Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

16
Mai 11

Desencontro-me com a vida

Mas estou vivo

Vou vivendo assim assim…

Vou vivendo vivo

 

Com fome

Sem fome

Com ou sem dinheiro…

Estou vivo

 

Respiro

E quando acordo pela manhã

Estico os bracinhos e grito;

- sou tão feliz… vivo.

 

 

Luís Fontinha

16 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:26

E se tudo à minha volta não existisse. Se os peixes não fossem peixes, se o sol não fosse sol, se as plantas não fossem plantas e as abelhas, as abelhas não abelhas. E se a mulher não fosse mulher e o meu corpo, o meu corpo não corpo, e o mar, o mar não mar.

 

E se não houvesse passado, presente ou futuro, e se a terra em vez de circular fosse quadrada, e se o dia não fosse dividido em horas, minutos e segundos, não houve tempo.

 

E se nascer, crescer e morrer não exista, seja apenas uma sensação, e se os momentos que estamos a passar já tenham passado, e se tudo o que vemos sejam apenas imagens projectadas num espelho gigante, apenas imagens.

 

E se tudo à minha volta não existisse. Se os peixes não fossem peixes, e eu, eu não eu. Eu uma sombra sentada à beira de uma ribeira a olhar para um espelho gigante… e os sonhos, os sonhos a realidade e a realidade apenas sonhos…

 

 

Luís Fontinha

16 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:44

 

 

Este sou eu

Umas vezes de livro na mão

Outras

De mão estendida

 

Mas serei sempre eu.

 

Este sou eu

De cachecol da selecção de Angola

Pendurado na estante dos livros

De bandeira de Angola suspensa na estante dos cachimbos…

 

Este sou eu

De cachecol do FC Porto

 

De livro na mão

Este sou eu

Outras

De mão estendida…

 

Eu suspenso na claridade do dia.

 

 

Luís Fontinha

16 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:08

15
Mai 11

Eu sei

Eu sei que sou um imbecil inadaptado

Um rio que corre ao contrário

Um segundo no relógio parado

 

Eu sei que nas minhas mãos não algas

Nem mar ou areia para me deitar

Eu sei

Eu sei que o meu barco está a afundar

 

Eu sei

Eu sei que na montanha há gaivotas

E que vem aí a tempestade

Eu sei, eu sei que no corredor não portas

 

Não nada onde me esconder

Não cama onde me deitar

Eu sei

Eu sei que sou um imbecil inadaptado à procura de ancorar…

 

 

 

Luís Fontinha

15 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:05

Não tenho tempo para a vida

Não sou capaz de ouvir os pássaros na alvorada

Sou um sonâmbulo encapuçado

Um amontoado de ossos em peregrinação pela estrada

 

Espero a morte junto ao cais

Na companhia dos barcos ancorados à maré…

E do mar vem até mim os lábios de uma flor

E para o mar vai o meu corpo sem fé

 

Empacotado num caixote de madeira

E apenas com bilhete de ida…

Não sei se o meu corpo tem coragem de mergulhar até ao fundo do mar

Mas tenho a certeza que não tenho tempo para a vida.

 

 

Luís Fontinha

15 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:20

14
Mai 11

Todas as terras têm uma rua ou avenida vinte e cinco de Abril, e todas elas com vista para o mar onde dormem barcos, onde brincam peixes, e todas elas, e todas elas no fim de tarde à espera do silêncio que desce devagarinho pelas árvores do jardim, os pássaros ficam assustados, de um prédio com janela para a rua uma menina experimenta a lei da gravidade, tropeça no vento, cai, morre, os barcos assustam-se, os barcos cruzam os braços, os barcos,

 

- tão novinha,

 

Até parece que para morrer é preciso ter idade, proibido bebidas alcoólicas a menores de dezasseis anos, fumar mata, e tão novinha, e tão doce menina em queda livre por desgostos de amor, e o amor agradece, na morte sempre uma culpa, os barcos encalham sempre na areia, e tão novinha,

 

