Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

27
Jun 11

Não faço nada... imagino que está frio,

E às vezes sinto frio de não fazer nada... e que bom, eu mergulhar no Douro lentamente como se fosse uma pétala a descer o corpo de uma mulher, uma qualquer, ou homem, um qualquer, prender-me ao fundo e esperar que a minha respiração cesse, e que da noite desçam até mim as estrelas, FIM, e no teste de História o doutor Morais com a caneta vermelha,

- FIM da brincadeira, princípio do estudo,

REPROVADO,

E ainda não é desta e desço e desço e desço até ao fundo do rio e toco e toco e toco com a mãozinha no lodo, e não e não e não cessa a minha respiração, e não e não e não estrelas vindas da noite, CONTINUAÇÃO,

Do dia de ontem igual ao dia de hoje, o mesmo sol, o mesmo calor, as mesmas nuvens e a mesma noite,

Tudo igual,

- Escreve-me um poema!,

Não e não e não, não,

O coitadinho de mim, e ela com uma pedra de gelo desde o meu pescoço até… e apanha-a com os lábios como se fosse um silêncio de nada, o coitadinho de mim suspenso na continuação do dia de ontem, e irritam-me os dias sempre iguais, nem morro nem mato nem dou seguimento à minha existência medíocre, o pacóvio adormecido nas noites milagrosas de Agosto, o vendedor de sonhos na feira da ladra,

- Baratinho só cinco euros,

Peço desculpa, onde se lê cinco euros deve ler-se mil escudos,

Embrulhados na algibeira para as noites tórridas de verão e sobre a mesa da esplanada sílabas de cerveja e vogais de tremoços, e o estômago incha, e o liquido derrama-se no escuro muro de vedação da noite, e estrelas?,

- Estrelas?, quais estrelas?,

No fundo do Douro,

Não desceram estrelas do céu, o céu não existe, o Douro não existe, as estrelas não existem, o mar não existe, e, e o poema não existe,

- O poema és tu PARVALHÃO,

Os dias embrulhados nas coxas da noite,

 

Da pele de silêncio as gotinhas pétalas das tuas mãos

Os sorrisos seios do teu peito

As finíssimas nuvens dos teus lábios

Na entrada húmida e cintilante boca de esmeraldas,

 

- Olha… passou-se,

Os dias embrulhados nas coxas da noite, CONTINUAÇÃO,

 

As tuas cristalinas palavras que escreves

Quando a madrugada se despede na ópera da noite

E o teu púbis mergulha no meu corpo de silício…

Do meu corpo na combustão da tua sombra,

 

Da pele de silêncio as gotinhas…

A mão que deixa cair-se lentamente em ti

Como se fosses um pedacinho de neve

E a minha mão aos poucos na tua solidão.

 

- Não faço nada... imagino que está frio,

E às vezes sinto frio de não fazer nada... e que bom,

Quando as estrelas descem até ao fundo do rio, e um corpo cessou de respirar, e que bom perceber que esse corpo não é o meu, o meu, o meu corpo pendurado no espelho do guarda-fato e batem-me à porta; vamos jantar.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:19

Os teus braços fraquejam

Vergam como os ramos de uma árvore

Mergulhados na tempestade,

E enquanto vergam

E não partem

Os teus braços suspensos no meu pescoço,

Um sorriso no teu rosto permanecerá

Vivo

No cansaço dos dias…

A tempestade cessa

E os teus ramos de árvore

Alicerçados no meu corpo junto ao mar,

 

E não me importo de esperar

E não me importo de te amar,

Porque enquanto fores árvore

Porque enquanto eu tiver forças para te segurar…

 

Os teus braços fraquejam

Vergam como os ramos de uma árvore,

 

Mas eu não os deixarei partir

 

Eu não os deixarei tombar.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:08

O olhar de mim quando a ribeira se abraça ao rio,

E na cidade os automóveis em combustão acelerada,

A minha mão procura na algibeira as pequeníssimas moedas para o café, e o café em lista de espera, consulta só daqui a três meses e vá tentando,

- Uma vez duas vezes três vezes eu farto de tentar,

E se eu desistisse?,

Das moedas do café e da consulta, definitivamente não, nos óculos remelados os olhos que me impingem remédios milagrosos para as lombrigas para os bicos de papagaio para a próstata para os intestinos para a solidão, e o milagre para mim apenas meia dúzia de moedas, um trabalho,

