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Cachimbo de Água

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Palavras sós

Francisco Luís Fontinha 12 Ago 17

Palavras!

Enigmas suspensos na madrugada,

O farol avariado, os barcos cerram os olhos, e escondem-se na neblina,

Palavras a arder,

Palavras escritas no fogo da paixão,

Quando a saudade morre devagarinho…

Os poemas despem-se das palavras,

Os livros adormecem sem os poemas,

E o papel amarrotado da tua pele… sedução encantada,

Palavras!

Tristes versos abraçados a tristes noites de Verão,

Sentidos pêsames, a partida para o outro lado do Universo,

E as estrelas amarguradas em fuga para o Infinito,

Verbo,

Os latidos desorganizados dos teus gemidos… quando o rio se suicida nos rochedos,

Em transe,

A ausência delas quando eu sentado espero pela alegria,

Ressequida,

Mortas todas,

As pedras que te atiro…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 12 de Agosto de 2017

Vício

Francisco Luís Fontinha 16 Dez 14

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

há versos felizes

versos sem nome

há versos cansados

versos esfomeados quando cai a noite

há versos esqueléticos

que nem o corpo em decomposição sabe ler

versos com fome

versos vestidos de rio

cidade

e paixão

há versos desempregados

versos enlatados

(nesta cidade em combustão)

há versos conservados em papel sibilado

versos rasgados

versos…

(nesta cidade em combustão)

há versos felizes

versos sem nome

há versos cansados

que nem o tempo consegue apagar

versos de amar

revolta

versos travestidos de soldado

de espingarda na mão

à espera que se abra uma porta

às vezes sem saída

às vezes… versos em vão…

que só o vício desembrulha quando nasce a madrugada.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 16 de Dezembro de 2014

Estes versos e ossos

Francisco Luís Fontinha 1 Nov 14

Tristes versos

estes

barcos esfarrapados que se afundam nos teus olhos

carcaças de ossos

gente aos molhos...

tristes versos dos mendigos sem solução

habitantes de uma cidade em alvoroço

dia sem almoço

carcaças

ventos e marés em confusão

estes

versos

sem nome

estes

estes barcos enferrujados lapidando calçadas e transversais loucas

mulheres cansadas

mulheres acariciando a madrugada

tristes

versos

os corpos em migalhas

em direcção ao rio da amargura

tristes

tristes tardes de literatura

que alimentam os mendigos sem solução

estes

versos

e ossos

este vazio dentro do meu peito incendiado

embriagados livros cambaleando na atmosfera

os círculos do coração... em espera

estes nomes

versos

e crianças...

procurando as árvores da infância

tanto medo... meu Deus...

medo da esperança.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 1 de Novembro de 2014

A estrada

Francisco Luís Fontinha 11 Fev 14

foto de: A&M ART and Photos

 

As dízimas lâmpadas da paixão dançando nas ruas húmidas do silêncio,

um verso que chora, triste, adormece,

um verso cansado da noite, sonha, foge...

as dízimas lâmpadas..., sentem-se nos longínquos livros com desenhos para pintar,

e tu criança, e eu menino,

sós esperando o regresso da velha estrada...

 

 

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 11 de Fevereiro de 2014

cerejas

Francisco Luís Fontinha 18 Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

não oiço a tua voz desde que terminaram as manhãs de orvalho

abríamos a janela do sonho

e víamos as acrobacias tontas dos pássaros embriagados pelas nuvens de cerâmica encarnada

havia na nossa mão pedaços de desejo

beijos

e réstias dentadas no teu pescoço deliciosamente belo e doce

como as cerejas

não oiço a tua voz fotocopiada desde que percebi ser um ultraleve magoado

uma jangada envidraçada

uma porta mal fechada

não te oiço desde que tínhamos pequenos sons melódicos em vasos de cristal

e brincávamos como crianças à volta de uma lareira esfomeada

 

dizíamos que o Sol era nosso depois de fazermos amor debaixo do candeeiro abandonado

beijos

como as cerejas

os vidros

e as paredes

caquécticas

e às vezes

lá tínhamos de correr em direcção ao mar

 

versos ancorados

quando no cais de desembarque o murcho sexo do marinheiro escapulia-se pelas frestas da madrugada doentia

em cio

corríamos como loucos vestidos de versos

e palavras sobrepostas como posições de embarque

fodíamos sem saber que o fazíamos

em cio

versos camuflados depois das tempestades de areia

tombarem sobre o teu corpo húmido de alvorada

e beijos

e caquécticas amêndoas brilhavam no teu púbis de Segunda-feira à noite...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 18 de Novembro de 2013

mulher desalmada

Francisco Luís Fontinha 26 Out 13

foto de: A&M ART and Photos

 

palavras sem rosto

quando sorrisos poucos

habitam no cansaço do transeunte doente

palavras sem gosto

que os barcos loucos

escrevem no caderno infame

sobre as algas de Agosto

palavras em fome

palavras sem nome

que as lágrimas do livro ausente

voam sobre a cidade dos candeeiros de papel

palavras sem nome

palavras que a morte come

e uma límpida gota de suor alimenta

como espelhos esmigalhados pelo pincel

que o pinto inventa

numa tela

numa parede

em gesso

o berço

da criança com sede

palavras sem rosto

palavras de orvalho e palavras do … e palavras nos lábios dela

dos versos verdes das plantas apaixonadas

palavras cansadas

esbeltas

tristes

magoadas

palavras sem rosto

sem gosto

sem madrugada

quando a noite é a noite drogada

palavras

palavras

palavras... de uma mulher desalmada...

