha peça de aço no interior de uma qualquer sucata…

Esperando o embarque,

Alicerço-me aos braços da solidão

Como se eu fosse uma estátua em granito

Tombada no chão,

Esqueço-me da noite e do luar,

Esqueço-me do dia e da majestosa manhã junto ao mar,

Flutuo…

Invento coisas com pedaços de papel

E sorrisos escondidos na penumbra madrugada,

Invento coisas com pedaços de papel

E Invernos desgostosos que nunca mais acabam…

Como o meu corpo desaparece

Quando abro a janela…

E a saudade desembarca no meu peito.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

quinta-feira, 14 de Janeiro de 2016

Este poema com o nome de beijo!

Francisco Luís Fontinha 13 Jul 14

Horrível,

este poema sem marinheiro,

feliz deste barco embrulhado no vento,

desgovernado,

só...

só... e em sofrimento,

faltam-lhe as palavras,

faltam-lhe... faltam-lhe os encantos dos murmúrios de Inverno,

este poema... filho do Inferno,

que arde na lareira do desejo,

horrível...

este poema com o nome de beijo!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 13 de Julho de 2014

Sabias dizer-me

Francisco Luís Fontinha 4 Jul 14

Sabias dizer-me a cor dos teus olhos,

nunca esqueceste o cansaço dos meus cabelos,

sabias... e deixaste de saber...

o que escrevo,

o que quero escrever,

sabias como eram as madrugadas de Agosto num jardim clandestino,

tão pequenino,

tão...

e deixaste de perceber os silêncios do amanhecer,

sabias dizer-me a cor dos teus olhos,

sabias,

sabias e tinhas medo da minha voz trémula,

 

Desfocada no espelho de um quarto escuro...

sabias,

e não me querias dizer...

como eram belas as gaivotas do Tejo,

 

De como eram belas as ruas desertas de Belém,

sabias a cor dos teus olhos...

… e não sabias... e não querias saber...

de como eram belos os barcos que vociferavam palavras nas noites frias de Inverno,

que inferno,

saberes...

e não me quereres dizer,

que... que havia uma janela pintada de veludo,

que... que havia uma clarabóia sobre o esqueleto do Oceano,

tu sabias,

tu sempre soubeste...

que eu, que eu era construído em ferro fundido dúctil.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 4 de Julho de 2014

Cerejas de papel

Francisco Luís Fontinha 11 Mai 14

O corpo é de espuma verde,

cintilam nela as cerejas de papel,

o corpo incendeia-se quando cresce a noite nas mãos do desejo,

e ouve-se o beijo,

deambulando nas orgias marés de Inverno,

o corpo em chamas, o corpo Inferno,

como lábios de mel...

a cidade desamarra-se do cais da liberdade,

 

O corpo é de espuma verde,

erva daninha nas encostas da montanha sem amanhecer,

o corpo brinca na lareira inventada dos olhos em verniz envelhecer,

o corpo ginga como uma moeda a morrer,

sei que vês os Oceanos marginais que a cidade embarca,

o corpo diminui, o corpo procura a sílaba tonta com perfume de naftalina, e há uma arca,

e há uma sombra, apenas com uma palavra e que não quero escrever...

o corpo é uma bala com nome de cidade,

 

A cidade a arder.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 11 de Maio de 2014

Inverno das madrugadas em geada

Francisco Luís Fontinha 24 Fev 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Sou um pássaro sem gaiola de aço

um rio sem pontes

sou um barco sem leme sem velas sem vento...

sou uma árvore dentro dos finos abraços

escondido nos montes

saboreando o sofrimento,

 

Sou uma nuvem envergonhada

correndo os corredores da dor

sou uma rua esquecida na cidade

sou uma sombra desenhada

do jardim em flor...

sou... sou um homem construído pela saudade,

 

Sou um pássaro sem poiso um pássaro fingindo amar

sou um esqueleto invisível caminhando junto aos rochedos do amor

sou... um pássaro conversando com pequenos livros de porcelana

sou uma janela virada para o mar

esperando a morte vestida com cor

esquecendo a vida em noite escura que a toda a hora me proclama,

 

Sou o Inverno das madrugadas em geada

o patamar dos vadios pés revestidos a azulejo

sou um pássaro voando nos sonhos inventados

uma ribeira gelada

sou... sou um pássaro em desejo

comendo corações apaixonados.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2014

Finos tapetes de solidão

Francisco Luís Fontinha 4 Fev 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Sentes o vento nos finos tapetes de solidão, e cansas-te, e murmuras...,

e murmuras os ínfimos castigos da cidade em construção,

tens medo dos holofotes que a madrugada desenha na tua vidraça, choras?

das gravuras que deixaram no teu olhar sinto a voz do silêncio,

observo as árvores que balançam, e quebram...

choras?

sentes o vento nas acácias manhãs de Inverno,

tempestuosas,

tormentosas...

como as mentiras dos carrinhos de choque na feira da alegria,

há sempre uma palavra no teu sorriso,

há sempre um sorriso meu... nas palavras tuas,

 

Sentes, choras, sentes os orifícios das conchas perdidas,

ouves o mar, e sabes que dentro dele eu, eu... eu brinco nas invisíveis ondas de espuma,

desço às profundas mágoas que a tempestade transporta,

há uma porta de entrada vazia, chorosa... ranhosa..., uma porta com dentes de carvão,

sentes e choras, e brincamos como crianças nas tristes ardósias junto ao rio,

há socalcos dentro de socalcos,

há ruas perdidas dentro da tua algibeira...

sentes o vento nos finos tapetes de solidão, e sabes, e sabes que hoje tive uma bandeira na minha mão,

cresceu uma flor no meu cabelo,

e diz-me o espelho nocturno dos milagres incompreendidos que... que amanhã...

que amanhã não choras, que amanhã não sentes,

que amanhã melhoras.

 

 

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 4 de Janeiro de 2014

Triste Inverno

Francisco Luís Fontinha 3 Jan 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Prefiro esquecer

não olhar o mar sobre as pedras cinzentas da dor...

não chorar porque nas lágrimas habitam os pássaros em papel

como palavras vivas

como... prefiro esquecer o sofrimento ensanguentado da noite

sentado

e adormecer

eu cansado... cansado de esperar que se ergam as flores do triste Inverno.

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 3 de Janeiro de 2014

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