Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

24
Jul 11

Palavras,

 

- Que nascem em mim e que detesto e acho-as horríveis, inférteis gotinhas de suor do meu cérebro doente e cansado, as palavras, o lixo da minha doença, os resíduos da minha cabeça,

 

O meu desejo, escrever no teu corpo acetinado e projetar as palavras no espelho mágico do teu quarto, abrir a janela e olhar o silêncio do mar, olhar os barcos e fingir que são gaivotas sobre a água e pegar no teu sorriso de concha doirada e pintá-lo da cor do céu, desenhar-lhe estrelas, buracos negros e galáxias, a lua, poisar a lua num dos teus seios e o sol no outro seio, o meu desejo, simples, humedecer as linhas longínquas do papel com a minha mão encardida pela poeira dos dias, e deixar nos teus olhos as nuvens da manhã, e no teu umbigo assinar a tela do teu corpo,

 

Gostas do meu desejo?

 

- Menos Francisco, menos…, um simples abraço é suficiente!, sinto a frase despregar-se dos lábios doces de amêndoa da noite,

 

A saudade imperfeita nas horas cansadas do relógio de pulso, a música melódica dos teus braços quando se suspendem no meu peito, os meus ramos tingidos de desejo, as minhas raízes que vacilam no vento do teu perfume quando sais do banho, a toalha do meu corpo que se enrola no teu corpo, e as letras que escrevi nele começam a incendiar os móveis da tua casa, o fumo em gemidos transparentes, o fumo que se dissipa da tua mão e por detrás da minha cabeça sinto crescer o texto trazido pelo mar,

 

- Menos Francisco, menos,

 

O pôr-do-sol, as amarras despidas na ponta de uma cana de pesca, dobra-se e afoga-se no rio, mistura-se com as algas da tarde, dás-me a mão e caminhamos margem fora sem destino, paramos a meio caminho, e olhamos um para o outro, tu ris-te de mim e da minha figura de parvo, e eu, eu beijo-te a face na despedida da doença, a doença morre, e nós debaixo de uma árvore, toalha de silício sobre a caruma do fim de tarde, o mar de Luanda que nos espreita, e em pedacinhos comemos a doença que deixou de te atormentar, que deixou de te fazer sofrer e chorar,

 

E depois, e depois de a comermos o abraço dos nossos corpos e da tua voz poética emergem as palavras do meu desejo,

 

- Valeu a pena, Francisco, valeu a pena!

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:00

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.


Julho 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9






Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
Posts mais comentados
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO