Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

23
Mai 11

Acredito que brevemente

Vou voar em direcção às estrelas

Vou escrever o meu nome nas nuvens

E semear as minhas palavras no mar

 

Brevemente eu pássaro a planar

Sobre os ramos da dor…

E a solidão cada vez mais enterrada num buraco negro

Onde o tempo e o espaço são infinitos

 

Brevemente acredito que na mesa-de-cabeceira

A minha mão finalmente uma mão

Finalmente eu com asas

Finalmente eu vou ser eu…

 

 

Luís Fontinha

23 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:45

Chove torrencialmente e na rua as pedras transpiram pelas frestas da calçada, um roedor espreita-me de relance à entrada da sarjeta e tira-me as medidas, 1,75 m e 72 kg, estás tão magro Francisco, eu magro, não, sempre fui assim, e sempre fui assim, o roedor fixou-se em mim, não me admira, às vezes pergunto-me se eu terei mel porque as abelhas sempre à minha volta, e eu não flor, eu não mel, eu uma árvore onde poisam pássaros e cagam nos meus braços, sempre fui assim, os pássaros sempre adoraram cagar sobre as folhas que cobrem o meu tronco, já fizeste alguma coisa hoje, não nada, isto tá fodido é a crise, eu bem estendo as mãos mas as mãos sempre vazias, qualquer coisinha para comer, vai trabalhar pá, amigo ao menos um cigarrinho, vai-te foder, e eu vou à procura do abrigo das platibandas, e enquanto vou eu fornicado, perco os clientes que correm apressadamente e fogem dos pingos que a tarde constrói nos ponteiros do relógio, isto tá mesmo fodido hoje só cinco euros, e não dá para nada…

 

Chove, chove e eu não me dou conta, eu tão magro que os pingos atravessam o meu corpo como se eu fosse um passe-vite enferrujado e pendurado nas paredes da cozinha comidas pelo tempo, a cozinha vazia, não cozinha, a cozinha à minha espera, e eu entro em casa e vou directo ao quarto, deito-me sobre a cama, o meu corpo parece um objecto que acaba de sair da água, o meu corpo suspenso nos olhos do roedor, estás tão magro Francisco, eu magro, não, sempre fui assim, e sempre fui assim, e nas pedras da rua vejo o silêncio do meu corpo e a ausência das minhas mãos, hoje tá fodido, é a crise, só ainda fiz cinco euros, e eu nem isso amigo, hoje nem isso…hoje os pingos que a tarde constrói nos ponteiros do relógio.

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

23 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 14:23

22
Mai 11

Para que servem as mãos

Se eu não te posso tocar

Para que servem os lábios

Se eu não te posso beijar,

 

Para que servem os sonhos

Se eu deixei de sonhar

Para que servem as madrugadas

Sabendo que não têm luar,

 

Para que servem as palavras que escrevo

Se ninguém as quer ler

Para que servem os meus olhos

Se eles não querem ver,

 

Para que servem as pernas

Se eu não consigo libertar-me da noite em delírio…

Para que servem os relógios de parede

Se a minha vida é um inferno um martírio.

 

 

Luís Fontinha

22 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:58

Aos poucos canso-me da terra

Onde cresci

Aos poucos como o silêncio de um relógio

Canso-me da terra onde vivi

 

Aos poucos eu engasgado nos socalcos

Desço vinhedos subo o xisto da madrugada

E olho o rio que me vai salvar…

Na sombra desgovernada

 

Aos poucos o meu corpo em pedacinhos de algodão

Aos poucos na minha mão uma flor cansada…

Aos poucos os meus lábios em movimento

Quando aos poucos em mim se dilui a alvorada.

 

 

Luís Fontinha

22 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:08

Silêncios escondidos no crepúsculo

Em mim o cortinado da janela

Silêncios enrolados no meu pescoço

Que se agarram como um âncora às mão de uma macieira

 

Silêncios que o mar pela madrugada engole

E no final da tarde cospe contra os rochedos do meu quintal

Silêncios que fazem do meu corpo um inferno

Nos silêncios da vida suspensa por um cordel

 

E pergunto-me qual o significado dos silêncios

Quando as palavras em rebuliço

Quando o mar em construção

Prendem o meu corpo no vácuo de um contentor

 

E o meu corpo transforma-se numa rosa cinzenta

E a minha vida fica colada nas fendas de uma parede…

Silêncios em mim nos silêncios da madrugada

Silêncios de mim nos silêncios de nada.

 

 

 

Luís Fontinha

22 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:46

21
Mai 11

Sábado, fim de tarde, princípio da noite, aos poucos o néon acorda nas ruas, labirintos que se multiplicam no espaço quando a sombra começa a assobiar nos paralelos da calçada, um homem bêbado sai da tasca, tropeça no vento, poisa em casa como um petroleiro desgovernado, entra em casa, entra em casa e espanca a mulher como se ela fosse a culpada dos problemas dele, os filhos indecisos, os filhos suspensos na noite, os filhos não têm a certeza se acudir à mãe ou segurar o pai que cambaleia como um cortinado quando a janela sorri para a rua, a mulher cansada, a mulher um dia inteiro de escravatura nas vinhas do douro, sobe socalco, desce socalco, olha o rio, e o rio sorri-lhe nos olhos, as mão calejadas pelos minutos divididos em vinte e quatro horas, a mulher sustenta a casa, dá comida aos filhos, a mulher leva pancada antes de adormecer, e antes de adormecer, abre as pernas, mistura as lágrimas com os gemidos, sente sobre o seu corpo um corpo coberto de raiva, é forçada a ter sexo com uma sombra que em altas horas da madrugada percorre as ruas em peditórios submersos na maré, o homem adormece sobre o seu corpo, ela chora, e as lágrimas já não lágrimas, as lágrimas o rio que ela pela manhã olha enquanto percorre os socalcos, pega no corpo do marido sacode-o para o lado como se fosse uma mosca em desespero, e permanece de pernas abertas a olhar as frestas da parede.

