Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

19
Jun 11

O silêncio poisa em mim.

Despeço-me da tarde como se fosse um meteoro em movimento, a saliva em pequeníssimas gotas de saudade alimentam-lhe os lábios confusos, e numa árvore inerte sorriem-lhe os seios empapados nas mãos da menina que brinca junto ao mar,

Saberá Deus o que está a fazer.

O silêncio bate à porta, a mulher abre-a, e quando percebe que é o silêncio, os lábios dele em mordidelas nos cigarros imaginários, na lareira extinguem-se livros, e aos poucos, em quase nada, as palavras sobem a chaminé e em direcção às nuvens, pelo caminho, pelo caminho as sílabas em abraços, a mulher deita-se na cama e faz amor com o silêncio, ele indiferente, e a olhar os livros em cinzas, os gemidos da mulher sobre o silêncio,

Como me excito enquanto escrevo.

Os seios empapados nas mãos da menina que brinca junto ao mar, e ontem o mar no meu quintal, e hoje quando abri a janela, já não mar, hoje abri a janela e uma interminável imensidão de lágrimas, pedras e fraguedos, algas penduradas nos cortinados das janelas, e o cheiro intenso a gaivotas mortas, o cheiro intenso a sexo que do primeiro andar desce as escadas silenciosamente, a mulher enrola-se nas paredes do quarto e no silêncio alicerça a cabeça,

Tenho medo da noite.

Ele perde-se nas labaredas que consomem todos os livros e todas as palavras, do quarto deixa de ouvir os gemidos da mulher, tira os óculos e poisa-os sobre a mesa, senta-se no chão frio de mármore, cruza as pernas, deita-se, abre os olhos e junto à lâmpada incandescente, Deus que escreve no gesso lastimoso do tecto,

Isto não faz sentido; nascer, viver e morrer, porquê?

A mulher dorme profundamente sobre a cama amarrotada de desejo, nas coxas as brilhantes pétalas de suor, olha-a e da janela vê o mar que regressa ao quintal, as algas saltitam dos cortinados e as gaivotas aos poucos ressuscitam, Deus deixa o tecto rancoroso do rés-do-chão e sai pela porta em direcção à água, e esconde-se na crista das ondas, a espuma em sémen que galga as árvores, e ela aos gritos,

Vim-me.

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

19 de Junho de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:43

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