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Cachimbo de Água

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O papagaio de papel

Francisco Luís Fontinha 15 Jul 11

A luz emagrecida da manhã,

No quintal o pessegueiro em queixumes silenciosos, a dor nos ossos, as mão amarrotadas na tarde, os olhos pregados à janela do quarto, do quintal as silabas amortecidas do pessegueiro envelhecido, poisam-lhe os pássaros e os ossos em ais e ais, e os pássaros fogem, batem as asas como borboletas no decorrer das horas,

- Vai tomar estas drageias e a promessa milagrosa para os ossos do pessegueiro, o doutor sofrimento em gatafunhos no receituário,

Ais e ais, rangem como trovões no fim da tarde as sombras esquecidas no quintal, as pombas enjoadas dos pedacinhos de migalhas da toalha do almoço, e o cão, o cão na sesta imperfeita do corpo amachucado pelas raízes dos arbustos,

- Tês por dia e fica como novo, o doutor sofrimento a assinar o receituário, e do estetoscópio a voz do pessegueiro em queixumes, ais e ais, e no corredor os passos das mangueiras que fogem do cordel que suspende o papagaio de papel da criança,

O quintal cerra os olhos, e o pessegueiro em apalpadelas ao muro de vedação, o betão envelhecido, e da pele incendiada pelo sol as feridas da argamassa fendida, os dentes presos ao arame de aço, e cão aos gritos a querer sair do sonho, as árvores em fila correm o passeio onde brinca um triciclo de madeira, eu vou em auxilio da criança que de baraços cruzados olha indiferente o papagaio de papel amarrado às mãos da árvore, a criança chora, o chapelhudo chora, o portão geme silêncios,

- Não se esqueça três por dia e se for preciso telefone-me, o doutor sofrimento escreve o número de telefone, o pessegueiro a tentar decifrar os algarismos, e não percebo se é 936 ou 935, olho de soslaio e fico com a certeza que é 934,

O chapelhudo? Pergunto eu ao miúdo de calções e sandálias de couro, e ele explica-me que chapelhudo,

- Chapelhudo é um boneco!, e não se esqueça se for preciso, então até amanhã senhor doutor, e o pessegueiro agarrado à maçaneta da porta,

Não sabia que era um boneco, pensava que o chapelhudo fosse um boné ou algo no género, o pessegueiro olha-me e estica-me a mão,

- Estes miúdos têm uma imaginação, quem diria, quem diria que o chapelhudo é um boneco, segredo eu ao pessegueiro,

O pessegueiro indiferente e ausente e dormente e perdidamente esquecido no quintal e do miúdo e do chapelhudo e do triciclo, e diz-me que já lhe custa aguentar com o peso dos pássaros durante a noite,

- E se fossem só os pássaros, continuava o pessegueiro, às vezes ainda tenho de aguentar com as pedradas desse miúdo horrível que me inerva, mas, mas gosto dele, Trazes-me um copo com água?, diz-me ele, deve estar na hora de tomar a primeira drageia,

O pessegueiro meses depois  morreu, o triciclo e o chapelhudo e as mangueiras ficaram no quintal em Luanda, o miúdo cresceu e hoje, hoje conta histórias nas ruas da cidade, no fim da tarde senta-se junto ao tejo, e conversa com o pessegueiro, e conversa com o triciclo, e conversa com as mangueiras, e conversa com o portão de entrada, e conversa com o chapelhudo, deixou de ver o cão, e às vezes pergunta-se, muitas vezes pergunto-me e lamento-me,

- Estranho!, nunca mais vi o meu papagaio de papel preso nas mãos da árvore, e o cigarro extingue-se na noite, e a luz do candeeiro apaga-se,

E a noite entra nos meus sonhos.

Este rio vai matar-me

Francisco Luís Fontinha 15 Jul 11

Este rio vai matar-me

E o meu corpo engolido pelos socalcos

Misturado no xisto em migalhas

Como o pão sobre a mesa

 

Este rio vai matar-me

E sinto o cheiro da podridão do cansaço

As curvas dos meus braços

Presas nos canaviais

 

Pardais sobre esta cabeça inclinada na tarde

Algas saltitando junto ao cais

As pernas alicerçadas no vento

Este rio é um verdadeiro tormento

 

A agonia desesperada das mãos calejadas

O peso silencioso da enxada

E os ombros que se escondem na sombra

O rio olha-me e quer matar-me

 

Alimentar-se da minha pele pegajosa

Das gotinhas amargas de pétala quando acorda

A manhã sonolenta e cansada

E as minhas mãos começam a voar

 

Perdem-se no rio que me quer matar

Voam desesperadamente ao infinito

E o comboio sem me olhar

Nos seus vagarosos passos de lesma

 

Este rio vai matar-me

E os socalcos engolir o meu corpo

As cinzas semeadas na terra gretada da tarde

Como o adubo no pé da videira…

O álcool das palavras

Francisco Luís Fontinha 15 Jul 11

O livro que dorme no silêncio da madrugada

Na mesa-de-cabeceira os óculos ensonados

Na cama a minha alma cansada

Dentro do livro textos embriagados,

 

O álcool das palavras abandonadas

A cabeça que estonteia

Das páginas amarrotadas

O meu corpo que se afunda na areia,

 

E vem o mar

Com a espuma do amanhecer…

Ajudem-me que não sei nadar

E não quero morrer.

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