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Cachimbo de Água

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O homem suicidado (IV)

Francisco Luís Fontinha 8 Jul 17

Uma caneta cravada no peito,

Jorram palavras amargas das veias do poeta,

O homem suicidado deita-se no chão firme junto ao mar…

Uma árvore cintila no vento invisível da noite,

A morte,

O homem suicidado sorri das flores sobre o seu corpo,

A cada dia, uma amoreira dorme,

Sonha…

Inventa desenhos no silêncio da escuridão,

A viagem renasce ao nascer do Sol,

A aventura de galgar os rochedos da solidão,

Adormecidos os corpos nos fósforos da miséria…

O poema grita,

Chora…

Uma caneta cravada no peito do artista,

O fim aproxima-se enquanto lá fora uma criança brinca…

E chora,

O poeta grita…

E morre na tua mão.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 8 de Julho de 2017

A “puta” sempre só

Francisco Luís Fontinha 26 Mar 15

Engano-me nos teus olhos

Pareço um espelho confuso

Desfocado como os decenários da saudade

(perdi-me porra)

Sei lá agora

Meu amor

Se existes

Pareces

Uma lâmina de sémen baloiçando no teu peito

Amanhã

Meu amor

Caminharemos sobre o desejado orgasmo

(literário)

Pensavam o quê?

Engano-me nos teus olhos

Como se enganam os automobilistas de óculos escuros

Os escravos do sonho

As drageias congeladas no coração da minha flor

O caixão prateado

Amanhã

Saberei…

O quê?

Aldeia

Gajas boas

Lanternas radioactivas

Um disparo

Contra a morte

A “puta” sempre só

E mesmo assim

Percebo-a… como percebo os teus caprichos.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 25 de Março de 2015

Trapézio do sono

Francisco Luís Fontinha 5 Mar 15

Tenho na sombra do sono

um pilar de areia

uma casa em ruínas

sem telhado

sem braços

sem cabeça

tenho na sombra do sono

o cansaço das palavras

o sorriso do poema

enquanto o poeta gagueja

sofre

e sofre

 

(sem braços

sem cabeça

sem telhado)

os olhos da serpente

fingindo corações de luz

como charcos de lama

sapateando junto ao mar

e eu

na sombra do sono...

inventado papéis de amar

comestíveis

ao pequeno-almoço

 

(sem braços

sem cabeça

sem telhado)

este poema disparado

pela mão do sofrimento

levanto-me da insónia

pensando que já acordou o dia

levanto-me do dia...

acreditando que já é noite

escura

húmida

e vagabunda...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 5 de Março de 2015

Jardim de pedra

Francisco Luís Fontinha 20 Jan 15

Esta paixão não arde

não termina

não existe,

 

e teima em suicidar-se...

 

ausente

sinto-me

árvore

pássaro doente

sinfonia

caixão...

melodia enfaixada nas palavras do Adeus

não pensa

e não quer

beijar o mar

como se o mar fosse os lábios de uma mulher

sem nome

 

e teima em suicidar-se...

 

o poema

o poeta

e todas as flores do jardim de pedra.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 20 de Janeiro de 2015

Desenhos embriagados

Francisco Luís Fontinha 26 Nov 14

A mecânica do esqueleto de pedra

em movimento uniformemente acelerado,

no abismo das amendoeiras enlouquecidas

adormece um sorriso cansado,

triste,

porque habitam nos lábios de uma gaivota os desenhos embriagados,

a mecânica...

do sexo quando emerge das sílabas tontas o orgasmo da palavra,

deita-se na fina folha de papel não escrita,

branca como o silêncio... como o silêncio da mecânica...

que grita,

e chora nas encostas perdidas,

na montanha do Adeus,

brincam as crianças das planícies nocturnas do infinito,

descobrem o beijo num qualquer espelho sem nome,

e a cidade entra em ebulição quando uma janela se alimenta do cortinado colorido,

a mecânica... não sabe o que é o amor,

a física quântica alicerça-se ao esqueleto de pedra,

e as mandíbulas ínfimas de espuma...

correm nas veias do poeta,

tenho no meu quarto um veleiro ensonado,

sem bandeira,

sem... sem Nacionalidade,

como a saudade...

sempre desalinhada com os carris invisíveis da paixão.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

pedaços de inveja

Francisco Luís Fontinha 16 Nov 14

as migalhas são pedaços de inveja

da miserabilidade dos enlatados caixões de porcelana

há sempre uma janela não encerrada...

