Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

22
Ago 11

Sim senhor, senhor doutor, perfeitamente, senhor doutor, exatamente, senhor doutor, claro, senhor doutor, fico à espera, senhor doutor,

 

Meio-dia na ilha, as arvores erguem-se e começam a levitar, o farol em intermitências alaranjadas saltitam nos olhos do capitão, o vento e a chuva enrolam-se nos braços da barcaça, rodopia em círculos, e é atirada contra os rochedos,

 

Sim senhor, senhor doutor, e o senhor doutor é que manda, claro, nunca duvidei das suas ordens, e as suas palavras são como um testamento, e se o senhor doutor quiser eu e os rapazes, durante a noite, pregamos uma carga de tareia ao gajo, é só dizer, senhor doutor, e por si faço tudo,

 

A barcaça estilhaçada como a porcelana quando tomba no pavimento, o capitão e os seus homens perdidos na escuridão da noite, e seis sombras em busca da claridade do luar, ouvem-se ais, aqui e ali, no cantinho esquerdo do rochedo, um gritinho de socorro, a expetoração da barcaça a boiar sobre as águas em fúria, um deles tenta deitar-lhe a mão, escorrega e afunda-se, e este já foi, e só faltam cinco,

 

Estou a falar a sério, senhor doutor, eu e os rapazes corremos com o gajo da ilha que nunca mais ouve falar nele, é só dar a ordem, senhor doutor, e não precisa de ser por escrito, as suas palavras, senhor doutor, são linhas de testamento,

 

O outro marinheiro desiste de chegar a terra firme, cruza propositadamente os braços e afunda-se, e alguém aos berros, E só faltam quatro, e dos quatros quer o destino que apenas um sobreviva, e claro, O senhor doutor é que decide, salvamos o capitão?, não, o capitão não, esse miserável falou sempre mal de mim, Afunde-se o capitão!, e o capitão ao fundo, e agora, senhor doutor, só temos três, o cozinheiro Malaquias, o feiticeiro do Francisco e o lambe botas do Pinguim…, o doutor pensa, o doutor pensa, e diz ao seu fiel imediato, Afundem o cozinheiro e o feiticeiro, icem o lambe botas… sempre nos dá algum jeito!,

 

Acordo manhã cedo, o dia ainda de pálpebras cerradas, puxo de um cigarro, o cigarro acende-se e apaga-se, acende-se, guardo o isqueiro no bolso da camisa, os cigarros e o isqueiro incrédulos, e começo a ouvir as suas palavras contra o meu peito,

 

- Mudou tudo, ambos em conjunto, Olha, a avenida 25 de Abril deixou de ser avenida 25 de Abril, diz o maço de cigarros, Olha, a avenida doutor Francisco de Sá carneiro já não é avenida doutor Francisco de Sá Carneiro, as palavras do isqueiro, Que giro, Os plátanos não estão no jardim, segreda o maço de cigarros, olha, pois não, e no jardim dorme um petroleiro, o isqueiro a resmungar para o maço de cigarros,

 

E o meu nome deixou de aparecer na lista telefónica,

 

E o senhor doutor é só dizer, enquanto o malabarista do circo ambulante espeta pregos com a cabeça nas nuvens, eu e os rapazes corremos com o gajo da ilha…

 

Abro silenciosamente os olhos, procuro no teto as nuvens da manhã, ainda não são oito horas e dou-me conta, e felizmente, que tudo não passou de um sonho, felizmente, felizmente…

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:48

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