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Cachimbo de Água

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Lágrimas tuas palavras minhas

Francisco Luís Fontinha 14 Jul 17

Todas as minhas palavras são lágrimas tuas,

Nuas cancelas sobrevoando o Oceano,

Os barcos cansados e a remo…

Prisioneiros no teu cabelo ao vento,

Sofro, sofro e alimento

Estes carris do pensamento,

Todas as minhas palavras são lágrimas tuas,

Duas pontes absorvendo o rio da dor,

Uma pequena flor,

Um grande amor…

 

Nas janelas doiradas do sofrimento.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 14 de Julho de 2017

Amores de papel com lábios de algodão

Francisco Luís Fontinha 12 Abr 16

Deixei de contemplar o teu perfume.

Ausento-me desta cidade de espingardas envenenadas

Que assombram o meu sorriso,

Procuro-te, procuro-te na ânsia de encontrar a tua sombra

Nos buracos da noite, procuro-te sem saber se existes nesta cidade de espingardas envenenadas, mesmo assim, eu não me canso de te procurar,

Desenho-te. Escrevo-te sabendo que não consegues ler as minhas palavras.

Amanhã acordarei na preguiça do amanhecer, novamente te vou procurar, aqui, ali, em qualquer lugar…

Não sei, não sei se existes,

Não sei se és real como as árvores no final do dia, encolhem os braços e dormem, dormem acreditando, também elas, que existes algures nesta cidade,

Mas não acredito na tua presença,

Imagino-te sentada num qualquer jardim esperando por mim, imagino-te sentada junto ao rio esperando por mim, mas enquanto vou ao rio e ao jardim, nada, nada da tua presença,

Desisto?

Desisto.

Sigo viagem, vou à procura do meu caderno preto, vou à procura da areia finíssima do Mussulo onde brincava com os outros meninos, também eles, esquecidos, sucata, velharias à porta de uma taberna,

Estou só, estou só enquanto escrevo, não sei se existes…, mas…, mas não quero a tua presença enquanto escrevo,

Lamento-me,

Lamento-me dos confins da lixeira dos sonhos, invento amores de papel com lábios de algodão, sinto-o, sinto-o

Sinto-o na minha mão como um fidalgo desempregado, triste e vaiado numa noite junto ao mar, amanhã, talvez,

Talvez existas nos meus aposentos de criança, amanhã, talvez existas nas pedras circulares dos Oceanos abandonados,

Desisto?

Desisto.

Esqueço-me de ti,

Recordo a liberdade de viver sobre este cansaço de aço,

Recordo a ardósia onde escrevia poemas só para ti, mas tu, tu não existes,

Pareces a morte,

O silêncio disfarçado de morte,

E depois

E depois deixei de contemplar o teu perfume.

 

 

Francisco Luís Fontinha

terça-feira, 12 de Abril de 2016

Amanhecer

Francisco Luís Fontinha 22 Jun 15

A paixão do homem

No homem camuflado,

Salto os muros da infância,

Perco-me nas arcadas dos alicerces cinzentos,

Sei que hoje o meu destino,

É saltar,

Voar sobre os fios de seda dos teus lábios,

Tenho beijos na palma da mão,

Sou um clandestino silêncio à procura do amanhecer,

Palpita no meu peito

O cansaço dos sonhos adormecidos num qualquer Oceano,

Aqui,

Não sou ninguém,

Pareço as ruínas de um edifício de ossos,

O pó poisa nos meus ombros em cartolina solitária,

Como um lápis de carvão,

Deitado na eira…

Os dedos enterrados no chocolate teu corpo,

Os comboios imaginários entranhados nas tuas coxas de marfim,

A paixão do homem…

No homem…

O camuflado cinzeiro das noites sem dormir,

No homem,

O homem,

Sempre na esperança de partir…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 22 de Junho de 2015

Vida de marinheiro

Francisco Luís Fontinha 27 Dez 14

Adoro esta vida de marinheiro,

sem porto para aportar...

nem coração para ancorar,

adoro esta noite,

apenas esta,

porque a solidão se entranha em mim como um vicio...

ou uma jangada de saudade,

adoro esta vida de marinheiro,

sem pouso,

sem... sem Oceanos para sonhar,

sem as amarras das palavras,

sem as ruas da cidade,

adoro esta vida de marinheiro,

sem glória,

sem vaidade para oferecer,

adoro

esta

vida

… de marinheiro...

com medo de sofrer,

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2014

Amas-me?

