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Cachimbo de Água

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A ardósia da tarde

Francisco Luís Fontinha 23 Jun 11

A ardósia encostada aos calções da tarde,

Francisco de Francisco, inventa letras na sombra das amoreiras, desenha pássaros dentro da cabeça, e pendura nos cabelos pedacinhos de estrelas, pedacinhos de pequeníssimas gotinhas de água, chamam-me da rua, Francisco de Francisco, olho, e sinto o cheiro dos peixes estacionados, Madalena acena-me e sorri-me, há quanto tempo Francisco,

- Há quanto tempo vagueio pelas sombras da cidade, há quanto tempo trago em mim o cheiro da saudade, há quanto tempo, quando o pinheiro ranhoso do recreio da escola me dava comichão, e eu fazia-lhe festas com a mão, há quanto tempo não me sento junto ao rio e olho os barcos emagrecidos nas tarde de Belém,

Sorriem-me,

Os comboios de passo apressado rumo a Cascais, o cão da senhora idosa faz chichi no candeeiro de parede, engordam as sombras dos veleiros em Algés, mingua o vento que desce a Calçada da Ajuda, ele baixa o vidro do automóvel ancorado junto aos Jerónimos e convida-me para irmos dar uma voltinha, e eu pensava, e se te fosses foder seu paneleiro, cinco contos e faço-te um, vamos, esta cidade infestada de ratazanas com cio, desço as escada e o mictório à minha espera, uma cabeça ao meu lado deseja a minha pila, os camaradas do quartel, ontem fui com um, fez-me um broche e ganhei cinco contos e depois, depois ainda lhe fodi os cornos,

- Salva-me, salva-me Madalena desta cidade infestada de ratazanas,

O pôr-do-sol junto ao rio,

Os teus braços pendurados no meu pescoço de menino perdido no cacimbo, as tuas mãos nos meu lábios quando corria no capim e tropeçava numa sombra, deitava-me de barriga para o ar, esperava pelo perfume do teu corpo antes de emergir a madrugada, descobria-te por entre os lençóis amarrotados da noite, o Doutor Jivago de castigo no armário, no corredor dezenas de pilas em fila à espera de escreverem na ardósia as sílabas da cerveja,

- Como consegues viver nesta cidade, Madalena?, as ruas não têm fim, os prédios escondem-se no sorriso das pernas apressadas que caminham no fim da tarde, salva-me Madalena,

O sol extingue-se,

O vinte e oito engasga-se em Cais de Sodré, os enjoos que surpreendem taxistas de perna entrelaçada na minissaia das meninas do Texas, e há quanto tempo,

- Tira-me daqui, Madalena,

Sem tempo,

Há quanto tempo me ausentei de ti minha cidade, há quanto tempo deixei de caminhar nas tuas ruas, e o meu corpo balançando com o peso do vento, tombava junto à Torre de Belém, bebia café na esplanada de Belém e o pires da chávena deitado sobre a água do rio, a chávena suspensa na minha mão e chamava por ti, gritava às gaivotas que me trouxessem a ardósia da tarde, e eu pensava, preciso novamente das palavras que enterrei nos socalcos do Douro, e a manhã parece não ter fim,

- Salva-me…

Fim dentro de mim,

Não respiro, deitado, a caixa de madeira entranha-se nas minhas costas, o sabor amargo do pinho, o crucifixo pendurado numa das tampas olha-me, vestem-me um fato, gravata e sapatos engraxados, e eu resmungo, não quero fato, não quero gravata e não sapatos engraxados, não respiro e dentro de mim flores que abrem os olhos, da terra o peso da matéria, não respiro, a tosse aumenta de volume, as pazadas de terra diminuem, cessam, o meu corpo coberto na ondulação do mar de Luanda,

- Não vieste Madalena,

Descansa em paz.

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