- E nada mais do que isso,

Cabrões,

A minha cabeça estoira como rocha embainhada na dinamite do cansaço, e quando o cordão umbilical se debruça sobre as minhas mão,

- PUM a cabeça impressa na parede em ruínas e o borrão de tinta que sorri na tela,

A cidade empurra os corpos emagrecidos para o mar,

E o cheiro intempestivo dos cadáveres à procura de moedas para o pequeno-almoço, FECHADOS PARA DESCANSO DE PESSOAL,

- Um café e meio bolo e a sombra com a ardósia na mão, não vendemos meios bolos, ou bolo inteiro ou nada,

Nada,

Espero de amanhã,

Porque os dias são todos iguais, excepto na roupa que trago vestida,

- Traga-me só o café,

Cinquenta e cinco cêntimos de taxa moderadora,

E quando terminava a aula de trabalhos manuais construía bolinhas de barro e pumba aos cornos do papagaio da tasca decrépita,

- FILHO DA PUTA CABRÃO,

Consulta daqui a três meses e venha em jejum,

Eu sempre devido ao colesterol da vida, para as lombrigas para os bicos de papagaio para a próstata para os intestinos para a solidão,

- Tem alguma coisinha para a falta de moedas,

Não, não tenho nada,

E se eu desistisse?,

Levantar-me do sofá, despedir-me das fotografias penduradas na parede, e em meia dúzia de voltas sobre o eixo de rotação do meu corpo desligar o interruptor do candeeiro e, e cruzar o braços…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:54

26
Jun 11

O fruto do desejo dos lábios,

O beijo,

Quando na magríssima luz do dia a água derrete na pele silenciosa do corpo, das mãos finíssimas as carícias do banho, as pétalas impressas no tecido humedecido da tarde, as horas intermináveis da voz em pedacinhos desejos, a voz como uma agulha a enterrar-se no pescoço e os dentes mastigam as palavras e os dentes comem as palavras dos meus olhos, fico cego e apenas ouço o chapinhar da água nas paredes quadriculadas da casa de banho, o vapor esconde o corpo de pele silenciosa, e embrulhado na água o corpo em brasa, cintilante, as estrelas que espreitam pelo buraquinho da fechadura, e o corpo some-se na mingua textura da toalha, nua?,

- Não parvo estou a vestir as cuecas,

O guindaste puxa-as e a maré aos poucos junto às rochas,

A vela das coxas enrolada,

- Hummm pois és,

A vela das coxas enrolada na mão do marinheiro, o veleiro do corpo em círculos, e cada vez mais pequenos, o corpo apenas um ponto fixo sobre o mar dos lençóis, as rochas encolhem-se do vento e são atiradas para terra distante, os malmequeres olham o sol quando no peitoril da janela o beijo parece fazer-me sinais com os lábios, e percebo à distância,

- Porque és malandro…,

E não sou,

Eu que escrevo palavras?

- És mesmo parvo,

Palavras,

Que semeio na água do meu cachimbo e do fumo vêm todos os poetas que amei e que amo e que vou amar, todos excepto eu, eu nada, nem poeta, eu nada, nem escritor, eu apenas o guardião de sucata de aço que caminha sobre o mar, dou a entrada e a saída de barcos deixados ao abandono, trabalho no asilo dos barcos abandonados pelos marinheiros limitada, e com sede,

- Beija-me,

O beijo,

Nos lábios do desejo número vinte,

Lisboa,

- Não és uma pessoa complicada,

Complicada a vida dele,

Quando os barcos se recusam a tomar o pequeno-almoço, e quando os barcos rejeitam o jantar, e quando os barcos doentes?, o metalúrgico encosta a orelha à barriguinha do barco, ouve-lhe os roncos dos pistões corroídos pelo excesso de milhas náuticas,

- Mil oitocentos e cinquenta e dois metro do meu corpo,

Abraça-me,

Como se o dia terminasse hoje,

E a noite infinita dentro dos nossos corpos de aço; vamos conseguir recuperar este barco e voltará a sorrir junto ao Tejo.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:11

Sou um gajo porreiro e esquisito escrevia ele na almofada da noite nua e escura, antes de adormecer,

