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Cachimbo de Água

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Palavras que me encantam

Francisco Luís Fontinha 16 Jul 17

São as tuas palavras que me encantam,

São os teus livros que habitam em mim a razão de viver,

Caminhar junto ao rio…

Galgar os socalcos do querer…

São as tuas palavras que me encantam,

Durante a manhã,

À tarde…

De noite,

Palavras, tristes as tuas palavras…

Na planície do silêncio,

São as tuas palavras que me encantam,

E desalojam…

Deste cubículo de lata,

Onde durmo,

Vivo…

E morro.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 16 de Julho de 2017

O homem do mar

Francisco Luís Fontinha 1 Jul 17

Sentas-te no meu colo como dois pilares de areia envenenados pelo silêncio,

 

Oiço a tua respiração romper a manhã,

Ainda o sol não acordou,

Pego na tua mão,

Desfeita de aventuras,

E ternuras,

Que o tempo levou…

 

E perdeu no chão,

A chave do teu coração,

 

Sentas-te na minha sombra, menina do teu olhar,

 

Desfeito em lágrimas o amanhecer ausente,

Duas portas sem saída,

Nesta cidade perdida…

Perdida que não sente,

 

Porque te sentas,

Em mim,

 

Todos os dias loucos sem madrugada,

 

Oiço a tua voz pergaminho,

Perdida na brancura da razão,

Estou só, e sou um ninho…

Um ninho na solidão,

 

Sentas-te em mim,

 

Um homem construído de mar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 1 de Julho de 2017

estrelas da manhã

Francisco Luís Fontinha 22 Mai 16

caem sobre ti as estrelas da manhã

o sonífero desejo dos meus braços

encalhado no teu olhar

como a pérola adormecida da paixão

rompendo a montanha do Adeus…

subindo lentamente as escadas do mar

até ao sótão do coração…

a esfinge aventura do terno menino

sobrevoando os cadeados de prata

que aprisionam os barcos de madeira

caem sobre ti as estrelas da manhã

nas sofridas avenidas do prazer

que as cidades imaginadas

comem ao pequeno-almoço

sem o saber…

o mendigo das vestes negras

tropeçando na tristeza

senta-se no almoço sem riqueza…

e reza…

e chora…

porque caem sobre ti as estrelas da manhã.

 

Francisco Luís Fontinha

domingo, 22 de Maio de 2016

A viagem do paquete amordaçado

Francisco Luís Fontinha 23 Abr 16

Os poemas perdidos, a noite incendeia a solidão do corpo enquanto lá fora o silêncio da morte acorda os pedestres rochedos da insónia.

Desço às profundezas do rio, toco na sua boca como se alguém me empurrasse para a escuridão, feliz aquele que vive só, sem ninguém,

Os poemas perdidos que invadem a tarde junto ao mar, lá longe, os sifilíticos segredos da esperança, perdidos, as palavras, os sons e a melódica tempestade dos guizos,

Perdidos.

Os poemas na minha mão caminhando sobre as areias finas do desejo,

Invento crianças que brincam nos quintais de espuma,

Marés de incenso sobre a secretária desarrumada,

Milímetros quadrados de nada, de ninguém, que só os muros da geada conseguem atravessar, tenho pena do coração da Primavera; triste.

Como eu,

Triste

Nos poemas perdidos,

Amanhã renascerá uma estrela no meu peito e o meu corpo transformar-se-á em lâminas de prazer, amanhã terei os poemas perdidos fora do livro, esqueléticos casebres das montanhas de neblina, rios que invadem a cidade e trazem a morte, dos poemas, e dos livros com poemas,

Triste,

Os poemas perdidos quando incendeiam os dedos amachucados pelos cigarros em despedida,

As fotografias dentro de uma caixa de cartão à espera de serem resgatadas pelas palavras dos poemas perdidos, sem ninguém, procuro nela o meu rosto de infância, imagino-me a olhar os barcos entre apitos e partidas, e o medo absorve-me…

Deixo de ver a cidade, dou-me conta em pleno Oceano, sinto o cheiro das gaivotas percorrendo os trilhos do sono, e dos poemas perdidos…

O sangue que corre nas minhas veias, os dias iguais às noites, as noites iguais às sílabas de luar quando olho pelo camarote um finíssimo fio de nylon que me acompanha até ao meu regresso,

Despeço-me dos poemas perdidos,

Despeço-me da aldeia onde nasci e abraço uma Lisboa camuflada pelas âncoras do Tejo, os caixotes em madeira presos aos meus pés, sem nada, apenas tarecos, apenas pequeníssimas coisas sem nexo,

Os poemas perdidos,

Despeço-me,

Deles, delas…

 

Sem perceber que os poemas perdidos nunca existiram em mim.