Francisco Luís Fontinha 25 Dez 14

Havia um emaranhado de fios eléctricos dentro da sala de jantar, todos eles eram providos de rosto, voz... e esqueleto, sentia a cada desperdício de cerveja o regresso do Oceano meu coração, ouvíamos alguns sons melódicos que o Rui tinha adquirido em cinco suaves prestações, e a Madalena saciava-se com um livro de poemas,

Amo-te sem saber porquê...

Os poemas dançavam no ventre de Madalena, sentia cada palavra como se de um desejo se tratasse, ou de um orgasmo em despedida,

Amanhã vou caminhar depois do jantar, olhar as estrelas amantes da trigonometria, desenhar círculos de papel nas clarabóias da inocência..., e olhar-te, e olhar-te como se existisses, como se fosses um texto de ficção dentro da fogueira,

A lareira sonolenta abraçava-se aos teus seios,

Amo-te sem saber porquê...

E eu sabia que nos teus seios apenas habitavam as minhas mãos de porcelana,

A morte em pequenos assobios,

As horas em agonia num relógio de parede,

E eu sabia que nos teus seios...

Texto de ficção?

Em quadriculas, os números agoniados e agachados junto ao capim do quintal, nunca tinha olhado o Sol depois das cinco da tarde,

E eu sabia que nos teus seios...

Texto de ficção?

E mesmo assim, deitado debaixo das mangueiras... imaginava petroleiros a entrarem dentro de mim,

tive medo, senti o primeiro beijo, a primeira carícia, o primeiro e derradeiro contacto, os lábios deixaram-se apelidar de Amor,

Amas-me?

O amor, os poemas dançavam no ventre de Madalena, sentia cada palavra como se de um desejo se tratasse, um orgasmo em despedida, os gemidos dos poemas inseminados nas páginas abandonadas de uma velha folha de papel, a caneta de tinta permanente... pesadíssima, as correntes do teu olhar acorrentavam-me, deixei de sentir os braços, as pernas, o... o amor,

Amas-me?

Deixaram-se apelidar de Amor,

Havia um emaranhado de fios eléctricos dentro da sala de jantar, os fusíveis dos meus sentimentos... ardiam, e percebi que nunca mais conseguiria perceber o Amor,

Amas-me?

E eu sabia que nos teus seios...

Texto de ficção?

Não revisto, não lido, não...

Não percebo as palavras que escrevi na tua pele de marginal semeada de palmeiras, barcos encalhados e... e gaivotas.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 26 de Dezembro de 2014

O cadáver da paixão

Francisco Luís Fontinha 28 Nov 14

Os teus olhos pincelados de verniz

camuflados no sombreado silêncio de uma ardósia

a tarde sem destino

e o menino...

embrulhado nas palavras adormecidas pelo giz

que só o luar consegue apagar

e destruir

o barco vai partir

sem conhecer a direcção...

ou... ou o cais para ancorar

e há uma corda suspensa nos lábios da solidão

que transcende o homem que deseja mergulhar no Oceano,

o desengano

do desassossego vestido de beijo enfeitiçado

a menina dança?

os teus olhos que só os pássaros percebem

o teu corpo de esferovite à deriva na planície das lágrimas incendiadas pelo areal...

um grito de revolta

alicerçado ao magnetismo esconderijo das geadas envenenadas

a embriaguez estonteante das madrugadas

quando o relógio de pulso se suicida num abraço de cartão canelado

e o homem responsável pelos teus olhos pincelados de verniz...