O cigarro extingue-se no hálito da sanita e das nádegas assentes no bidé o peso amorfo do corpo dobrado, a cabeça presa a ventosas e silêncios pegajosos colados aos azulejos, com os olhos afugentava os risquinhos da separação, o espaço à volta de cada e azulejo e vazio, o pórfiro da mão separando o feldspato, separando o quartzo, e a mica, e a mica encastrada nas estrelas suspensas no gesso humedecido da neblina,

- Gosto está giro,

Ela estacionada na esplanada do café,

E em pequeníssimas dentadinhas absorvia as letras do Semanário “Expresso”, os artigos confundiam-se com a luz da tarde, os artigos desciam-lhe pela garganta, e picadelazinha aqui e picadelazinha ali, um arranhão na língua, e no estômago misturavam-se com a saliva incandescente da maré, ouvi o mar, e sabia que o mar nos intestinos em voltas e voltas, o vazio da voz,

- É preciso ter muita sorte dizia ela, andar nu em casa e cair e enfiar uma Nossa Senhora pelo rabo acima,

E eu não acredito em milagres quanto mais nos sonhos,

Sempre a noite que entra pela janela e o meu corpo degolado pelo cacimbo e o narguilé deitado ao meu lado de braços cruzados, isso são apenas sonhos diz ela,

- Quanto mais em sonhos,

Acende-se a luz do candeeiro,

As pernas descansam no comprimento de onda da noite e com a frequência de dois ais o chilrear do eléctrico descendo a rua, o cheiro a mijo junto à roulote das farturas, e antes de adormecer o sempre ritual da contagem das moedas e amanhã fodo-me, nem para o café dá,

- Um dia vamos ter a nossa casa de madeira junto ao mar,

Prometes?,

Sou um gajo porreiro e esquisito escrevia ele na almofada da noite nua e escura, antes de adormecer,

- Prometo!,

Dispenso os livros e a poesia e as palavras, mas não os teus braços,

- És tão parvo…

As gaivotas que se fodam,

Quando o narguilé pega na minha cabeça e lança-a à garganta do mar, e onde está Deus porra?, engolem-me os peixes nos dias cinzentos que poisam sobre o musseque, o cigarro quase extinto e a espuma mergulha na sanita, o autoclismo expulsa o que resta de mim,

- E nem dos sonhos,

Crescem algas na tua mão,

Porque a tua mão é uma pedra esquisita, porque a tua mão encosta-se à almofada antes de adormecer, e da noite nua e escura, finges não me ver pendurada no tecto; e brincamos na imensidão de terra infestada de flores selvagens, e não crescem algas na tua mão…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:49

Gosto da manhã

Quando se entranha no meu esqueleto

E no fingimento da tarde

Adormece dentro da caixa de papelão

 

O uivar dos pássaros

Que poisam nos meus braços

Quando dos ramos de mim

Cresce no silêncio o poema

 

E o poema agarra-se ao cinzento relógio de pulso

Escorre pacientemente como seiva derramada

O poema de mim

O poema de nada

 

No poema as palavras que transpiram do meu sofrimento

A dor emerge como nuvens no céu

Em pedacinhos de água

As vogais despedem-se na madrugada…

 

As vogais comem a manhã

Os rios

E as montanhas

E o poema uma sombra impressa numa lápide

 

O poema de nada

Quando da manhã

Eu, eu grito aos seios da montanha…

O poema é meu, o poema não é nada, o poema sou eu.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:03

25
Jun 11

A casa amarela e suja,

Seminua encastrada na serra que a humidade corrói como um barco enferrujado, o aço que cintila e absorve a luz do dia, os bichos que habitam nas minhas árvores e ao final da tarde esperam impacientemente pelo regresso dos estorninhos, ensurdecedor este silêncio de pássaros que lá do alto deixam cair a porcaria esbranquiçada que nas tripas se acumula e alastra como manchas de óleo no pavimento,

- Que faço eu aqui?, diz a casa no silêncio da serra, as janelas de boca aberta na sombra das árvores,

O sol sufoca os pulmões da casa,

Na tosse engasgada quando o meu corpo diminuído se agarrava a um ramo de árvore e parecia um pêndulo em movimento, horas minutos e segundos no recreio da escola junto ao jardim, defecar só no terreno do vizinho, e sentia no rabo o vento fresco da manhã, malditos estorninhos, quando o rabo se encostava às peugadas da sombra das videiras, a escola empenada e de coluna vertebral escorregadia nos bicos de papagaio, tosse tosse nas arcadas da minha mão, tosse na casa amarela e suja nos olhos esbugalhados dos estorninhos durante a noite,

