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Cachimbo de Água

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O feitiço da madrugada

Francisco Luís Fontinha 17 Jul 17

Há-de crescer no teu peito a saudade,

O lívido Oceano vergado à tua sombra longínqua…

Que brinca nas minhas mãos,

Um dia regressará a mim a tua sonolência em forma de deserto,

As árvores do teu passado são hoje páginas argamassadas de poesia,

Livros dispersos sobre o mar,

Escondo-me de ti,

Tenho medo que digas que envelheci…

E que o rio deixou de respirar,

Há-de crescer no teu peito o feitiço da madrugada,

As correntes que me prenderão aos socalcos inanimados…

A máscara espelhada nos lírios da insónia,

Fragrância perceptível nas andanças tuas pernas subindo o Chiado…

E, eu sentado na penumbra disfarçado de sem-abrigo…

Cuidado,

Stop,

Amanhã aparecerás em frente ao espelho,

Triste,

Tão triste meu amor…

Pertencer a estes livros estacionados na berma da morte.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 17 de Julho de 2017

Palavras que me encantam

Francisco Luís Fontinha 16 Jul 17

São as tuas palavras que me encantam,

São os teus livros que habitam em mim a razão de viver,

Caminhar junto ao rio…

Galgar os socalcos do querer…

São as tuas palavras que me encantam,

Durante a manhã,

À tarde…

De noite,

Palavras, tristes as tuas palavras…

Na planície do silêncio,

São as tuas palavras que me encantam,

E desalojam…

Deste cubículo de lata,

Onde durmo,

Vivo…

E morro.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 16 de Julho de 2017

Palavras indigestas

Francisco Luís Fontinha 15 Jul 17

Ela,

Disfarçada de mar a entrar pela janela,

Ela,

Disfarçada de Pôr-do-sol antes do anoitecer,

Enganador sentimento de dor…

E ela,

Nas cansadas fileiras da sonolência,

Ignóbil projecto convertido ao silêncio,

À janela,

Ela,

Disfarçada de cortinado,

Verdejante,

Humilhante alimentares-te das minhas palavras indigestas,

Gastas…

Gastas como ardósias de papel.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 15 de Julho de 2017

Lágrimas tuas palavras minhas

Francisco Luís Fontinha 14 Jul 17

Todas as minhas palavras são lágrimas tuas,

Nuas cancelas sobrevoando o Oceano,

Os barcos cansados e a remo…

Prisioneiros no teu cabelo ao vento,

Sofro, sofro e alimento

Estes carris do pensamento,

Todas as minhas palavras são lágrimas tuas,

Duas pontes absorvendo o rio da dor,

Uma pequena flor,

Um grande amor…

 

Nas janelas doiradas do sofrimento.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 14 de Julho de 2017

O capim da saudade

Francisco Luís Fontinha 11 Jul 17

A casa descalça no sombrio destino da pele camuflada pelo capim da saudade,

O cacimbo poisa docemente no teu sorriso, como uma gaivota de vento enrolada na árvore da solidão,

Foge de mim e abraça-se à liberdade…

Até que a noite se veste de negro…. E no chão

Queimado pelo suor do teu cabelo, levita na imensidão do Universo…

Escrevo-te este pobre verso,

Sem saber se saberás ler,

Ou escrever,

 

Um tentáculo de papel absorve-te na ribeira da montanha adormecida,

Sinto o levante amante que sou nas tuas lágrimas,

Como uma pedra ressequida…

Do velho xisto exposto ao Sol da manhã embainhada na espada da serpente envenenada pelo silêncio,

E dou-me conta que sou apenas eu neste inferno…

 

Viver é passar os dias aqui sentado a olhar o mar suicidado numa tarde de Verão,

Viver é passear-me com o teu caderno debaixo do braço esquerdo,

Onde guardo a tua carta de despedida…

E o teu pedido de partir,

 

E a fuga é uma miragem com vista para o mar…

 

Assombrado,

 

Reconheço que da tua ausência nasceu um poema parvo,

Tão parvo que tenho vergonha de o transcrever para o papel…

 

Encerro docemente o caderno na minha mão e escondo-me de ti.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 11 de Julho de 2017

Sonho desmiolado

Francisco Luís Fontinha 9 Jul 17

Onde adormece o corpo que desapareceu na madrugada!

