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Cachimbo de Água

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O homem invisível

Francisco Luís Fontinha 26 Ago 17

Dizem que sou o homem invisível,

Sentado numa mesa invisível,

Desenhando na sombra quatro cadeiras invisíveis…

Estou numa esplanada invisível,

Num bar “Mercado” … também ele… invisível,

 

Solto-me das amarras de vento,

Liberto-me das searas perpendiculares ao quadrado da hipotenusa…

Brinco com um velho copo de uísque,

E o invisível homem cresce na praia da areia branca,

Está noite, meu amor,

Tenho nas mãos os três livros invisíveis que me ofereceste pelo Natal…

E sinto que todos os Natais são invisíveis…

 

Tenho saudades do meu pai,

Abraço a minha mãe durante a tempestade, somos fortes, e vamos resistir a este caos invisível…

 

Sabes, meu amor…

 

Nunca poderás beijar este homem invisível,

 

Filho das cavernas,

Homem dos barcos de papel navegando no Oceanos invisível da madrugada risível,

Agacho-me, sento-me no teu colo, meu amor, e tenho medo dos furacões com olhos de serpente, e tenho medo de perder-te neste bar invisível.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 26 de Agosto de 2017

A tempestade da saudade

Francisco Luís Fontinha 7 Set 16

Os cabelos negros

Poisavam na tempestade da saudade,

Uma rocha adormecia na tua mão

Vinda do longínquo oceano…

Insaciável, indiferente à liberdade

Das cidades ardidas,

Os cabelos negros…

Em réstias de silêncio

Camuflados pela madrugada das sonâmbulas palavras,

Um cigarro abandonado,

Triste como eu…

Sentado nos teus lábios de chocolate,

Ele caminha e sente

O perfume da solidão

E os candeeiros da insónia…

Mas a liberdade… nunca morrerá,

Nem desaparece…

Dos finais de tarde junto ao rio,

Os cabelos negros

Poisavam na tempestade da saudade…

E me diziam que amanhã

Nascerá um poema no teu corpo,

Em revolta,

Na lâmina fina e húmida da felicidade…

Ele morrerá,

Ele morrerá acorrentado ao estrado do sono…

E só acordará…

Nas lágrimas dos cabelos negros.

 

Francisco Luís Fontinha

quarta-feira, 7 de Setembro de 2016

as palavras mortas

Francisco Luís Fontinha 29 Mar 16

as palavras morrem dentro de mim

como carcaças em vozes famintas

saboreando o vento da noite

quando a tempestade se despede da cidade

o sem-abrigo lamenta a sua sorte

e eu confesso-me culpado

porque ajudei a matar as palavras…

… as palavras que morrem dentro de mim

 

Francisco Luís Fontinha

terça-feira, 29 de Março de 2016

luminosidade abstracta da noite

Francisco Luís Fontinha 15 Nov 15

a tempestade de silêncios que adormece no meu peito

enquanto tu, meu amor, gritas o meu nome entre os rochedos do inferno

a sombra dos teus lábios

o cansaço das tuas mãos

me adormecem

e me fazem fugir para a montanha imaginária

a fuga

a tempestade de silêncios que há em ti

e só agora percebi

a luminosidade do teu olhar

quando não cresce a noite

na minha solidão

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

domingo, 15 de Novembro de 2015

Sonhar

Francisco Luís Fontinha 21 Out 15

Perdido neste sótão da saudade

Misturado nos sonhos que fervilham nas palavras inventadas

Perdido neste cubículo sonolento

Das catacumbas madrugadas

Abraçado ao vento

Sem lamento

Quando lá fora há um rio em lágrimas

Que me procura

Com ternura

E esquecendo a vaidade

Perdido neste inferno sem morada

Este sótão… este sótão que se esconde na alvorada,

 

Este sótão cansado

Como um esqueleto de húmus invisível na tempestade

Perdido, eu, nesse teu coração de migalhas

Sofrendo porque vivendo sofrendo

Não sei viver

Sofrendo porque vivendo sofrendo

Não sei amar

Escrever

Desenhar

Ser o mar

Dançando ao pôr-do-sol

Sem perceber que estou a sonhar…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 21 de Outubro de 2015

Quarto cinzento

Francisco Luís Fontinha 27 Jul 15

desenho_27-07-2015_2.png

 (desenho de Francisco Luís Fontinha - Alijó / IPO-Porto, 27/07/2015)

 

Vivo imaginando corvos poisados neste quarto cinzento,

Sinto ao longe os barcos em círculos atravessando a tempestade,

Esta cidade morre como morreram todas as flores do meu jardim,

E mesmo assim…

Não me apetece escrever neste lugar sem nome,

Não vejo as estrelas,

Perdi a noite

E os andaimes da escuridão,

Perdi a paixão,

Deixei de ter o rio nas minhas veias,

As calças cresceram,

Pertencem a outro arbusto,

 

E estou aqui… como um rochedo,

Perdido,

Vestido de medo,

 