- E feliz eu quando habitada!, agora, agora míseras paredes inclinadas nos dias chuvosos de inverno, as madeiras a alimentação preferida do caruncho ao pequeno-almoço, e das janelas os farrapos dos cortinados suspensos no vento que assobia serra abaixo, e na cabeça os finíssimos fios de cabelo, e eu feliz quando crianças dentro de mim!,

Dos alicerces a ténue nuvem em decomposição, o cheiro a cadáver nas rugas da argamassa,

A casa seminua amarela e suja, das asas o esvoaçar de penas levadas na tempestade, escondo-me na serra, eu sou a serra entregue por vós, e se fez homem ao terceiro dia, o mar, o mar entra-lhe pela janela e um petroleiro envelhecido derrama sémen nos lençóis da cama, lençóis azuis, a cor do mar quando o lavatório se agarra à torneira e água desce pela parede e na terra semeada as flores amargas da primavera, rebeldes, indomáveis, a casa selvagem ou da bruma escuridão das minhas mãos à espera do jantar, e o que é hoje o jantar?,

- Lasanha meu querido,

Outra vez?,

Outra vez o regresso dos estorninhos, e ninguém à espera deles, sobre a secretária “Vigílias de AL Berto” e “ O caderno de Saramago”, nada mais em mim e de mim, a febre estonteia-lhe a cabeça nos lençóis defecados do mar, e o mar entra pela janela, entra o mar e as mãos de AL Berto, e que injusto este pais,

- Porquê outra vez?,

Ainda ontem…

Nas flores do jardim e hoje não abelhas, das flores do jardim o silvado onde se escondem as lágrimas da casa, a serra a ser engolida pelos estorninhos quando a luz se acende e ela indefinidamente sente o chão em movimento, o peso de anos e anos de olhos cerrados, debruça-se na ribeira e da ribeira,

- Ainda ontem o jantar lasanha,

Os pratos seminus dentro da casa amarela e suja,

Encastrada na serra que a humidade corrói como um barco enferrujado, na testa VENDE-SE, vende-se sucata, mobílias que acabam de chegar da  ortopedia, ainda estão quentinhas, radiografia aos pulmões, e o alcatrão do cigarro preso às paredes velhas e sujas do amarelo esquecido no tecido da saia, e vende-se o petroleiro e os estorninhos que não cessam de cagar, o chão em manchas de óleo, o chão,

- Aleluia Aleluia, Deus proteja esta casa,

Esta casa que se esfarela nos seios da serra,

Tristes e sinceros, e de olhar carrancudo me olham e deixaram de me desejar, dentro da casa a pele húmida e macia onde na parede um calendário parou no dia 25 de Junho de 2011, sábado, 25 de Junho de 2011, um dia como tantos outros não fosse o mar entrar pela janela…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:26

“A mágoa ideológica quando a minha mão toca no sol”,

Da frase,

Impressa no muro do silêncio que divide o ontem do hoje, o segmento de recta da solidão quando na tarde a sereia do automóvel avança musseque adentro, enterra-se na lama, dilui-se na garganta do buraco da rua pavimentada a côdeas de pão, “A mágoa” presa ao betão aldrabado por mais areia que cimento, o traço três por um, três partes de areia uma parte de água e cimento nenhum, “ideológica quando a minha mão” toca nas flores silvestre do campo e escorre através do zinco calcinado do sol, a frase desce a encosta íngreme do mastro de um veleiro, nas velas os lábios da tarde quando no mar brincam as gaivotas “toca no sol” e foge para o pavimento térreo e lamacento que são os meus dias,

- O meu corpo deixa de respirar na maré cansada do amanhecer,

Eu morto,

E encalhado na doca de Santos preso à terra com cordas de sombras que no passo apressado dos transeuntes um rebocador dá aos pulmões e puxa e puxa e não saio do milímetro onde durmo, o zinco muda de cor, e na cor as pétalas da tarde em cio, com o cio as ratazanas buscam nas fendas da boca a claridade da noite, o musseque extingue-se e desaparece da paisagem,

- Os socalcos do Douro comem os meus pobres e cansados duzentos e seis ossos, afundo-me no rio e as algas agarram-se-me às nádegas inchadas do desemprego,

