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Cachimbo de Água

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Tela invisível

Francisco Luís Fontinha 19 Set 17

Penso em ti,

Pareces um desenho cansado numa tela invisível,

Sofres em silêncio para eu não perceber,

Finges que o mar habita o nosso quintal,

E que está tudo bem…

Claro que não está tudo bem…

O trânsito é infernal dentro dos nossos corações,

As ruas são estreitas, pequeníssimas…

Como as ruas de brincar dos brinquedos das crianças,

Choras,

Choras na escuridão para que eu não perceba…

Mas sabes que eu dou conta de tudo,

Conheço o teu cabelo quebradiço,

Conheço o teu rosto de granito e xisto…

Em direcção ao rio,

Penso em ti…

E não sei o que será de mim sem a tua presença…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 19 de Setembro de 2017

Poema sofrido

Francisco Luís Fontinha 9 Set 17

Uma fotografia para recordar o teu sorriso

Nas manhãs incompreendidas do sofrimento,

Uma lápide onde desenho a tua dor…

Quando amanhece em mim, e, e no infinito vives amargurado,

E sem alimento,

Uma enxada prisioneira no tempo,

Quando aos socalcos regressa o meu corpo cansado…

E vivo ancorado

Neste mundo sem juízo,

 

Alegra-me saber que estás feliz,

E percebes a minha dor…

 

No entardecer do poema sofrido,

 

Uma fotografia,

Cansada da vida,

Uma imagem prateada…

Nas mãos de uma esferográfica,

 

Uma canção esquecida…

Na garganta de uma criança.

 

Não sei o que te dizer!

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 9 de Setembro de 2017

7 de Setembro

Francisco Luís Fontinha 7 Set 17

Tão triste…

As palavras que escrevo

No teu rosto sofrido,

 

Tão triste…

Ser viajante sem regresso

No teu barco perdido.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 7 de Setembro de 2017

Coração de pedra

Francisco Luís Fontinha 27 Ago 17

Todas as torres têm vertigens,

Nos teus olhos brincam as searas encantadas da tarde,

Ultraje, viagem desassossegada ao infinito,

No medo, no cansaço de te perder nos lençóis da dor…

Como uma serpente acorrentada, só, dentro de casa,

O feitiço obscuro das tuas mãos, além o indesejado coração de pedra…

Triste, e frio como a geada,

Suspenso em cada madrugada,

 

A fotografia prateada, esquecida em cima da secretária, os livros enervam-me, e oiço o cantar das personagens antes de nascer o dia,

A morte traz a noite, a noite constrói a dor, e o sofrimento alimenta-se das tuas pálpebras de granito,

 

Serei o teu guardião das noites mal dormidas, o esqueleto de xisto que habita no teu peito, sempre ofegante, sempre engasgado pelo sonâmbulo cacimbo,

E na sanzala há uma esfera límpida de carvão…

Como são todos os cigarros que me acompanham,

Sinto a despedida,

Sinto a partida…

 

Até que um dia nascerá o sol, e tudo são apenas más recordações, papéis velhos e alguns trapos de Inverno,

 

Tudo cessa,

Como cessam as cordas da forca antes do enforcado se despedir da mãe.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 27 de Agosto de 2017

O homem invisível

Francisco Luís Fontinha 26 Ago 17

Dizem que sou o homem invisível,

Sentado numa mesa invisível,

Desenhando na sombra quatro cadeiras invisíveis…

Estou numa esplanada invisível,

Num bar “Mercado” … também ele… invisível,

 

Solto-me das amarras de vento,

Liberto-me das searas perpendiculares ao quadrado da hipotenusa…

Brinco com um velho copo de uísque,

E o invisível homem cresce na praia da areia branca,

Está noite, meu amor,

Tenho nas mãos os três livros invisíveis que me ofereceste pelo Natal…

E sinto que todos os Natais são invisíveis…

 

Tenho saudades do meu pai,

Abraço a minha mãe durante a tempestade, somos fortes, e vamos resistir a este caos invisível…

 

Sabes, meu amor…

 

Nunca poderás beijar este homem invisível,

 

Filho das cavernas,

Homem dos barcos de papel navegando no Oceanos invisível da madrugada risível,

Agacho-me, sento-me no teu colo, meu amor, e tenho medo dos furacões com olhos de serpente, e tenho medo de perder-te neste bar invisível.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 26 de Agosto de 2017

