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Cachimbo de Água

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O exilado corpo da paixão

Francisco Luís Fontinha 23 Ago 17

Vivo exilado neste corpo cansado,

Tenho as rugas do desejo estampadas nas mãos calejadas pela velha e imaginária enxada,

Os socalcos lá longe, dormem profundamente na sombra de um rio,

Navego em ti, minha querida, até que regresse a morte e te leve para longe,

Imagino-me sem ti, um grande desassossego, uma longínqua e inerte sentido de não liberdade,

Perdido na cidade, esquecido na paragem do eléctrico, só, sem ninguém…

 

Sei que um dia vamos estar todos juntos… mas isso, mas isso é quando?

 

O rosto cremado na lixeira da paixão,

A sombra enigmática do sorriso ao acordar, distintas portas de saída…

E da rua, o silêncio fumarento dos cigarros envenenados pela tua dor,

 

Vivo,

Sou um exilado da solidão,

Entre pássaros e as abelhas desgovernadas do teu coração,

 

E amanhã será um novo dia, de luta, e da pele incinerada do abismo…

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 23 de Agosto de 2017

As árvores dos teus braços

Francisco Luís Fontinha 20 Ago 17

Navego nos teus alicerces de prata,

Sinto o término do dia, é triste, meu amor, a despedida da luz vadia…

Quando tenho nos braços o cansaço da solidão, meu amor,

Navego sem destino, desorientado, sem leme… nem rumo certo,

Trago no peito a lança cravada pela noite, meia-noite aqui, meu amor,

E das sanzalas de veludo o cheiro dos meninos brincando na areia…

A prezada manhã enraivecida pelo tédio, o sol distante de nós,

E lá ao fundo os barcos de papel…

Navego nos teus alicerces de prata,

Sonâmbulo nocturno das cavernas,

E dos pequeninos charcos de incenso… voando em direcção ao rio.

Escrevo-te todos os dias, minha sombra de parede,

Olho-te no espelho da tarde, e sabes, meu amor, amanhã mais um dia de tristeza,

Carregado de sangue nas algibeiras da coragem,

Amanhã, meu amor, amanhã entras pela janela e correrás dentro de mim…

Líquido da madrugada, fantasma da alvorada…

Navego,

Acesso ao teu coração…, e observo um cadáver de lata lutando contra um braço de mar…

Esperança, a distância dos perfumados destinos, assim, assassinados pelo tempo, escuro, deserto, e áspero…

E as árvores tombam nos teus braços, meu amor, tombam nos teus braços.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 20 de Agosto de 2017

Palavras em lágrimas

Francisco Luís Fontinha 15 Ago 17

Porque choram as palavras, meu amor!

 

Neste silêncio cubículo guardo o meu corpo embalsamado pelo tempo,

Sinto o abraço das palavras tristes quando as lágrimas da paixão brotam do sorriso sol,

Sento-me no teu colo, beijos incandescentes nos teus lábios em flor…

Me resigno enquanto me é permitido,

Fujo de ti, escondo-me numa esquina de luz em ciúme,

E tenho na mão direita o fogo do teu peito,

A morte vem, oiço-a na montanha branca onde habitam os teus braços cansados,

E sei que as palavras choram, por ti, por mim, meu amor…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 15 de Agosto de 2017

Palavras sós

Francisco Luís Fontinha 12 Ago 17

Palavras!

Enigmas suspensos na madrugada,

O farol avariado, os barcos cerram os olhos, e escondem-se na neblina,

Palavras a arder,

Palavras escritas no fogo da paixão,

Quando a saudade morre devagarinho…

Os poemas despem-se das palavras,

Os livros adormecem sem os poemas,

E o papel amarrotado da tua pele… sedução encantada,

Palavras!