Dizem, dizem-me, oiço na manhã,

Que os pássaros são pássaros, o miúdo que a cada pontapé na bola um vidro estilhaçado, um prédio em ruínas, 5 4 3 2 1 e ergue-se de braços abertos sobre os plátanos e deixo de o ver, o muro do silêncio cambaleia e no vento deixa cair a frase “A mágoa ideológica quando a minha mão toca no sol”, esfarela-se como migalhas do pão duro que atirava ao candeeiro na messe de sargentos, e a velha a perguntar-me Porque estouraram as lâmpadas do candeeiro?, sei lá respondia-lhe que devia ser gases, os intestinos empapados na solha do jantar de ontem,

- O meu corpo engolido no xisto do pavimento, e esta paisagem não me alimenta,

Ninguém, ninguém a agarrar a minha mão, e o meu corpo mergulha nas águas profundas do Douro,

Que a cada pontapé na bola o sorriso do vidro, maricas, fincava as mãos na algibeira e perdia os olhos no lameiro abraçado à erva fresca da manhã, na ardósia cresciam as palavras da infância e dos números o giz na poeira silenciada da mão da professora, as bolas de naftalina protegiam-me da sandes de fiambre ao fim da tarde, a esmola orgulhosa do caricas, e que velho tão filho da puta,

- No Douro?, não, não fico nem mais uma nuvem,

Começo a escorregar pela traqueia da noite,

A frase “A mágoa ideológica quando a minha mão toca no sol” mistura-se com a solidão dos dias e dentro do estômago as vogais com a cabeça estonteada rumo aos intestinos, e puxa e puxa e não saio do milímetro onde durmo, o rebocador sanita abaixo e na tosse da doca de Santos suicida-se contra o vento, os pedacinhos de porcelana no chão da esplanada, e os números da ardósia somam-se, e os números da ardósia multiplicam-se e fingem abraçarem-se ao segmento de recta da solidão,

- Sei lá eu porque estouraram as lâmpadas do candeeiro Dona?, escrevia eu na parede da messe a frase A mágoa ideológica quando a minha mão toca no sol”,

Três dias de castigo,

Na sombra poeirenta da caserna, e puxa e puxa e não saio do milímetro onde durmo.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:05

24
Jun 11

E ela sobre a minha cama saltitando nos lençóis da noite, percorre cada milímetro quadrado de tecido, e o que faz ela no meu corpo, bebendo do meu suor?,

 

A mosca,

E das asas se fez homem, o meu quarto ténue nos electrões possessos da madrugada quando na rua o rosnar do autocarro da carreira para a ilha do desassossego, as árvores escondem-se na encosta protegida pelas escarpas da literatura, a poesia engasga-se no vento que desce e volta a subir e desaparece no céu, sobre a cama ela deitada transparente como a chuva do inverno desprotegido e bebendo as finíssimas gotinhas do meu suor, sacudo-a com a mão, persistente esta miúda, e volta à posição inicial, alimenta-se dos meus braços entupidos nos cabelos do cortinado, e na parede a passadeira, o outro lado da rua, o semáforo vermelho, e o sangue jorra mas veias da intermitência, alto lá!, e se eu te pregasse umas palmadinhas no rabo?, pumba, era um vez uma mosca,

- Seu grande parvo diz-me ela de soslaio, e parvo porquê?, o arco-íris da pela temperado com lasanha e rodelas de cenoura, o xarope para a tosse na tigela de barro, a constipação suspensa no estendal, e quem a quiser que a leve,

No banco do jardim,

“Era uma vez uma mosca” a estória completa de Marilu, puta travesti e poetisa, cançonetista dos bares de Alcântara, viajava nos táxis de Lisboa e terminava a noite junto ao Tejo nos braços do mendigo que fazia equilibrismo no arame da vida, das algibeiras silêncios de pão e restos de tabaco, literatura pura a estória de Marilu, poesia que se escrevia quando o corpo subia e descia as árvores na pensão da ruela, o sino da capela subia as escadas e tropeçava na sombra, alto lá!, e se eu te pregasse umas palmadinhas no rabo?, pumba, o xarope de cenoura a escorrer no lava-louça e já no interior da garganta vira de direcção e some-se nos pulmões apedrejados pelo fumo do cigarro,