- o cortinado ainda tentou segurá-la mas em vão, escorregou-lhe a mão, e não conseguiu inverter os nove virgula oito metros por segundo quadrado,

 

E tão novinha, e maldito Newton deitado debaixo da macieira, e pumba, leva com uma maçã na pinha, e hoje para subir ao quarto andar preciso de escadas, o maldito ascensor com o nariz entupido nos dias em que chove,

 

- e se não fosse o Newton eu levitava, e quando pertinho da janela, a janela abria-se, e ela escondida no quarto a espetar pregos nas oliveiras, na banheira, na banheira Arquimedes a lavar os testículos, e enquanto pega neles, quando pega neles o princípio da impulsão, os barcos caminham no mar…

 

E todas as ruas com vista para o mar onde dormem barcos, onde brincam peixes, onde se abraçam árvores depois do jantar, e todas as ruas têm medo de morrer,

 

- tão novinha.

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

14 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:25

Três cordéis prendem-me a este país (Portugal)

E eu um papagaio de papel

Com muitas cores

À deriva nos céus

 

Levado pela tempestade

Fugindo das nuvens

Eu um papagaio de papel

Suspenso em três cordéis

 

Caminhando por montanhas e socalcos

Encalhado entre o Douro e o Tejo

Estacionado em Belém

À espera de embarque

 

E quando passa o navio?

 

Não navios a passear

Não petroleiros com tosse

Nada que corte os três cordéis

Para eu começar a voar

 

E quando acordar…

Quando acordar poisar a minha mão

Na baía de Luanda

E abrir os olhos para o mar…

 

 

Luís Fontinha

14 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:21

Peço aos teus lábios a tranquilidade do amanhecer

Quando nas mangueiras do meu quintal

Os pássaros suspensos no teu olhar,

E dos teus lábios

 

Recebo um beijo.

 

Os pássaros suspensos no teu olhar

E dos teus lábios,

 

Dos teus lábios emergem nuvens

Construídas de algodão,

Nuvens com sorrisos de silêncio

Nuvens que se enrolam nos meus braços

 

Nas tardes de solidão.

 

 

Luís Fontinha

14 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:14

13
Mai 11

A solidão dói

Mas não sei se a pior dor

É estar só

Ou acordar

 

E não ter ninguém que me diga;

 

- bom dia pai.

 

Pior que a solidão

É não ter um filho

Para abraçar…

 

 

Luís Fontinha

13 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:35

Cesário morto ou vivo encontrado no meio do trigo envenenado com água e açúcar,

- queres colinho ai queres queres,

A tarde evapora-se na liquidez das coxas dela quando na sombra e em brincadeiras no colinho dele, a tarde, a tarde pendurada na janela com vista para o mar, e nas profundezas dos campos de trigo ele em busca do prazer, perde-se nas horas e na secretária poisa uma gaivota embrulhada no desejo, o Cesário morto ou vivo,

- queres colinho ai queres queres, dá-me a tua mão, a minha mão, sim a tua mão, para quê, não tenhas medo e dá-me a tua mão, poisa-a no meu rosto, dás-me um presente, sim dou, está bem pega lá a minha mão,

E das coxas a tarde transpira, finge esconder-se nos sobressaltos dos minutos quando ele em cima dela, não o Cesário em cima da gaja, quando ele em cima dela balança no silêncio das espigas de trigo, está vento, e o sol consome-lhes a pele cálida depois de uma queca apressada e nem tempo teve de tirar as calças, as calças penduradas nos tornozelos, e nos sapatos o cansaço das viagens,

- queres colinho ai queres queres,

Cesário morto ou vivo encontrado no meio do trigo envenenado com água e açúcar, os segundos pendurados no silêncio do número treze, sexta-feira, e a gaivota sobre a secretária sorri para o Cesário, uma gaivota embrulhada no desejo, o desejo quando nas coxas a mão adormece e a água com açúcar abraça-se às plantas de trigo.

- Queres colinho ai queres queres…

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

13 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:29

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