Uma vida em separado

Francisco Luís Fontinha 9 Ago 17

O Diabo no corpo,

O ressequido esquiço da vaidade suspensa na noite,

A dor emagrecida prisioneira ao esqueleto de vidro,

O mar escalfado e esquecido na escuridão,

Barcos argamassados pela tua mão…

Ao deitar, três drageias e uma colher de xarope,

Um copo de uísque voa entre quatro paredes sem janelas,

Visto-me,

Fujo de casa com um livro na mão,

Nunca mais regressarei,

Serei um fugitivo nato, um homem sem casaco, nu…

Em direcção aos rochedos da morte,

Quero esquecer tudo, mas as tuas mãos recordam-me a dor,

E o sofrido corpo,

Domingo, Segunda-feira cá em casa, uma vida em separado, e mergulhado nos papéis da saudade,

Fujo,

Vou-me separar dos livros e dos pincéis,

Queimar todas as telas…

E sentar-me junto à janela…

E esquecer-te.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 9 de Agosto de 2017

Os beijos da alegria

Francisco Luís Fontinha 8 Ago 17

O que eu quero não o sei,

Sei que nada quero,

Sei que nada tenho,

Querer-te assim, perdida no deserto da seda…

O que eu quero, o que eu não queria,

Ter,

Não sofrer…

O dia,

Cansado de viver,

Sinto em ti as palavras da morte,

Mas a morte é indefinida,

Tímida,

E triste,

Não resiste,

Mas existe,

Na palma da tua mão,

O que eu quero…

Queria…

Sentia na face os beijos da alegria,

Finalmente a noite,

Sentida em pleno dia,

Sofrido,

Como sempre…

Em cada luar teu.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 8 de Agosto de 2017

Cidade sonâmbula

Francisco Luís Fontinha 4 Jul 17

Atravesso a cidade amedrontada,

Finjo não existir nas ruas sem saída,

A morte tem o seu encanto,

A partida… o não regressar nunca mais,

Atravesso a cidade sonâmbula que há em mim,

Deito-me no rio…

 

Sofro,

Choro,

 

E dizes-me que amanhã serei apenas poeira envenenada pela saudade,

 

A viagem às catacumbas do sono,

Invento desenhos no teu corpo,

Viajo incessantemente na sombra dos aciprestes…

E toco com a mão a fresca água da tua nascente,

 

Sofro,

Choro…

 

Enquanto houver luar.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 4 de Julho de 2017

Nascer no tempo… no tempo de sofrer

Francisco Luís Fontinha 23 Jun 17

Não vou ter tempo para desenhar o tempo no silêncio da noite teu corpo,

Não vou ter tempo para semear nas tuas cochas o mais belo poema de amor…

Porque não sou poeta,

Porque não sou desenhador,

 

Não vou ter tempo para ver o nosso filho escrever no pavimento térreo do quintal,

Porque nem sequer temos um filho,

Porque nem sequer temos um quintal,

 

Não vou ter tempo para acariciar a chuva miudinha que se entranha no teu cabelo,

Não vou ter tempo para ir à lua e trazer-te um beijo…

Porque sendo astronauta não tenho esse desejo,

 

Não, não vou ter tempo!

 

Não vou ter tempo para te desejar,

Não vou ter tempo para no teu corpo brincar…

E juntos, sem tempo, olharmos o mar,

 

Não vou ter tempo para muito viver,

Já muito vi sem querer…

 

Não, não vou ter tempo!

 

Não vou ter tempo para escrever,

Tempo para amar,

Tempo para ver nascer…

Nascer no tempo… no tempo de sofrer.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 23 de Junho de 2017

A arte de sofrer

Francisco Luís Fontinha 12 Jun 17

Na arte de sofrer,

Quando dentro de mim arde um corpo esquelético, e sem o saber,

Ele ilumina a noite que se cansou de crescer,

 

Tenho nas raízes solares a vontade de partir…

Caminhar naquele rio absorvente

Que engole todos os corações,

Tenho nas mãos o sangue valente

Das marés e dos canhões…

Que me obrigam a sorrir,

 

Na arte de sofrer,

Deixo para ti o prazer…

O prazer de escrever,

 

No prazer de morrer.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 12 de Junho de 2017

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