- Podes deixar o dinheiro sobre a mesa-de-cabeceira,

No guarda-fato,

Dançam estrelas de papel e cordéis de manteiga, o triciclo com o acento de madeira do Brasil pendurado no cabide, cuecas e soutiens, cobertores e lençóis, e tudo a cinco euros, o cigano faz desconto, duas cinco euros, menos só de borla PORRA!, de borla não, deixa aí o dinheirinho, quantas notas já pousaram na mesa-de-cabeceira?, não se lembra, esqueceu-se quando menino cavava a terra molhada com as unhas da mão e as vogais pareciam batatas a acordarem das profundezas do púbis, na lentidão das horas, os morcegos,

- E quantas?,

Frases deixei cair na tua mão,

Quando no meu rosto ainda habitavam os vinte anos, quando o meu corpo tombava na tempestade das noites de Lisboa, quantas?, quantas moscas com estórias, e poetisas sem estória, e quantas abraçadas ao mendigo com pãezinhos de leite e chocolate ao fim da tarde, a carrinha segue-o, segue-a, e se eu matasse a mosca com um sorriso?,

Pumba.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:10

Beijos dos teus lábios,

Às pétalas que cruzam a madrugada, às gaivotas de sorriso minguo e que na manhã se escondem no vento da nortada, aos pássaros, de joelhos sofridos no pavimento reza por ele a mãe que vê o filho perder-se na neblina, mil escudos para a viagem, sete dias e sete noites enterrado na areia da praia deserta, e a fome aperta, o pão em côdeas pedacinhos na garganta do esfomeado, os lábios incham e a lua apaga-se no céu,

- Aleijo-me nas encostas da pobreza quando sobre os plátanos um silêncio de luz emerge, Nossa Senhora?, a brancura do vestido na brancura do cavalo, o cavalo tem asas, o cavalo voa sobre o Bairro Madame Berman e poisa aos soluços no meu quintal, vejo o circo e quero ser palhaço, e nem uma coisa nem outra, e perguntam-me, e eu pergunto-me, o que queres ser quando fores grande?, e eu já grande e eu não ser nada,

A traqueia prende-se-me no tecto do circo,

A garganta em securas na manada de bois que pastam nas ruas da cidade, a côdea pedacinhos de sorrisos, lábios encharcados de medo, e o filho ziguezagueando na maré da terra que explode junto ao rio, os joelhos dela como âncoras nas frases de um livro, e o jantar atrasado, o refogado evaporou-se na lentidão dos seios das dezassete horas, que vida esta diz ele, e nem para varrer as ruas sirvo,

- O que quero ser quando for grande?, e já sou grande,

Não sou nada,

Porque as oliveiras não me deixam, porque as raízes das árvores não me deixam, e porque hoje não me deixam, os alicates agarram-se-me aos dentes corroídos pela poeira que em corridas de taxímetro deslizavam na prata de alumínio, vai e vem, vai e o cheiro intenso a cebola e alho no estrugido na noite, as oliveiras não me deixam, o crucifixo aponta para o meu peito os holofotes da miséria, mil escudos para a viagem, trezentos para o comboio e sobejam setecentos para as sílabas de cerveja, e a língua do rio no pescoço dele,

- e nunca quis ser nada, o meu sonho realizado, ser palhaço de circo, e finalmente eu palhaço com montinhos de cartas no divã da arrecadação e vira e vai, e na prata amarrotada a bolha diminui e desaparece com a luz, o interruptor ausenta-se e os meus vinte escudos do santo António já eram,

Feitos em tubo revestido a alumínio,

Às pétalas que cruzam a madrugada, às gaivotas de sorriso minguo e que na manhã se escondem no vento da nortada, nas nádegas as ortigas do cubículo junto à ribeira, a ribeira ergue-se, a ribeira revolta-se, a ribeira deixou de correr para o rio, o rio deixou de correr para o mar, e o mar desapareceu nas coxas de uma palanca,

- O tubo com a menstruação, e dos pingos o pequeno-almoço da manhã,

Queixa-se ele, e se não tivesse sido a heroína talvez hoje deixasse de ser ninguém,

Ausenta-se da equação matemática submersa numa pindérica folha aos quadradinhos, a cela quatro metros quadrados e vista a o mar, no balde do mijo poisam as moscas e os cagalhões da existência, e quando responde à pergunta o que queres ser quando fores grande, a criança fecha os olhos, cruza os braços e responde pausadamente, nada.

Não quero ser nada…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 17:05

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