Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

09
Jun 11

Chego a casa e os móveis enferrujados, escondidos por panos envelhecidos no tempo, o cheiro a mofo cansado e aflito pela minha ausência, enrolo o pano que cobre o sofá, atiro-o indiscretamente e vai cair precisamente sobre as cinzas da lareira, e há quantos anos as cinzas aqui, suspirando dia e noite pela minha sombra, sento-me no sofá e dou-me conta do regresso, uma mola partida e o rabo encaixado no escuro, os meus ossos envelheceram e o jardim coberto de vegetação, silvas, tojos, ervas…, irreconhecível.

 

- Há quantos anos eu fora, há quantos anos eu distante, perdido, esquecido,

 

As portadas das janelas recusam-se a abrir, de braços cruzados olham-me, e porque me olham elas, estarei assim tão diferente?

 

- Há ratazanas cá em casa, penso eu, pedacinhos de papel mastigado junto ao rodapé, e os livros já eram, evaporaram-se como gaivotas junto ao mar,

 

Nada me resta, meia dúzia de destroços e enferrujados. Experimento abrir delicadamente a torneira do lavatório, queixa-se do reumático e cospe fios de lama, que grande merda a minha vida…

 

Batem à porta, ainda agora regressei e já uma velha alcoviteira vem verificar com os próprios olhos a minha miséria, as notícias correm rápido, e agora com estas geringonças da internet, com estas coisas da internet é num instante que vêm até nós, só pode ser a vizinha, a velha Adosinda, e recordo-me de a ver na cama, e eu em passinhos de lã ia até ela, dava-lhe um beijo e ela, ela com cinco coroas para comprar rebuçados, há quantos anos tia Adosinda,

 

- Meia dúzia de destroços e ainda nem consegui abrir as pestanas da casa, a luz foi aos poucos fugindo conforme os meses passavam e ninguém, ninguém para pagar a conta,

 

E saia da escola apressado, corria pelos quelhos em direcção a casa e ela sentada numa cadeira, os cabelos brancos, e na escuridão do quarto via uma auréola sobre a cabeça dela, são os anos meu filho, são os anos, buracos no soalho, nuvens no tecto e nas paredes, das paredes via sorrisos,

 

- Há ratazanas cá em casa,

 

Abro a porta e a velha Adosinda a olhar-me, de cima a baixo, do lado direito ao lado esquerdo, e, e meu filho, como tens esse cabelo e essa barba, estás velho, são os anos tia, são os anos,

 

- Sinto as ratazanas no forro da casa,

 

Chego a casa e os móveis enferrujados, escondidos por panos envelhecidos no tempo, o cheiro a mofo cansado e aflito pela minha ausência, enrolo o pano que cobre o sofá, puxo de um cigarro e aos poucos o cigarro treme nos meus dedos, da rua vem até mim o choro de uma criança, e imagino, imagino como tudo seria mais fácil se eu tivesse regressado mais cedo e não envelhecesse como uma oliveira cheia de feridas no peito,

 

- Há ratazanas cá em casa, a tia Adosinda abraça-me e deixa-me um beijo na face recheada de pêlos, abre-me silenciosamente a mão e coloca cinco coroas, diz ela, é para comprares rebuçados…

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

9 de Junho de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:37

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