Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

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Jun 11

A incandescente madrugada,

No silêncio do precipício grãozinhos de areia tombam para o mar, o corpo inerte balança, o vento empurra-o, uma mão que o puxa, cai não cai, suspende-se nos lábios das ondas contra as rochas, na cozinha o cheiro a peixe frito, a loiça infestada de côdeas que emergem da luz diáfana da lareira, nos azulejos as sombras de sangue do matadouro, bovinos de um lado, suínos do outro, as manhãs que rompem-lhe no pulso o horário das 4 horas e levantar, cabeça de fora, a cama distancia-se dos lençóis e encalha nos candeeiros da rua, e nos olhos as teias de aranha nas poucas horas de sono,

- Ela e ela acariciam as pétalas nuas do desejo, amo-te Marta, também eu te amo muito Joana, os púbis beijam-se debaixo dos lençóis impressos com pedacinhos de nuvem, na pele o orvalho cintilante de uma mão alicerçada nos seios da montanha, o rio brota silêncios, lágrimas de cansaço que os olhos sacodem contra a mesinha de cabeceira, e os corpos misturam-se na neblina,

Os seios brincam no recreio da escola,

As minhas palavras censuradas nos teus lábios de amêndoa, o lápis azul comendo sílabas ao pequeno-almoço, as torradas servidas com poemas em listras e no sol o sorriso das flores que se beijam,

- Os seios separados pela ténue luz que entra pela janela, o tecto argamassado com estrelas finge não as ver, cerra os olhos, ela e ela, ela e ela de mão dada caminhando pela praia, a areia evapora-se nos tornozelos e corre para a maré, dos abraços os lábios colam-se na crista das ondas, cai a noite e no quarto o vento que as empurra mar adentro, saltitam na garganta do mar, e suspiros milimétricos deitam-se sobre os cigarros que o fumo desperta,

Ouvem-se vozes que murmuram na noite,

Quero lá saber dos grãozinhos de areia. Se tombam, se não tombam, quero lá saber do mar, do outro lado do rio um petroleiro engasgado no Tejo, Belém fica às escuras, e na confusão da feira de velharias, vou amar-te sempre, o jardim testemunha, ela mentiu, nos livros amarelecidos pelo mofo dos anos ele deixa cair os olhos, ela distancia-se e desaparece na manhã do rio,

- Ela e ela entrelaçam as mãos, unem as cabecinhas no travesseiro do sonho, dorme bem meu amor, sim, tu também, bons sonhos,

O relógio desliga-se da noite,

Desaparece na manhã do rio como todos os barcos desaparecem no rio, o rio engole-os e na garganta do mar um veleiro enrolado nas velas, o vento dorme na pela húmida de ela e ela, e ela e ela esperam pela manhã que entrará pela janela,

- Bom dia meu amor, bom dia amor,

Amo-te. Também te amo muito meu amor.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:11

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