Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

09
Jul 11

Ai senhor

Que fazeis vós

Nesta miserável casa

E semeada de ventos,

 

- Sombras, senhor, sombras,

 

Sem portas nem janelas

Despida no frio da serra

Senhor

Que fazeis debaixo do cobertor,

 

- Nada, senhor, nada,

 

E na parede um crucifixo

Misturado nas frestas

Nos velhos retratos de bolor

Que fazeis senhor,

 

- Ele olha-me, senhor, ele olha-me,

 

O canavial encostado ao rio, senhor, onde dormem corpos cobertos de espuma, silêncios de bruma, animal doméstico, o gato, senhor, as pétalas de rosa que mastiga ao pequeno-almoço, e em seguida, o sabor a alho, a terra misturada na saliva da tarde, o Fénix nos pulsos golpeados das árvores, batem à porta, senhor, carta registada e com aviso de recepção, o lápis suspenso na orelha, e senhor, os cigarros dormentes na mão de uma mulher, as gotinhas de suor que embaciam o fumo e o fumo deixa de ser fumo, então senhor?, o fumo nuvens de desespero, malmequeres adormecidos, raspadinhas no café da esquina, a saudável menstruação dos relógios a pinhas, ai senhor,

 

Ai senhor

As cadeiras e as gravatas

As correntes que amarram as pernas

E porquê senhor,

 

- Para não voares, senhor, para não voares,

 

E as pilhas na garganta da sanita, o vómito, porquê senhor?,

 

- Porque estais embriagado de palavras, senhor, porque estais embriagado de palavras.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:25

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