Tristes versos abraçados a tristes noites de Verão,

Sentidos pêsames, a partida para o outro lado do Universo,

E as estrelas amarguradas em fuga para o Infinito,

Verbo,

Os latidos desorganizados dos teus gemidos… quando o rio se suicida nos rochedos,

Em transe,

A ausência delas quando eu sentado espero pela alegria,

Ressequida,

Mortas todas,

As pedras que te atiro…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 12 de Agosto de 2017

Sombras de papel

Francisco Luís Fontinha 10 Ago 17

Minha querida Mirian,

 

 

A pureza dos teus lençóis de prata enganando o meu rosto carcomido pelo teu sorriso,

Recordo os teus beijos aprisionados aos meus,

Quando tínhamos a janela aberta e entrava em nós a fragância do Sol que nos abraçava nocturnamente,

Poisavas o teu cabelo nos meus seios suados pela tristeza da tua partida,

Ouvíamos música, entrelaçávamos os dedos como duas crianças num qualquer jardim,

Brincando com pequeninas pedrinhas de sombra,

Sabes, meu amor,

Deixei de ler os teus versos,

Deixei de abraçar as tuas palavras como fazíamos no Inverno, quando abraçávamos o vento regressado das estátuas de luz,

Deixei de pertencer às tuas coxas desenhadas nos círculos de desejo, ao longe a árvore que nos escondia da tempestade,

Deixei de viver, meu amor,

Apenas finjo caminhar sobre a areia molhada da tua pele…

E ambas sabíamos que um dia tudo terminaria… a trágica morte das nossas sombras de papel.

 

Beijos

 

 

 

Viviane

Alijó, 10 de Agosto de 2017

O capim da saudade

Francisco Luís Fontinha 11 Jul 17

A casa descalça no sombrio destino da pele camuflada pelo capim da saudade,

O cacimbo poisa docemente no teu sorriso, como uma gaivota de vento enrolada na árvore da solidão,

Foge de mim e abraça-se à liberdade…

Até que a noite se veste de negro…. E no chão

Queimado pelo suor do teu cabelo, levita na imensidão do Universo…

Escrevo-te este pobre verso,

Sem saber se saberás ler,

Ou escrever,

 

Um tentáculo de papel absorve-te na ribeira da montanha adormecida,

Sinto o levante amante que sou nas tuas lágrimas,

Como uma pedra ressequida…

Do velho xisto exposto ao Sol da manhã embainhada na espada da serpente envenenada pelo silêncio,

E dou-me conta que sou apenas eu neste inferno…

 

Viver é passar os dias aqui sentado a olhar o mar suicidado numa tarde de Verão,

Viver é passear-me com o teu caderno debaixo do braço esquerdo,

Onde guardo a tua carta de despedida…

E o teu pedido de partir,

 

E a fuga é uma miragem com vista para o mar…

 

Assombrado,

 

Reconheço que da tua ausência nasceu um poema parvo,

Tão parvo que tenho vergonha de o transcrever para o papel…

 

Encerro docemente o caderno na minha mão e escondo-me de ti.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 11 de Julho de 2017

Cidade sonâmbula

Francisco Luís Fontinha 4 Jul 17

Atravesso a cidade amedrontada,

Finjo não existir nas ruas sem saída,

A morte tem o seu encanto,

A partida… o não regressar nunca mais,

Atravesso a cidade sonâmbula que há em mim,

Deito-me no rio…

 

Sofro,

Choro,

 

E dizes-me que amanhã serei apenas poeira envenenada pela saudade,

 

A viagem às catacumbas do sono,

Invento desenhos no teu corpo,

Viajo incessantemente na sombra dos aciprestes…

E toco com a mão a fresca água da tua nascente,

 

Sofro,

Choro…

 

Enquanto houver luar.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 4 de Julho de 2017

