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Cachimbo de Água

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Âncoras de desassossego

Francisco Luís Fontinha 6 Mai 18

Tinhas nas mãos os ossos enraivecidos da solidão,

Dos teus olhos desciam as palavras que eu escrevo no teu corpo; quando me escondo de ti na madrugada.

Tinhas nas mãos as sangrentas areias do deserto,

Poisavam livros nas tuas coxas, e do Luar regressava a nuvem da lamentação,

Uma lágrima chorada no teu rosto,

A alma desinquieta que atormenta os ventos nocturnos,

Como pequeníssimos papéis perdidos nos teus dedos.

Assim… ao deitar.

 

Sonhava com rugas, pedras e enxadas,

Rasgava a terra bolarenta dos segredos muros de xisto,

E, todas as manhãs, tinhas nas mãos a aurora neblina suspensa na janela do sonho.

 

Tinhas nas mãos a alavanca mecânica, o martelo e a minha dor…

 

Entre as penas dos melros brincando no meu jardim,

A sucata dos dias transformados em madrugada,

E os barcos, lá longe, vomitando âncoras de desassossego.

 

Perdi-me em ti, sabes?

 

Tinhas nas mãos a ânfora caminhada dos trilhos desenhados numa rocha,

Os santos em rebeldia nos altares das capelas,

O silêncio,

As pedras, os sargaços, e outras velharias…

 

Tinhas nas mãos o meu rosto…

 

E nunca percebi a claridade dos teus lábios.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 6 de Maio de 2018

Sinfonia

Francisco Luís Fontinha 5 Mai 18

Sentia-me obtuso com a tua simplicidade dos jardins adormecidos; uma flor poisa ruidosamente no teu rosto. O acordar!

Sentia-me confuso com o silêncio dos teus lábios, flácidos, cansados das minhas pobres mãos,

O sono.

Sentia-me perdido na seara da solidão,

Quando os pássaros escreviam palavras na eira, era Verão, e a candeia perdia-se sobre a mesa do esquecimento,

Me levanto,

E pego no Sol.

Me levanto,

E pego no silêncio que traz o Sol,

Sentia-me uma pomba quando o teu corpo desleixado aterrava no meu olhar,

Uma réstia de alegria,

Uma sinfonia para brincar…

E ouvia desenfreadamente os sons da alvorada.

Como eu queria ser criança…

 

 

 

Alijó, 5 de Maio de 2018

Francisco Luís Fontinha

A morte

Francisco Luís Fontinha 14 Abr 18

Fujam.

Escondam-se na minha mão,

Traguem todos os livros,

Semeiem todas as palavras no meu corpo, rasguem-no, devastem todos os rochedos do medo,

E da solidão.

 

Oiçam-me,

Não finjam que a luz da minha aldeia é fictícia, longínqua… como as pedras do teu olhar,

Na madrugada.

 

Façam de mim uma bola.

O rio quando me chama,

Francisco.

E lá vou eu,

Desço a ravina,

Entrego-me a ele…

 

E morro de tédio.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 14 de Abril de 2018

Na morte

Francisco Luís Fontinha 8 Abr 18

A morte.

Suspensa nas arcadas da solidão,

Composta por partículas invisíveis, cansada das madrugadas sangrentas,

Sem sorte,

O corpo que baloiça na forca da noite embriagada,

Sobre o coração,

Uma espada,

Jangadas de sabão que inocentemente alimentas.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 8 de Abril de 2018

Não, não o quero.

Francisco Luís Fontinha 1 Abr 18

Viver nos teus olhos, não o quero.

Viver embrulhado no poema, não o quero.

Viver vivendo apenas para viver… também não o quero.

Viver saltitando,

Correndo,

Descendo,

Subindo a Calçada da Tristeza, não, não o quero.

Escrever no teu corpo, desenhar nos teus lábios, não, não o quero.

Não o quero.

Pertencer aos livros ardidos.

Trazer-te a Lua, quando a solidão amanhece em ti, e sinto na tua mão o silêncio do desespero.

Não, não o quero.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 1 de Abril de 2018

Hoje, só hoje!