 

 

(não revisto9

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 26 de Outubro de 2013

Veneno

Francisco Luís Fontinha 13 Jul 13

foto: A&M ART and Photos

 

salivas-me às gotículas meninas da árvore da tempestade

sabia-te mergulhada nas fantasias mistas dos vidros das portas ensonadas

como mentiras envenenadas

pelos fotões invisíveis da pele sílaba que rompem dos teus grossos lábios

de simples tiras finas de cascatas em vibração até terminarem no rio do desejo criança...

envenenas-me com o teu olhar mesmo sabendo eu que sou uma pedra

uma rocha mingua nua e contígua à claridade da cidade adormecida

e dos livros de chocolate adivinham-se-me tentáculos de silício entre raízes nocturnas,

 

Ruas com cérebro de teias de aranha

“putas” descabidas nas profundidades da carne apodrecida

velhos rezando o terço enquanto uma flor se masturba nos infinitos versos sem sentido

porque diz-se hoje aquilo que amanhã deixa de existir

escrevem-se palavras vindo depois desdizer-se como não escritas

e os olhos testemunham os silêncios do pedestal

onde habitas como estátua

e choras porque hoje é sábado e todos as horas morrem depois da tarde entrar em ti,

 

Os teus orgasmos descem da lisa pele de uma imagem a preto-e-branco

como ontem dizias-me que a loucura entrava-nos depois de rolarmos calçada abaixo

e o Tejo abraçava-nos e o Tejo ouvia-nos na escuridão dos veleiros ensanguentados

a enrolarmos charros de areia e sentávamos-nos sobre as pernas de um vulto à procura

de pálpebras e corações apaixonados...

um petroleiro entrava em ti e de mim... e de mim fios de sémen suicidando-se

na árvore da insónia

como panos de chita à volta das tuas coxas de menina perdida no rio da noite...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

foto: A&M ART and Photos

 

Acreditava que voavam os pássaros

como voavam as tuas mãos nas janelas do meu peito

fingia-me de morto

apenas para perceber a cor das tuas lágrimas

acreditava que voavam as flores

como voavam os teus lábios nos meus lábios

acreditar

acreditando que as noites são pedacinhos de pano

com beijos em papel...

acreditava que voavam seios teus

em minhas mãos de sílaba adormecida

eu, eu acreditava,

 

Acreditando

acreditar que todas as manhãs acordavam as minha antigas sandálias em couro

esquecidas debaixo das mangueiras

acreditava que dormias em pé e te enrolavas no cacimbo

acreditava que voavam os pássaros

como voavam as tuas coxas sobre o trapézio da madrugada...

 

acreditar eu acreditava

mas não te amo como amo o voo dos pássaros

mas não te amo como amo as minhas pobres sandálias em couro

acreditava que voando como os pássaros

eu poderia voar como o amor sobre o mar ao cair a noite

acreditava que vias nas minhas palavras as fotografias de ontem

enquanto brincávamos sobre as bananeiras do teu quintal...

acreditava que voavam os pássaros

como voavam as palavras em versos esfomeados

distorcidos

infelizes como eu por acreditar nos pássaros voando não voando como nós

eu, eu acreditava.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Das palavras não escritas

Francisco Luís Fontinha 29 Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Sentia as tuas mãos a sufocarem-me das palavras não escritas

promessas incompreendidas quando havia uma manhã de desejo

correndo encosta abaixo

afogando-se nas veias submersas em saliva que escondiam sombras do meu pobre esqueleto

ossos e pó deles envenenados pelas imagens a preto-e-branco dos meus lábios descoloridos,

 

Amargos

sofridos quando sabíamos que era o último reencontro após a partida em direcção ao nada

sabíamos e não o confidenciamos a ninguém

apenas trocávamos verdes olhares de verdes olhos

em frente à inocência saudade,

 

Sentia a tuas mãos de xisto

vagueando no meu corpo de árvore em papel paixão

poisavam pássaros em ti

e ouviam-se as tuas dolorosas canções de amor

caminhando sobre a praia-mar...

 

Uma floresta de carnívoras madrugadas acordava dentro de nós

quando abrias os olhos e sabias que já tinha partido

descia a janela com vista para as rochas mergulhadas no mar...

e procurava da noite dispersos gemidos de ti

que eu pensava serem versos nas folhas mortas do poeta,

 

O livro escrevia-se conforme se extinguiam as luzes dos nossos gemidos

formatávamos os nossos discos rígidos até percebermos que já não éramos nós

eu deixei de saber quem eras

e tu, tu percebias que eu não passava de um mero cortinado de areia

a brincar numa rua de Luanda...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

As cinco torres de neblina

Francisco Luís Fontinha 26 Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Embebida nas drogas sintéticas do desejo

há palavras que brotam em teus alicerçados lábios de amanhecer

como pedaços de papel suspensos de um velho livro de poemas

há uma cadeira vazia onde te sentavas

e deixaram de existir os gemidos gonzos perdidos de ti,

 

Saboreando eu as ditas embebidas na tua doce boca

ou quando acorda o botão de rosa

e sabes que vem do espelho cinzento o vento que te enlaça

e enrola nos cordões de aço

sobre o rio em delírios nocturnos,

 

Abres as janelas das cinco torres de neblina

que sobejaram da alegre tempestade de alento

sabes que parti porque sou como as gaivotas

voando de mastro em mastro

em busca de alimento,

 

Sou

sou um falso carvão filho de um medíocre carvoeiro

que corre as ruelas da cidade numa bicicleta antiquada

não estou habituado a alimentar-me como as pessoas normais

talvez porque eu não seja humano… talvez porque eu sou um normal carvão,

 

Sem coração

profano

embebida nas drogas sintéticas do desejo

ela a Rainha das madrugadas em poesia

saltando de vez em quando os tristes muros da insónia...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

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