… morre lentamente na fogueira da paixão

como a perdiz

nas garras do amanhecer

e nesta vida de viver...

os teus olhos são cerejas de sofrer.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

Poema vencido

Francisco Luís Fontinha 6 Nov 14

Sombreados lábios

no pincelado amanhecer

tristes searas de incenso

sem vontade de crescer

imenso Oceano mergulhado na minha mão

concubina solidão vagueando na ruela sem saída

é esta a minha vida?

duzentos e seis ossos sem comida,

oiço os teus seios na escuridão do meu silêncio

brinco sob as mangueiras de um País distante

cheiro o orgasmo do poema vencido

é esta a minha vida?

um emaranhado farrapo esquecido na espingarda do soldado...

um... um cigarro apagado...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 6 de Novembro de 2014

Caverna espelhada

Francisco Luís Fontinha 2 Nov 14

Os corpos incandescentes vivem na caverna espelhada

o amor cessa

porque um olhar se acorrenta às arcadas nocturnas da insónia

os corpos transparentes voam

e não regressam mais...

 

O difícil é partir

sem regressar

esconder-se nos claustros invisíveis do amanhecer

deixar sobre a mesa-de-cabeceira um simples bilhete...

parto e nunca mais regressarei,

 

Regressar porquê?

se ninguém notará a minha ausência...!

o amor cessa

e das palavras regressarão os abismos de um Oceano habitado por cadáveres

e em cada cadáver uma flor na lapela...

 

Os corpos...

fogem das ruas inanimadas com odor a Primavera

o amor cessa

como cessaram todas as andorinhas

e todas as gaivotas que conheci...

 

A caverna espelhada transpira solidão e embriaguez alicerçada aos barcos de papel

o menino de calções desenha nas sombras do entardecer

corações e triângulos que um adulto qualquer vai fotografar

e mais tarde...

queimar na fogueira do desejo.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 2 de Novembro de 2014

O flamejante sorriso do abismo

Francisco Luís Fontinha 13 Out 14

Porque dormem no meu olhar

os traços coloridos de silêncio?

 

Porque existe um veleiro desgovernado

no Oceano meu sofrimento,

se o vento,

se o vento deixou de correr junto às palmeiras...

 

Porque vagueiam na minha mão

as palavras nocturnas da dor,

quando o livro poisado na minha mesa-de-cabeceira...

ardeu,

morreu,

e hoje é apenas cinza como os traços coloridos de silêncio...

 

Porque dormem no meu olhar

os traços coloridos de silêncio?

 

Se nas tuas pálpebras crescem andorinhas sem asas!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

Sabias dizer-me

Francisco Luís Fontinha 4 Jul 14

Sabias dizer-me a cor dos teus olhos,

nunca esqueceste o cansaço dos meus cabelos,

sabias... e deixaste de saber...

o que escrevo,

o que quero escrever,

sabias como eram as madrugadas de Agosto num jardim clandestino,

tão pequenino,

tão...

e deixaste de perceber os silêncios do amanhecer,

sabias dizer-me a cor dos teus olhos,

sabias,

sabias e tinhas medo da minha voz trémula,

 

Desfocada no espelho de um quarto escuro...

sabias,

e não me querias dizer...

como eram belas as gaivotas do Tejo,

 

De como eram belas as ruas desertas de Belém,

sabias a cor dos teus olhos...

… e não sabias... e não querias saber...

de como eram belos os barcos que vociferavam palavras nas noites frias de Inverno,

que inferno,

saberes...

e não me quereres dizer,

que... que havia uma janela pintada de veludo,

que... que havia uma clarabóia sobre o esqueleto do Oceano,

tu sabias,

tu sempre soubeste...

que eu, que eu era construído em ferro fundido dúctil.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 4 de Julho de 2014

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