Sentado numa cadeira invisível.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Porto, 27/07/2015

Coisas & Coisas

Francisco Luís Fontinha 16 Abr 15

Radiografia de orgasmos

Acompanhando os ossos do sofrimento

Descem à tua mão os lábios

Que o beijo pintado

Nas veias do vento

Escreve na caneta de tinta permanente

As palavras

As palavras que não consigo dizer

Porque a minha boca

É uma prisão

Em sabão

Sem nunca ter regressado

 

Às coxas

Tuas pinceladas coxas

Meu amor

Ou não meu amor

Tanto faz

Na minha idade

Ser amado

Amar

Ou… um palhaço pintado

No olhar da serpente de ferro

Nas sombras de Lisboa

Meu amor

 

Ou não meu amor

Amo

- A mim?

Amo Lisboa e o seu rio

Os marinheiros embriagados pelo fado nocturno do silêncio

A morte da guitarra

Meu amor

Ou não meu amor

Eu

Perdido

Numa estrada curvilínea

Assassina nas horas vagas

 

Faz uns bicos

Gama umas carteiras vazias

E foge

Leva os filhos e os não filhos

Leva as sebentas

Recomeça o curso

Uma treta

Comparando um curso

Com… com a tua letra

Das cartas rejeitadas

Meu amor

Ou não meu amor

 

A música cansada das tardes de Domingo

A fotografia da Igreja junto à lareira

Ouvia o sino enquanto lia no quarto

Três da madrugada

Tu à janela desenhando cigarros na fome melancólica da paixão dos pássaros e dos peixes desta ilha funda e deserta, coitados dos homens apaixonados, compram livros, vestem as personagens de noite

E

Engate

O automóvel alicerça-se ao asfalto do prazer

Lá dentro

Gemem poemas

E engate

Às três da tarde

 

Consultório

A clínica esperando o engatado

Uma coisa simples

Bom homem, culto, esbelto… e… uma coisa simples

A liberdade de amar

A liberdade de ser amado

Ou

O engate

Odiado

Como as candeias da prisão de Caxias…

E coisas

Coisas de coisas.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 16 de Abril de 2015

morte envergonhada

Francisco Luís Fontinha 1 Mar 15

Acrílico 40x40.jpg

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

não inventes nomes

detesto nomes

ruas

e cidades

das palavras

os orgasmos sentidos

dos livros

as palavras dos orgasmos sentidos...

o silêncio

a morte envergonhada

à minha porta

sem prazer

 

crescer

voar sobre os telhados desanimados

tristes

e... e cansados

não inventes nomes

moradas

idade

sexo

para quê?

quando há na madrugada uma mistura gasosa de sílabas e vogais enlouquecidas

fumadas

e... e sentidas

 

as palavras

que inventas

e comes

em cada alvorada sofrida...

não inventes imagens de verniz

que a chuva absorve

em cada tempestade

trazida

por um homem

louco

ou... partida

ou apátrida loucura do homem em cada tempestade... trazida.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 1 de Março de 2015

 

Porta de entrada

Francisco Luís Fontinha 21 Dez 14

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

Esta porta

morta

infeliz aquele que deseja entrar

e a sombra o acorrenta

aos velhos telhados de cartão

esta porta

sem acesso ao coração

em vidro

de pedra

o xisto desfeito em lágrimas de papel...

e há sempre um corpo esperando pelo regresso da tempestade

sem vaidade,

sem... sem amizade

esta porta encerrada para obras de restauro

lapidações em trinta e seis prestações...

a vida se perde neste labirinto de palavras

e madeira apodrecida

esta porta

sem entrada para o casebre da mendicidade

e elas em guerra por um punhado de areia

ou... ou por um poema em decomposição

os braços achatados

e sobre os ombros... a fugitivo da madrugada...

de cidade em cidade... de corpo em corpo... de nada em nada.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 21 de Dezembro de 2014

Insígnia da paixão

Francisco Luís Fontinha 22 Nov 14

Queimaste a insígnia da paixão no sonífero adeus da tempestade,

dormes profundamente só...

e te alimentas das insignificantes metáforas da saudade,

trazes nas lágrimas uma canção por escrever,

um poema se ergue na tua mão,

e sem o saberes...

habitas na calandra encaixotada do sofrimento,

não sei se algum dia serei teu,

não sei... não sei se lá fora há sol ou escuridão,

se é dia,

noite...

ou... uma mistura de tons com odor a infância,

um barco encalha nos teus seios,

transpiras... gemes as sílabas do prazer,

esperas pelo nascer da madrugada,

quando hoje não haverá madrugada,

quando hoje... não acontecerá nada...

se é dia,

noite...

ou... ou um pincel disparado pela espingarda da solidão,

e se entranha no teu sorriso...

e no entanto,

queimaste a insígnia da paixão,

como quem apaga um cigarro depois de te amar.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 22 de Novembro de 2014

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