há sempre uma porta sem saída

não iluminada

há sempre uma rua finíssima

tão fina como as fatias de poesia

que o poeta deixa num banco de jardim.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 16 de Novembro de 2014

Tempestade

Francisco Luís Fontinha 3 Nov 14

Pindéricos esqueletos sobrevoando o pólen embriagado

marinheiros raquíticos encostados ao mar salgado

esta vida de sangue entranhada nas mandíbulas da cidade

este vento envergonhado que se enforca nos meus abraços

os sinos da ferrugem engatados numa ruela quadriculada

a tarde que se afunda

e mata

nos estilhaços de uma espingarda

as mulheres procurando carícias debaixo das palmeiras

um poeta encardido

sentado numa cadeira...

e ninguém... e ninguém olha a ponte de nylon com cabeça de xisto,

 

O poeta enlouquece

e transforma-se em pedacinho de poeira

não escreve porque lhe falta a esplanada de Belém...

cerra hermeticamente os olhos de areia

e... e ninguém...

e ninguém olha a ponte de nylon

que o rio embala nas noites de neblina

os pindéricos esqueletos consumindo vodka falsificado...

os apitos de um drogado

quando os carris de aço desaguam em Cais do Sodré

e o magala desgovernado

tomba... tomba suavemente no pavimento florido,

 

O céu em chamas dançando nas espinhas do almoço

o guardanapo esbranquiçado poisado sobre o clitóris da esperança

gemem as sílabas nas ruínas que a tua voz devastou

canso-me das marés

e desta cidade sem escala

não encontro o fim do sacrifício

que o poema me obriga...

cambalhotas e palhaços encerrados numa tenda clandestina...

solto-me

e grito

e saltito...

como o encharcado luar no centro da tempestade...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 3 de Novembro de 2014

Sós

Francisco Luís Fontinha 27 Ago 14

Orvalhara o feldspato frio do meu peito,

Inventaste a manhã para me obrigar a acordar,

Roubaste-me os sonhos que embrulhavam a noite de carvão…

Semeaste nos meus braços o desejo,

Plantaste em mim a flor proibida,

Plantaste em mim o jardim dos beijos,

 

 

Escreveste nos meus cabelos “amo-te”…

Quando do açafrão o amarelo amanhecer penetra o meu olhar,

Sinto as minhas pálpebras de papel voarem em direcção ao mar,

Sós…

Como se elas fossem o feldspato frio que se acorrenta ao meu peito,

E sei que me olhas enquanto escrevo,

 

 

Roubaste-me todas as canetas de tinta permanente que habitavam em mim,

Escondeste os livros e as sebentas do meu cansaço,

Guardas dentro de ti a chave do meu coração…

E apenas me deixaste os cachimbos adormecidos que a madeira apodrecerá,

Sem que uma fina lágrima se agarre ao espelho das tuas coxas,

Sós…!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

Poeta com as calças na mão!

Francisco Luís Fontinha 20 Ago 14

Perdi todas as imagens que o cansaço foi poisando nos meus ombros,

Destruí as fotografia onde habitavam os meus cabelos,

Perdi-me na escuridão, fiquei por aí…

Como um sonâmbulo invisível,

Vestiram-me de palhaço,

Fui trapezista…

E de circo em circo,

Construí no meu olhar os fios de seda do amanhecer,

Quis voar… quis ser avião, pássaro…

E hoje sou um cubo de granito,

Com correntes de aço,

Com boca de palhaço…

 

 

Perdi todas as imagens que trouxe num caixote em madeira,

Sem destinatário,

Sem terra para aportar…

Acreditei ter nascido no mar,

Sou um apátrida, sou uma sanzala de algodão,

Com dentes de marfim…

Sou capim,

Cacimbo,

Embondeiro…

Sou… sou tudo aquilo que nunca quis ser,

Marinheiro,

Paquete, poeta… poeta com as calças na mão!

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

O alicerçado enforcado

Francisco Luís Fontinha 17 Ago 14

Há nesta árvore nua e ensonada,

uma vida sem alma,

um corpo fusco com odor a embriaguez,

há nesta árvore um sorriso,

uma varanda com fotografia para o mar,

o silêncio é contagioso,

doença que invade o alicerçado enforcado...

o homem que inventa tristezas,

o homem que escreve insónias,

há nesta árvore estórias,

madrugadas sem nome,

o homem...

o homem das asas negras,

esperando o regresso da jangada de granito,

ele não resiste,

e insiste...

desenhar na tempestade o infestado grito,

há...

há nesta árvore nua e ensonada,

um poeta em chamas..., um poeta que arde na fogueira...!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 17 de Agosto de 2014

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