Francisco Luís Fontinha 10 Mar 18

Hoje,

Só hoje,

O teu corpo dilacerado nas montanhas da insónia,

Mergulhado na planície do sofrimento,

Hoje,

Só hoje,

Os teus olhos comendo as lágrimas da madrugada,

Junto ao mar, hoje, só hoje…

Nas palavras de amar,

As tuas mãos enroladas no meu rosto,

Em pedra, frio como a tempestade…

De viver…

Hoje,

Só hoje,

Os barcos em busca da liberdade,

Quando os livros adormecem na tua mão,

E, no teu cabelo, uma andorinha… brinca, e, sofre…

Hoje,

Só hoje,

O teu coração sobre a mesa,

Quente,

Saltitante…

Como as serpentes do amor.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 10 de Março de 2018

É noite

Francisco Luís Fontinha 27 Jan 18

É noite. Todas as correntes de aço que aprisionam os teus cabelos estão suspensas num simples suspiro, oiço as palavras, lá longe, o enigmático silêncio das janelas de vidro, regressa a noite, a cidade arde nas mãos do sem-abrigo, uma nota de cinco euros voa nas esplanadas da solidão,

Tem lume?

Os candeeiros da paixão, emagrecidos, com fome, as ruas desertas antes de acordar a manhã,

Não. Não tenho lume!

As pedras enraivecidas, o ódio dos pilares de areia que abraçam os barcos da madrugada, os poemas famintos no corpo do poeta, está morto, esquelético, e sem palavras…

Lume não tenho. Cigarros não tenho.

É noite.

O chá e as torradas vulcanizadas nas montanhas das crateras ensanguentadas dos rochedos nublados, é noite; e sinto-me completamente colorido com o arco-íris das sílabas entre pássaros e vinhedos, e ao fundo, o magnifico rio da saudade,

Os cigarros,

As esmeraldas na algibeira do sem-abrigo, a barba quase toca no luar, o cheiro nauseabundo das ruelas sem sentido, os automóveis sibilados nos corredores da morte, e nada te desejo.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 27 de Janeiro de 2018

Tardes meninas

Francisco Luís Fontinha 7 Dez 17

Todos os dias são horários perdidos,
Filhos ensonados
Nas lágrimas da madrugada,
Todos os dias são barcos esquecidos
No cais da alvorada,

Todos os dias são pássaros cansados.

Todos os dias são corpos embalsamados,
Corredores ensopados
De tristeza e azedume.

Todos os dias ardem. Todos os dias são lume
Que a lareira consome,
Todos os dias são fome,
Nas tardes de ciúme.

Todos os dias são morte,
Manhãs sem sorte,
Todos os dias são horários perdidos
Nas montanhas assassinas,
Todos os dias, jardins proibidos,
Em tardes meninas.



Francisco Luís Fontinha
Alijó, 7 de Dezembro de 2017

Entre quatro paredes

Francisco Luís Fontinha 25 Nov 17

Entre quatro paredes, tenho o meu esqueleto de granito infestado de lágrimas, e, quando o meu pobre relógio acorda, todas as noites, fujo para as sombreadas ruas da Avenida, pinto as árvores no meu olhar, semeio na lapela as frágeis sementes da morte, sempre que o vento regressa do mar,

A janela do sofrimento rasgada na penumbra madrugada, o silêncio das acácias misturado com os soníferos orgasmos de prata, e esta terra me alimenta das esmolas não recebidas, tenho medo, medo de perder-te no infinito amanhecer, porque nas tuas mãos habitam as flores da despedida, lamento, fico cansado de olhar-te no espelho caduco do meu quatro, e, os livros empilhados junto à madrugada, lamento, que todas as tardes sejam em pedaços de sofrimento, como as jangadas dos pilares de areia da tua voz,

Entre quatro paredes, de vidro, o silêncio amanha, dorme… e morre na alvorada.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 25 de Novembro de 2017

O exilado corpo da paixão

Francisco Luís Fontinha 23 Ago 17

Vivo exilado neste corpo cansado,

Tenho as rugas do desejo estampadas nas mãos calejadas pela velha e imaginária enxada,

Os socalcos lá longe, dormem profundamente na sombra de um rio,

Navego em ti, minha querida, até que regresse a morte e te leve para longe,

Imagino-me sem ti, um grande desassossego, uma longínqua e inerte sentido de não liberdade,

Perdido na cidade, esquecido na paragem do eléctrico, só, sem ninguém…

 

Sei que um dia vamos estar todos juntos… mas isso, mas isso é quando?

 

O rosto cremado na lixeira da paixão,

A sombra enigmática do sorriso ao acordar, distintas portas de saída…

E da rua, o silêncio fumarento dos cigarros envenenados pela tua dor,

 

Vivo,

Sou um exilado da solidão,

Entre pássaros e as abelhas desgovernadas do teu coração,

 

E amanhã será um novo dia, de luta, e da pele incinerada do abismo…

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 23 de Agosto de 2017

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