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Cachimbo de Água

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O mar de Luanda

Francisco Luís Fontinha 6 Jul 11

A volúpia da noite

Quando o néon se extingue nas mãos do meu corpo,

 

A insensibilidade dos ouvidos quando a luz em mudanças de direcção poisa no cansado ombro da solidão, uma auréola de braços cruzados indiferente à cadeira onde me sento, poeirenta e atulhada na dor das rosas do jardim, a isto chamo eu morte, estar vivo e não sentir as roldanas em movimentos, perder a noção da rotação dos veios excêntricos que dentro do cérebro circulam a alta velocidade, e perceber que às rodas dentadas faltam dentes, está quase diz o dentista para o círculo da boca, o alicate e a chave de fendas suspensos no bolso do fato-macaco,

- E é só mais um bocadinho, agarre-se à cadeira, força…

E trinta e cinco euros para curar a gripe do dente em delírio e com febre, e perceber que as rodas dentadas dentro de mim deixaram de correr encosta abaixo, o rio deixou de ser rio, as nuvens deixaram de ser nuvens, os seios dela ainda são os seios dela, mas são dela responde-me o dentista enquanto desinfecta as mãos nos desperdícios da tarde, trinta e cinco euros?,

- Pronto com dez por cento de desconto e leva o dente para casa, olhe tive uma ideia, porque não pendura o dente no cachimbo de água?, ficava bem, não, que diz,

Se o doutor se fosse foder!, quer dizer é tudo dela, os seios são dela as coxas são dela os lábios são dela a boca é dela, e eu doutor?, e eu fico com o quê?, eis as palavras que escorregam pela falha do dente que este camelo acaba de me saquear,

- O senhor fica com o dente pendurado no cachimbo de água,

A olhar o tecto enquanto construo círculos quadrados rectas e rectas paralelas, a isto chamo eu morte, estar vivo e não sentir as roldanas em movimentos, ouvir o comboio e o trepidar dos lençóis embrulhados no cobertor, a isto chamo eu morte, quando os barcos me entram pela janela e se deitam na minha cama, e ele pergunta-se, e ele pergunta-me, e eu também me pergunto, e porquê?,

- E porquê doutor, porquê um dente pendurado no cachimbo de água?,

E porquê doutor, porque crescem algas nas minhas costas, e porquê doutor, porque tem de ser tudo dela e de mim nada, porquê doutor?, a isto chamo eu morte, quando quero dormir e dentro dos meus olhos os papagaios de papel em brincadeiras nos céus de Angola, porquê doutor?, e dentro dos meus olhos o mar que me acena,

- Vem, vem não tenhas medo,

E eu, doutor, e eu agarrava-me ao pescoço da minha mãe aos gritos, o medo do mar doutor, o medo do mar quando me sentava no portão de entrada e o vento fininho de fim da tarde que me penteava e alisava o rosto de criança, ai o mar doutor, o mar de Luanda é tão lindo, tão lindo doutor…

Dentro do Tejo algemado à maré

Francisco Luís Fontinha 6 Jul 11

… Ou a puta da mania de quem se julgava, julga, mais esperto do que os outros,

O Chico esperto de mãos na algibeira, a imersa lentidão dos cigarros avulso nas clareiras da manhã, o fio de sémen em remoinhos que se desprega dos lábios de uma gaivota, o murro no estômago, pluf pum pum, e testículos abraçados à janela, o tecto sorri e o cuspo de gesso em estalidos que dos intestinos começa a sair e de imediato se ajoelha no soalho, o prato da sopa inclinado, a mesa da cozinha em três pernas e a quarta perna, falta-me a quarta perna grita a mulher, a quarta perna engessada do mergulho da cerejeira abaixo, só temos sopa, pensa ele enquanto em esforços conturbados discute com a colher em punho e apontada à porta de acesso à despensa, a mediocridade da fome, a despensa despida, seios ao léu, púbis emagrecido no interruptor na parede, os seios chupadinhos como as tetas de uma cadela vadia, falta-me a quarta perna da mesa, falta-me pão, falta-me a paciência para te aturar, ouve ele enquanto em manobras de reanimação tenta equilibrar o prato da sopa,

- Três quilogramas de saliva e os dentes que mastigam em seco,

A pobrezinha da sopa tomba e escorrega milímetro a milímetro pela toalha de plástico aos quadradinhos, falta-me tudo na voz rouca da noite ela de sorriso espetado na lareira, e ele furiosíssimo numa luta de galos a tentar estancar o derrame, o sangue a dilatar e das veias a mortalha dos cigarros avulso misturados com o murro no estômago,

- E a língua amarfanhada ao céu-da-boca, a secura dos dias esquecidos no sofá a olhar os retratos pendurados na parede da sala, e ele em voz alta, e o avô tal foi-se, e o outro avô também se foi, e eu, e eu também me vou,

Encosto as mãos à barriga e vou-me corredor fora,

A dor intensa que os pássaros deixam pela manhã, as asas que batem e se debatem contra o rápido das cinco horas, Porto-Lisboa, Lisboa-Porto, Lisboa-Lisboa, Tejo-Tejo, a cacilheiro em movimento curvilíneo a assustar os peixes, a tia à minha espera no Pinhal dos Frades e eu dentro do Tejo algemado à maré,

- Que saudades meu filho…

O cheiro dos pinheiros em mim, emagreci tia diz ele, evaporaram-se de mim cerca de dez quilogramas de argamassa, três sacos de cimento e cem litros de água, é a fome tia, é a fome, sabe tia, a fome é como o cacimbo em Angola, começa a descer em nós lentamente e quando damos conta, tia, os ossos tia, lembra-se?, o cacimbo a entranhar-se-lhes e eles em gemidos quando a insónia não nos deixa adormecer,

- Há quanto tempo,

Os ricos com insónias e o medo de perderem o dinheiro, e os miseráveis tia, os miseráveis com insónias porque não têm dinheiro para comer, porque os ricos tia, os ricos podem levar murros no estômagos,

- E os pobres filho?,

Os pobres tia, os pobres há muito que deixaram de ter estômago, é como o cacimbo em Angola tia, lembra-se tia?, desce devagarinho e entranh...

As árvores da manhã

Francisco Luís Fontinha 6 Jul 11

Esconde-se nas árvores da manhã

O corpo esfomeado da noite

As sílabas em palavras impressas na sombra

As palavras que se cansam na algibeira,

 

Em pedacinhos de papel as pétalas

Na garganta das nuvens

Vem chuvinha

Vai embora a névoa dos seus olhos,

 

O corpo argamassado no telhado da dor

Vacila e não cai

O vento que escorre da manhã

As árvores do seu peito entaladas no desespero,

 

- “Esconde-se nas árvores da manhã

O corpo esfomeado da noite

As sílabas em palavras impressas na sombra

As palavras que se cansam na algibeira,”

 

As árvores do seu peito ramos de seda

Nos cortinados das horas intermináveis

O orgasmo das palavras que a algibeira esconde

E se misturam com os restos de cigarros em solidão,

 

O corpo defecado na retrete da vida

Afunda-se como um cagalhão atirado pela janela

Sorri e sorri e sorri…

E despede-se com um olhar das árvores da manhã.

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