A casa

Francisco Luís Fontinha 28 Jun 17

A casa desocupada e infestada de bichos marinhos,

Os ninhos do meu quintal estão recheados de pergaminhos,

Palavras soltas,

Palavras mortas,

Vivas palavras rompendo a madrugada,

Sem nada,

O infeliz meu corpo deitado na casa desocupada,

Escrevo no chão,

Minha mão estremece a cada sílaba adormecida,

Vomito poesia sobre a janela envidraçada,

E imagino a louca Calçada…

Ajuda, não ajuda,

O eléctrico dorme na minha cama esganiçada,

O comboio para Cais do Sodré engasga-se em Alcântara Mar,

E o sonâmbulo adormecido descarrilha ao passar pela minha sombra,

Uma tragédia, meu amor,

A casa,

Desocupada e infestada,

De livros,

Quadros,

Esqueletos…

E restos de ossos,

Poeira,

Alvorada fora até ao nascer do Sol,

Bebedeira, o esqueleto cambaleia…

Saltita,

E volta a adormecer no meu peito,

Nada me resta,

Nada tenho para te oferecer, meu amor,

A não ser, a não ser… algumas velhas flores,

Pedres,

Envelhecidas como nós.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 28 de Junho de 2017

Envenenadas pelo silêncio

Francisco Luís Fontinha 26 Jun 17

Percorro este caminho de pedras envenenadas,

Cada palavra escrita é um novo suicídio…

A aldeia de chocolate evapora-se ao pôr-do-sol,

O teu corpo permanece impávido com a minha presença,

Aventuro-me no teu cabelo…

Fresco ao nascer do sol,

Um livro poisa nos teus lábios recheados de poemas e beijos abstractos,

Sinto-o…, sinto-o quando acordo e apenas vejo a tua sombra

Na penumbra dos meus aposentos empoeirados,

Não me vês, não pertences aos esqueletos de prata

Que brincam na minha biblioteca,

E, no entanto, sei que existe em mim a tua pobre sombra,

Ao fundo do horizonte um rio que chora a tua partida,

Apenas cruzo os braços e deixo-te partir como uma gaivota sobrevoando o mar…

Deixo-te ir…

E canto uma canção para alegrar os arbustos em teu redor,

O Tejo é o Tejo…

A ponte que te iluminava nas noites inquietas,

Os cacilheiros apressados e tu indiferente aos seus anseios…

Não tenho pena nem sinto tristeza,

Já tive e vi muitos barcos…

Reais, de papel… e de esferovite,

Desenhei-te pela última vez de costas para a cidade,

Sentias-te cansada das minhas mãos…

E das minhas palavras,

Percorro este caminho…

De pedras…

Envenenadas pelo silêncio.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 26 de Junho de 2017

A casa dos encantos

Francisco Luís Fontinha 25 Jun 17

Domingo, um abraço chuvoso,

O fogo absorve-te na imensidão do espaço,

Evapora-se nos teus cabelos frescos como a água da ribeira…

Domingo,

Um abraço na carcere do esquecimento,

A flauta suspensa nos teus lábios…

Enquanto em mim permanece acesa a musicalidade da saudade,

Tenho em mim os marinheiros esfomeados do sexo,

E das bebedeiras noites junto ao mar,

A inocência granítica do teu corpo voando na minha mão,

És uma estátua invisível como são invisíveis todas as estátuas,

Olhos cerrados,

Mãos maniatadas,

O uísque em pequenos tragos na melancolia do dia,

As palavras, Domingo, um abraço chuvoso,

A poesia incinerada na tua boca de papel…

Ardem as cidades do sono,

O fogo…

No teu corpo de vidro,

Os barcos amarrotados esperando seus passageiros clandestinos,

Um comandante embriagado…

Prisioneiro de um Domingo chuvoso,

Um abraço,

Até sempre…

No espelho convexo da tua nuvem favorita,

A poesia morre?

Domingo, um abraço, chuvoso,

E o fogo leva-te para as minhas cinzas misturadas na terra húmida…

E toda a sanzala é nossa…

A casa dos encantos.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 25 de Junho de 2017

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