Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

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Jun 11

Percebo que morri

E que aos poucos as minhas palavras

São como folhas de árvore

E vem o vento e vem a chuva

 

E as palavras numa mistura pegajosa

Submergem na manhã melancólica

Percebo que morri

O coração deixa de bombear

 

As sílabas e as vogais

E as minhas veias em colapso

Estoiram como as lâmpadas da noite

Cesso de escrever de olhar o mar

 

E as gaivotas morrem no desespero do cansaço

Quando o cheiro intenso a dor

Se alicerça nas mão de uma criança

E a criança disfarçada de sombra

 

Brinca na rua infestada de ruínas

Cancros de solidão nos corpos amordaçados

Nos braços as nuvens em migalhinhas

No corredor da morte.

 

Peço desesperadamente que matem as minhas palavras

- Façam-me esse favor, não tenham medo!

Porque enquanto nascerem palavras em mim

Percebo que estou vivo,

 

E não me apetece nada absolutamente nada

Caminhar sorrir viver existir…

Matem-me as palavras

Que do resto cuido eu,

 

Percebo que morri

E que aos poucos as minhas palavras

São como folhas de árvore

E vem o vento e vem a chuva

 

E nem o vento e nem a chuva

Conseguem separar-me deste xisto em brasa

Deste rio que engole o meu esqueleto

E que me mantêm vivo

 

Porque escrevo palavras

Palavras que quero deixar de construir

Porque enquanto existirem em mim palavras

O meu corpo não consegue partir…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:36

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