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Cachimbo de Água

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Outono em flor

Francisco Luís Fontinha 10 Out 17

O corpo pincelado de noite,

Quando da noite regressam as barcaças do Inferno,

Não trazem destino,

Como no Inverno,

O menino…

O menino recheado de luz e incenso verbo,

Lá fora chora uma flor,

Um pequeníssimo poema morre de dor…

E o menino em febre, cansado da flor,

Deita-se sobre o orvalho imaginado pelo seu progenitor,

Prometo conquistar todos os ossos do teu corpo,

Prometo desenhar no teu corpo a sombra da revolta,

E que nunca mais volta,

Às escadas do sofrimento.

Oiço o teu lamento,

Os teus gritos contra os cortinados da Primavera…

Oiço o Outono na tua mão tão bela,

Quando a barcaça,

Em passo acelerado,

Bate contra os rochedos da desgraça…

E o menino,

Coitadinho…

No chão sentado.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 10 de Outubro de 2017

Os pássaros…

Francisco Luís Fontinha 24 Set 17

Os pássaros, mãe…

Poisados no teu frágil cabelo, vomitando vozes nas tuas mãos enquanto lá fora o Outono se veraneia junto aos Plátanos da saudade,

Os sons melódicos dos teus ossos quando a madrugada não acorda, por preguiça, por nada… ou por tudo,

O sono, o sono que te alimenta e te transforma em esqueleto desempregado, lutando contra a dor, e o sofrimento…

Os pássaros, mãe…

Junto ao rio esperando a tua sombra, e os teus beijos,

Os pássaros desesperados, os pássaros envenenados de químicos complexos alvorando as tuas veias… e nada nem ninguém a brincar na eira,

Os pássaros, mãe…

Descendo os socalcos, dando curvas infinitas num cadeirão estático, morto, uniformemente acelerado, o seno, o co-seno alicerçado aos teus pulsos de verniz… como as serpentes do anoitecer,

Como eu odeio os teus pássaros, mãe…

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24 de Setembro de 2017

As cartas não lidas

Francisco Luís Fontinha 4 Nov 14

Este machimbombo rabugento subindo a calçada,

cá dentro, algumas insignificantes malas sem destino,

uma guitarra,

e um chapéu de palha...

partilhamos os abraços nos cadeirões ensonados,

algures... ouvem-se os pergaminhos nomes das cidades perdidas,

faltam-me os cigarros e os livros que deixei no apeadeiro da solidão,

um lenço de papel chega-me para escrever qualquer coisa parva,

como todas as coisas parvas que faço...

evito abrir os olhos porque do outro lado da rua, uma roda dentada,

sobrevoa as árvores cansadas do Outono,

e este machimbombo que não anda...

 

E este relógio que não pára...

sufocam-me as tuas palavras de viajante que sobejaram de uma carta não lida,

nunca leio as cartas que me escrevem...

também... deixei de escrever cartas,

porque são apenas pedaços de papel,

com... com falsas sílabas,

e prometidas aventuras,

amo apaixonadamente a noite,

a noite travestida de cinzento alento...

amo as pedras acabadas de tomar banho,

quando em finais de tarde...

acorda o moliceiro... e o meu corpo se transforma em machimbombo rabugento.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 4 de Novembro de 2014

O vento das canções de Outono

Francisco Luís Fontinha 16 Mar 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Dizias-me que eras o vento das canções de Outono,

e eu, eu acreditei, escrevi palavras para essa canção...

desenhei beijos para os teus lábios,

dizias-me que te chamavas “menina do mar” de do mar... não eras nada,

nem onda, nem pôr-do-sol... nem jangada,

um dia fizeste-me acreditar que eras livro de poesia,

eu tentei, tentei ler, folhear... e não eras nada,

apenas uma esbranquiçada página com um palavra... “saudade”,

dizias-me que tinhas na mão a caneta das minhas palavras,

eu, eu sentia-a no meu rosto, como o vento das canções de Outono,

e eu, eu acreditei na tua pele com flores de papel,

e tudo o que me disseste... hoje, hoje escrevo-o na rocha embalsamada na montanha do “adeus”.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 16 de Março de 2014

as oito esquinas do medo

Francisco Luís Fontinha 29 Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

deixarei de pertencer aos teus olhos

e vagamente... deixarei nas tuas nuvens de algodão o cigarro fantasma

deixarei de adormecer nos teus cabelos como o fazia antes das madrugadas serpenteadas

nas oito esquinas do medo

ouvirei perfeitamente as tuas mágoas...