 

 

Francisco Luís Fontinha

sábado, 23 de Abril de 2016

Uma cidade em lágrimas

Francisco Luís Fontinha 8 Fev 16

Não sabia que da textura da noite se fabricavam beijos,

Não sabia que há no luar uma habitação condigna,

Com muitas janelas

E junto ao mar…

Onde nascem estrelas

Donzelas

E desenhos de desenhar,

Não sabia que tinhas no olhar

Uma cidade em lágrimas

Embrulhada na penumbra,

Tanta coisa que eu não sabia…

Que às vezes,

Sentia

Tremia

Gemia…

Até que acordasse a manhã na tua mão!

 

Francisco Luís Fontinha

segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2016

Em ti me perco

Francisco Luís Fontinha 8 Mai 15

Em ti me perco

Manhã embalsamada

Em ti me abraço

Sem perceber

Que o dia cessou de brincar

Em ti me perco

Manhã assombrada

Entre lábios de sol

E pinceis de madrugada

Que só o mar

Sabe desenhar…

Em ti me perco,

 

Manhã desolada.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 8 de Maio de 2015

Sítios comuns

Francisco Luís Fontinha 17 Mar 15

Os sítios comuns

sempre a mesma rua

o mesmo cigarro

o senhor da esquina

jornais

sapatos

trapos

livros

velhos

o mesmo fumo

todos os dias

o horário nocturno,

 

as filas invisíveis para ancorar o sono

a cama

o sofá

velhos

iguais

feios

imundos como os meus poemas

os sítios comuns

em círculos de espuma

uma janela doente

o reumático

nunca se abre,

 

os ossos em papel

ardem

desassossegadas palavras

na algibeira do senhor da esquina

o corpo que se vende

e as estátuas que se compram

ninharias

coisas pequenas

pedras

barcos

cidades a apodrecer

sexos complexos nas montras do abismo,

 

acreditar

e desacreditar

nos livros

dos livros

e das jangadas de silêncio...

a mão poisa no ombro da manhã

afaga-lhe a cabeça

desenha-lhe no olhar a solidão dos panfletos adormecidos

publicidade

vende-se apartamento junto ao mar...

e sempre a mesma rua

sempre o mesmo cigarro.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 17 de Março de 2015

Jardim de transeuntes

Francisco Luís Fontinha 9 Dez 14

As manhãs são límpidas tristezas
Que só o vento consegue abraçar,
Parar no semáforo e olhar a rosa mais bela
Do jardim de transeuntes em movimento,
Tem no sorriso a bandeira da paixão
E nos lábios…
A doçura inseminada das palavras,
Do vermelho…
O verde verdade
Da esperança…
As manhãs são límpidas tristezas
Que vergam o frágil esqueleto da cidade,

Não tenho tempo para desenhar
A saudade na mão de quem me espera,
Não tenho vontade de abrir a janela
Deste quatro latas cansado,
As manhãs são límpidas tristezas
Que só o vento consegue abraçar,
São rosas transeuntes suspensas no mar…
São palavras ignoradas,
Sombras deitadas na estrada,
As manhãs
São… límpidas tristezas
Sem tempo para amar…





Francisco Luís Fontinha – Alijó
Terça-feira, 9 de Dezembro de 2014

Desintegração

Francisco Luís Fontinha 20 Nov 14

Desintegro-me na desilusão das imagens adormecidas

pareço um velho palhaço gritando para a multidão

palavras

e canções

e noites perdidas,

 

Viagens enigmáticas com odor a madrugada

rios embriagados correndo nas minhas veias

dilatadas

tristes

tristes como as lágrimas da calçada,

 

Desintegro-me sem o saber

enquanto sonho nas planícies lunares

desintegro-me lentamente como o vento nas tardes de liberdade

recebo uma carta... lá dentro habita a saudade...

e desintegro-me nas palavras por escrever,

 

As rosas que disparam sorrisos encarnados

o oceano levitando nas mãos de alguém que é amado

o barco do desejo... navegando

navegando nos cortinados da mentira...

e desintegro-me nos planaltos prateados,

 

Há no teu olhar rochedos vadios comendo mendigos engravatados

das tuas pálpebras ancoradas

despem-se os seios da manhã sem despertador

maldito relógio que nunca morre...

e todas as luzes poisam nos ombros dos alegres desgovernados...

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 20 de Novembro de 2014

Mãos de papel...

Francisco Luís Fontinha 11 Jul 14

Não estavas,

levemente desapareceste nos panos húmidos da manhã,

sentia-se a brisa que regressava da montanha,

peguei na tua mão,

percebi que era de papel, percebi que era impossível segurá-la...

hesitei,

voltei a pegar,

a tua mão ardeu, e vi a cinza madrugada rolando calçada abaixo,

 

O rio absorveu-a, o rio absorve todos os corações sem nome,

levemente... deixou de haver manhã,

perdi a noção do meu corpo, perdi nas pálpebras da tua dor o meu sorriso...

fiquei carrancudo, absorto, como o granito esquecido numa rua sem janelas,

a pedra, e as flores...

absorvidas pelo mesmo rio que hoje alimenta o meu desejo,

não estavas,

e hoje tenho medo a todas as mãos de papel...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 11 de Julho de 2014

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