Estou aqui,

Sentado à lareira,

Estou aqui escrevendo palavras para queimar na lareira…

Antes de adormecer,

Estou aqui,

Esperando que regresse o sonho da clandestina noite sem escuridão,

Aqui…

Aqui me encontras, todos os dias, e todas as noites,

Perdi o barco da infância,

Perdi a terra húmida de quando criança,

Aqui,

Aqui me encontro, à tua espera, sonho desmiolado,

Aqui sentado,

Aqui me encontras,

Sonolento dia sem alvorada,

Estou aqui,

Todos os dias, e todas as horas,

Aqui me encontras, aqui me encontras antes de morrer,

Todos os dias,

Todas as noites…

A todas as horas.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 9 de Julho de 2017

O homem suicidado (IV)

Francisco Luís Fontinha 8 Jul 17

Uma caneta cravada no peito,

Jorram palavras amargas das veias do poeta,

O homem suicidado deita-se no chão firme junto ao mar…

Uma árvore cintila no vento invisível da noite,

A morte,

O homem suicidado sorri das flores sobre o seu corpo,

A cada dia, uma amoreira dorme,

Sonha…

Inventa desenhos no silêncio da escuridão,

A viagem renasce ao nascer do Sol,

A aventura de galgar os rochedos da solidão,

Adormecidos os corpos nos fósforos da miséria…

O poema grita,

Chora…

Uma caneta cravada no peito do artista,

O fim aproxima-se enquanto lá fora uma criança brinca…

E chora,

O poeta grita…

E morre na tua mão.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 8 de Julho de 2017

Cidade sonâmbula

Francisco Luís Fontinha 4 Jul 17

Atravesso a cidade amedrontada,

Finjo não existir nas ruas sem saída,

A morte tem o seu encanto,

A partida… o não regressar nunca mais,

Atravesso a cidade sonâmbula que há em mim,

Deito-me no rio…

 

Sofro,

Choro,

 

E dizes-me que amanhã serei apenas poeira envenenada pela saudade,

 

A viagem às catacumbas do sono,

Invento desenhos no teu corpo,

Viajo incessantemente na sombra dos aciprestes…

E toco com a mão a fresca água da tua nascente,

 

Sofro,

Choro…

 

Enquanto houver luar.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 4 de Julho de 2017

O homem do mar

Francisco Luís Fontinha 1 Jul 17

Sentas-te no meu colo como dois pilares de areia envenenados pelo silêncio,

 

Oiço a tua respiração romper a manhã,

Ainda o sol não acordou,

Pego na tua mão,

Desfeita de aventuras,

E ternuras,

Que o tempo levou…

 

E perdeu no chão,

A chave do teu coração,

 

Sentas-te na minha sombra, menina do teu olhar,

 

Desfeito em lágrimas o amanhecer ausente,

Duas portas sem saída,

Nesta cidade perdida…

Perdida que não sente,

 

Porque te sentas,

Em mim,

 

Todos os dias loucos sem madrugada,

 

Oiço a tua voz pergaminho,

Perdida na brancura da razão,

Estou só, e sou um ninho…

Um ninho na solidão,

 

Sentas-te em mim,

 

Um homem construído de mar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 1 de Julho de 2017

Viver

Francisco Luís Fontinha 30 Jun 17

Que sobre o amor nada tenho a dizer,
Saboreio a vida com prazer,
Todos os dias ao acordar,
Danço, escrevo e consigo navegar
Nos teus braços de manteiga,
Aceito,
Amo,
Percorro caminhos obscuros da maternidade…
Tenho em mim a saudade,
Da verdade,
Da sabedoria de nada saber…
A não ser…
Que a morte existe,
Persiste…
Persiste em me atormentar,
Navego no teu colo nascer do sol,
Quando o tempo se esquece de mim,
Tenho o teu jardim,
Desenhado,
Desenhado num caderninho…
Num caderninho dentro de mim,
Que sobre o amor nada tenho a escrever,
A não ser,
Viver.


Francisco Luís Fontinha

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