terei o leve cuidado de acariciar os teus lábios

e

deixarei de voar nas tuas lágrimas de maré embriagada

e vagamente transformar-me-ei na cinza do teu imaginário cinzeiro

haverá uma janela engomada

com cortinados de fumo

e haverá... uma língua endiabrada pernoitando no meu angustiado peito

 

servirei de teu mordomo devidamente fardado

andarei pelos corredores da tua imaginação levitando sem tocar nos objectos de adorno

sentirás dentro de ti o meu vagabundo corpo

e nada conseguirás fazer para cessarem os teus sinceros gemidos

baterá o vento levemente nas ardósias dos tentáculos pinheiros de Carvalhais

ouviremos o sino engasgado nas sílabas das searas de milho

deitar-te-ás dentro do espigueiro...

e o teu ventre correrá em círculos na eira granítica do desassossego

amar-te-ei?

mesmo sabendo tu que sou um espantalho de aldeia

onde poisam os pássaros

e cagam os pássaros... sobre mim

 

sobre nós

deixarei os livros cansados das minhas mãos

dos meus olhos

às palavras... às palavras vou derramar-lhes o fogo do silêncio

embrulhado em pergaminhos sonos

e verei transversalmente o meu esqueleto no patamar da morte

ouvirei os teus casmurros beijos

como sentirei em mim os teus deleitados dedos

sujos

imundos...

transbordando sémen como caravelas esquecidas no Oceano dos vidros solitários...

e acabarei por pertencer aos ramos caducos do Outono

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 29 de Novembro de 2013

sentir não sentindo as velhas noites de cetim

Francisco Luís Fontinha 10 Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

senti-te despregada dos sonhos em castelos de veludo

desci as escadas da solidão à tua procura

mergulhei no incenso magusto das castanhas embebidas em pétalas de amor

dormi na rua por tua causa

subi às árvores para buscar-te as asas que te prometi

e por lá fiquei

senti

e sem ti

senti-te mais tarde dentro de mim como se sente o rio quando corre nas nossas veias de onomatopeias desgovernadas

tristes

e simples espada nas cantigas das janelas em ruelas empobrecidas

senti-te despregada dos sonhos em cubos de areia vestidos com bonecos em palha seca

sabia-te perdidamente nas cidades em volta dos relvados nocturnos dos néons castrados como abelhas fundeadas no cais das aranhas e noites em dormitórios de marés rochosas ou das malignas coberturas de zinco nas cabeças sem coloridas manhãs de Outono

amar-te-ei depois dos terramotos de cetim em cobertores de chita?

e por lá fiquei

senti

e sem ti

imaginava-te louca com brincos de centeio dos campos de Carvalhais

imaginava-te nua dentro do espigueiro junto à eira

e sentia-te entre as frestas do dia em delírios poemas como gotículas de suor que o teu corpo derramava sobre a minha sombra

e por lá fiquei

senti

e sem ti

às caravanas esplanadas do rio embrulhado em pontes de concreto armado

vagueavas-me na ponta dos dedos como objectos minúsculos do edifício da rua dos apaixonados mosquitos de arame

sentia-te fervilhar no meu sangue

sentia-te a desfrutares as palavras dos meus suspiros quando acordava o pôr-do-sol...

e um barco se sémen poisava sobre as tuas coxas envergonhadas

absorvendo o prazer da tarde como uma equação diferencial esquecida dentro do caderno quadriculado

e por lá fiquei

sem saber que tu eras como as espigas de milho

sem saber que tu sonhavas com clarabóias de insónia depois dos terramotos de cetim em cobertores de chita

amar-te-ei?