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

21 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:37

Obliquamente encosto-me às palavras

Que vou semeando nos meus olhos

E quando das palavras se constrói uma frase

A frase enterra-se nos meus braços

 

Mas sem antes passar pelos meus lábios

Enrolar-se no meu cigarro…

Misturam-se as palavras e o fumo

E o texto alicerça-se na janela para o mar

 

Obliquamente encosto-me às palavras

Que vou semeando nos meus olhos

Mas até as palavras começam a escassear

E sem palavras não frases

 

E eu não sei viver sem palavras

Que em frases

Me alimentam e não me deixam morrer…

 

Tirem-me tudo

Ponham-me na prisão…

Mas não me tirem as frases

Não me ausentem das palavras.

 

 

Luís Fontinha

21 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:01

Só preciso das tuas mãos de algodão

E dos teus lábios húmidos da manhã

Não preciso de bens matérias

Não preciso de nada obrigado

 

Preciso que me deixem em paz

Sossegado

 

Não preciso de dinheiro

Para ter o que preciso

E preciso do mar

E não preciso de juízo…

 

Porque neste País à beira mar ancorado

É preciso não ser maluco

Neste País tudo doido

Começando por quem nos tem governado

 

E este País adormecido

Dependente do xanax

Submetido ao prozac…

Só preciso das tuas mãos de algodão

 

E dos teus lábios húmidos da manhã

Não preciso de nada obrigado

Obrigado senhores governantes

Por eu ser tão feliz

 

Por eu ser tão desgraçado…

 

 

Luís Fontinha

21 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:44

(Hoje dei-me conta que estou a mais neste País, hoje percebi que a angustia que sinto ao acordar, hoje percebi que a minha nunca adaptação, tudo isso, tudo isso porque eu nunca devia ter vindo de Angola. Hoje percebi que preciso de regressar urgentemente à minha terra, e mudar de vida. Logo que tenha uma oportunidade de regressar, acreditem que não hesitarei um único segundo; decidi regressar a Angola)

 

Vou à procura de mim em todas as ruas da cidade, e todas as ruas da cidade encerradas para obras, reabrirmos o mais breve possível, fim de linha, eu cansado e com o camuflado a pingar lágrimas, sangue que aos poucos se evapora da minha pele, e nos meus olhos, nos olhos passeiam-se grãos de areia que na praça de táxis esperam pela minha sombra, e onde está a tua sombra, a minha, sim, sim a tua sombra, a minha sombra longe do meu corpo, a minha sombra junto ao capim, e o teu corpo, o meu corpo aos poucos desce pelos socalcos do douro, sinto o cheiro do rio, sentes, sim sinto, e depois, e depois já sem forças, e depois vejo o meu corpo despido do camuflado, vejo o meu corpo a afundar-se no rio, e o rio, o rio engole-me, acreditas que o rio sempre me quis, e o capim, o capim adormece no silêncio da noite, e sabes, e sabes que as gaivotas brincam com a minha sombra.

 

Vou à procura de mim em todas as ruas da cidade, vais, vou, ainda te recordas do menino que acreditava voar, sim claro, e todas as noites olho pela janela, e sabes, sim diz, vejo sempre o mesmo cavalo branco com uma mulher vestida de branco, eu menino ao portão do quintal a fabricar desejos, e ela, ela passava por mim, ela passava por mim e nem se dava conta que o meu corpo lá, o meu pequenino corpo pendurado no portão, o meu corpo ainda invisível, o meu corpo transparente à espera da chuva do fim de tarde, vou à procura de mim e não me encontro, eu não lá, o meu corpo deve passear-se por alguma lixeira de Belém, talvez, talvez agora âncora do navio que me trouxe, vieste de navio, sim, sabes, não, diz, foi a viagem mais linda que fiz, o mar, eu dentro do mar à procura da terra prometida, e os camuflados, que tem, os camuflados levavam-me a passear pelo barco e davam-me presentes, vinham felizes, vinham para casa, eu, tu, e eu triste, a minha casa lá, a minha sombra lá, lá junto ao capim em brincadeiras com as gaivotas.

 

E todas as ruas da cidade encerradas para obras, reabrirmos o mais breve possível, fim de linha, aguarde um momento por favor não desligue, tim tim tim, só mais um momento, aguarde por favor, tim tim tim, só mais um momento, não desligue, e o meu corpo onde andará hoje, a esta hora, hoje agora, só mais um momento, não desligue aguarde, tim tim tim, só mais um segundo, peço desculpa pela demora, não faz mal, lamentamos mas o seu corpo não cá…

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

21 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:47

20
Mai 11

As pessoas gostam de ler coisas simples

Coisas que não lhes puxem muito pela cabeça

Literatura não

Não livros na mesa-de-cabeceira

 

As pessoas gostam de frases simples

Poucas palavras

Nada que lhes ponha a cabecinha em funcionamento

E… e escrevo no meu blog…

 

Hoje estou com diarreia…

- Coitadinho

Diz outro

- As melhoras

 

Não literatura não

Não coisas com trabalho

Complicadas

- Ele hoje com diarreia

 

Leiam o jornal a bola

Leiam a revista Maria

Mas quem manda no blog sou eu

E escrevo o que me apetecer…

 

Não gostam?

Mudem de endereço

Leiam as diarreias dos outros…

Mas deixem-me em paz

 

Porque eu escrevo palavras

- Bem-vindos à diarreia das palavras.

 

 

Luís Fontinha

20 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:14

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