Sou filho do cruzamento de caminhos e de um emaranhado de fios suspensos nas estrelas nos céus de Luanda, e quis o destino que eu possivelmente fosse concebido na Vila Alice, onde dei os primeiros passos, e os meus pais conhecerem-se no Bairro Madame Berman, mas, e há sempre um mas, mas,
- ele nasce em Alijó e aos doze anos ruma a Mirandela para trabalhar numa oficina de automóveis, descontente com a vida, aos dezassete vai à procura de aventura e poisa em Angola, poisa como quem diz, foi levado por um paquete, percorre várias zonas de Angola e acaba por ir até ao antigo Congo Belga onde esteve trinta dias conjuntamente com outros, protegidos pelos capacetes azuis, eu diria presos, pois eles não podiam sair do local onde estavam, e essa aventura valeu-lhe enjoar o arroz com chouriço, e um dia fartou-se, e um dia consegue fugir e assaltar uma fazenda onde ao final da tarde aparece no acampamento com diversos cachos de bananas, trinta dias a mastigar arroz com chouriço, ao almoço, ao jantar, ele farto,
E agora percebo a minha pancada, não muita, alguma, percebo quando pego nos dois álbuns de fotos do meu pai, todas de Angola, onde aparece de calças esticadinhas, sapatos afiadinhos na ponta, gel no cabelo e óculos de sol, ele empoleirado numa lambreta, ele um boémio que muda de vida após o casamento, e quis o destino que ela, ela,
- nasce em Carvalhais, S. Pedro do Sul, aos sete meses dá um pulinho até Oliveira de Frades e aos cinco anos, aos cincos anos em Angola onde fez a instrução primária na missão de S. Paulo, em 1961 vem a Portugal de férias e no regresso, no regresso a Angola conhece aquele que foi, e continuará a ser, o amor da sua vida e meu pai, e ela hoje, ela hoje com saudades dos vinte anos que viveu em Luanda,
Sou filho do cruzamento de caminhos e de um emaranhado de fios suspensos nas estrelas nos céus de Luanda, e tenho um sonho, terminar os meus dias na baía de Luanda, sentado numa cadeira, e olhar o mar…
Luís Fontinha
26 de Maio de 2011
Alijó