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 10 de Novembro de 2013

neblinas marés do inferno

Francisco Luís Fontinha 30 Out 13

foto de: A&M ART and Photos

 

não precisaria da noite para reescrever-te e reinventar-te das neblinas marés do inferno

não precisaria de ver-te

acariciar-te

tocar-te como o faço sempre que te observo nas sombras dos cansados telhados de suor

não precisaria

mas também não fazia sentido sentir-te

sentindo-me agachado junto aos rochedos da miséria

indefinidamente

sem pontuação

nem um simples ponto final... e despedir-me

de ti

 

(sem precisar

não precisaria de despedir-me das pegadas em flor

ou

dos candeeiros verdes das janelas em plátanos solitários)

 

não precisaria de imaginar-me nas ravinas doentes das montanhas com reumatismo

obesas caminhando abraçadas aos três carris que o Inverno tece nas mãos da geada

não precisaria

e preciso

olhar-te

imaginar-te deitada no meu desajeitado colo

porque os meus joelhos parecem dobradiças enferrujadas

barcos encalhados nos finíssimos bancos de jardim

à madeira empobrecida

no caruncho bicho das palavras derretidas nos talheres do açúcar em pedra...

o mar alimenta-me a saudade

de precisar quando eu não precisaria... dos teus beijos amanhecer

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

quarta-feira, 30 de Outubro de 2013

movediças areias

Francisco Luís Fontinha 29 Out 13

foto de: A&M ART and Photos

 

movediças areias tuas manhãs cansadas em mim

orvalhos siderais colados na língua do Outono

migalhas dele nas mãos do inferno

o invisível mergulhado das travessias inconstantes das flores empastelares

pareço um viúvo de fotografia ao peito

com suspensórios de tristeza acorrentados à solidão das noites indolores

movediças areias

as tuas coxas

as tuas ideias

os teus pérfidos seios de porcelana no clandestino horário que vive nos meus pulsos de aço

procuras abraços

e eu... ofereço-te palavras sem nexo

desejos vãos

carícias por correspondência a cobrar no destinatário

pareço um viúvo embebido nos arbustos da partida

cândidos odores que provocas nas praças diurnas da cidade dos beijos

transeunte esqueleto sem vida

na minha vida

os lábios dilacerados em pedaços de papel de embrulho

movediças areias

as tuas lágrimas lunares em madrugadas de cio

e lambedoras orgias estrelares

sobre a ponte fina e escura

do cemitério da poesia

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 29 de Outubro de 2013

crateras de vidro

Francisco Luís Fontinha 21 Set 13

foto de: A&M ART and Photos

 

penso em ti enquanto habitas o meu esponjoso peito

com crateras de vidro

penso em ti quando se abre em mim uma qualquer janela

que o meu pobre corpo alimenta

possui

habitas em mim sonho encaracolado nos castanhos cabelos do amanhecer...

 

apaixonado cansaço do silêncio mendigo às ruas plastificadas como capas de livros envelhecidos

perdidos entre palavras e ventos agrestes

velas

e veleiros...

penso em ti... peito

mergulhado no Oceano mar em tristes marés nocturnas

 

penso em ti enquanto bebo o meu esponjoso peito onde habitas clandestinamente...

vestes-te de sofrimento e disfarças-te de fotografia

imagem pobre e apodrecida

das tempestades aos beijos em chuva de Outono

caiem as folhas dos teus lábios

e alicerçam-se no meu peito esponjoso... e lá deitas a cabeça da solidão

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 21 de Setembro de 2013

manhã sem manhã

Francisco Luís Fontinha 20 Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

apetece-me comer-te

morder os teus lábios em chocolate

fervilhar como tu dentro de uma chávena de chá

olhar-te

saborear-te quando entras em mim

pela manhã sem manhã

 

mastigar os teus olhos de néon

sem que tu percebas que os teus olhos são comestíveis como as castanhas

no Outono

sentados a uma lareira invisível

enquanto eles se dissipam através da chaminé do desejo

voando sobre os velhos telhados da tua aldeia

 

apetece-me comer-te

saborear-te como saboreio um copo com água

como saboreio as gotículas de suor do teu corpo bronzeado...

mastigar-te e saborear-te e engolir-te

como se tu e os teus olhos e a manhã sem manhã... fossem pedaços de vento

também eles comestíveis e saboreáveis...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 20 de Agosto de 2013

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