Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

29
Jul 11

Este é o último poema da minha vida

As finíssimas palavras em espera

Sobre a copa das árvores

Odeio-te diz-me o poema

E eu fico feliz ao perceber

Que o poema deixará de me pertencer,

 

As palavras morrem dentro de mim

Como as gaivotas quando as nuvens emergem na água

E um soslaio de energia mecânica adormece

Os êmbolos da tarde,

 

O papel emagrece e em sombras

Absorve as palavras que me odeiam…

 

Não sei se hoje é o meu último dia de vida

Mas tenho a certeza que este é o meu último poema,

Todos os outros são meus e pertencem-me…

Mas este deixará de ter vida

De ser meu

Este poema é um fantasma

O esqueleto que dentro de mim habita

E desfalece na claridade da manhã,

 

A janela da biblioteca encosta-se nos livros doentes

E cansados da minha presença…

E um finíssimos sorriso de pássaros

Plantam-se no meu quintal,

 

O poema funde-se no cansaço dos dias

E renasce na alvorada em cinzas

O meu corpo e o poema beijam-se…

E da janela olho um barco cansado que se afunda,

 

O mar engole-o

E mais tarde quando vem a noite

Eu e o poema à procura de abrigo

No fundo do mar…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:53

O chefe da estação

Bêbado da alvorada

De bandeira na mão

Cambaleando na calçada,

 

Os carris entram-lhe nos olhos minguados

E do rio as algas suspensas nos braços

O pinhão em socalcos encalhados

Dos vinhedos em cansaços,

 

O chefe da estação

No desespero de comboios engasgados

E o pôr-do-sol deita-se-lhe na mão,

 

O rio engole o chefe da estação

Em silêncios de dias amargurados

No silêncio do verão…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 10:28

28
Jul 11

Há qualquer coisa de estranho,

E que se entranha no meu corpo como as ervas do terreiro, o mar deixou de ter ondas e o vento cansou-se de soprar, as árvores adormeceram eternamente nas sombras da noite, e os pássaros suicidam-se contra os postes de iluminação, há qualquer coisa de estranho que me puxa para dentro da terra, e o buraco negro da vida engole a minha massa e a luz torna-se opaca, e os meus olhos emagrecem nas pedras calibradas das ruas de mãos entrelaçadas na poeira da lua, há qualquer coisa de estranho quando incendeio o quarto de eletrões, quando abro a janela e em vez de olhar o mar vejo uma parede invisível que me tapa a paisagem, o teto começa a descer e eu começo a encolher e as paredes começam a vibrar e em frestas desfazem-se em migalhas de pão,

- Há qualquer coisa de estranho quando os pedacinhos do almoço se interrogam no talher e as mãos começam a inchar, levantam-se da mesa guardanapos com gripe e a água em escuridões de azoto evapora-se do copo amargurado, o peito em saliva dilata-se nas nuvens antes da chuva miudinha, pieguices modernas, loucuras de hoje, o almoço amarrotado nos intestinos como se fosse o xisto da vinha, e os cachos de uvas agridem-se em bofetadas de mel, o doutor levanta os olhos, olha-o e diz-lhe que ele só pode estar louco,

Sinto muito mas o senhor está maluco, o homem discute e argumenta que não, e o doutor continua a explicar-lhe O senhor precisa de ser internado!, e o homem pergunta-lhe Porquê?,

- O senhor não distingue a realidade do sonho!, o homem enfurece-se e pergunta-lhe que se explique O senhor doutor explique-me lá isso muito bem!, O seu problema é que não distingue a realidade do sonho, isto é, ao sonho chama realidade e à realidade sonho,

Não percebi responde-lhe o homem,

- O senhor vive dentro de um sonho, Percebe?, e eu, finjo que sim, Percebi!, O senhor construiu um sonho onde está sem trabalho e sem dinheiro Entende-me?, Espere aí doutor, espere aí, Quer dizer que não estou desempregado e sem dinheiro?, Claro que não homem é tudo um sonho…

Desculpe-me doutor mas não percebi, eu sei que sou um pouco estúpido mas é-me difícil perceber o que o doutor está para aí a escrevinhar na ardósia, Não se preocupe, uns dias em isolamento na enfermaria e tudo volta ao normal!, Normal? Que normal?, ao normal explica-lhe o doutor dos malucos,

- Volta ao seu emprego, E qual era?, O senhor é administrador de uma empresa do burgo, Ai sou!, É, e ganha muito bem, Ganho?, claro que sim responde-lhe o doutor,

Há qualquer coisa de estranho quando releio este texto encostado aos umbrais do silêncio, o doutor dos malucos sentado à minha beira a fabricar papagaios de papel e eu entretido nas fotografias a olhar o mar de luanda, os cordéis enrodilham-se nos tornozelos da secretária e uma nuvem sorri da fotografia,  batem à porta,

- O senhor administrador e o senhor doutor dos malucos ao refeitório se fazem favor, em voz grossa o enfermeiro,

E o estranho é que chovia em agosto, e era noite, e o jantar meia dúzia de pilulas a dividir por dois…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:52

O desespero do esqueleto

Suspenso nas margaridas e nos malmequeres e nas tílias da vida,

 

A noite bate à porta secreta dos óculos poisados na mesa-de-cabeceira, o esqueleto pendurado no guarda-fato disponível para se transformar em pedacinhos de poeira, e o néon de esperma derretido sobre as nuvens, cânforas manhãs de espuma sobre a toalha de plástico que adormece na cozinha, abre-se a porta, e um amontoado de palavras que fugiram do texto, pousam-se nas lentes, e pensam, entramos, não entramos, decidem entrar e esconderem-se nos meus olhos, e os meus olhos cegam-se na luz infinita dos eletrões encaixotados nas finíssimas vogais das palavras,

 

Fecho a porta secreta dos óculos, chamo pelo macio pano de seda e humedecido nas lágrimas das silabas acaricio-lhes o vidro das janelas, poiso-os novamente sobre a mesa-de-cabeceira e adormecem, é meia-noite e todos em casa dormem; O desespero do esqueleto suspenso nas margaridas e nos malmequeres e nas tílias da vida, e a vida extingue-se no fumo dos cigarros.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:58

Tentei de tudo

E não consigo

Descalcei-me no rio

E galguei socalcos

 

Subi montanhas

Desci ao inferno

Escondi-me nas sombras

E aterrei no xisto em migalhas

 

Tentei de tudo

Fiz peito ao vento

Atirei pedras às estrelas

E nas nuvens adormeci

 

Tentei de tudo

Mas o meu corpo de barco enferrujado

Teima em ancorar-se na esquina da rua

À espera que uma alma bondosa de sucateiro

 

O venha desmantelar…

Tentei de tudo

Senhores vejam só

Até rastejar pelo chão fui capaz

 

E afinal não adianta tentar

Não vale a pena lutar

Tentei de tudo

E para quê?

 

Escreves bem, dizem alguns…

És inteligente, dizem outras...

Aos primeiros que metam a escrita cu acima

E às segundas que introduzam a inteligência na vagina

 

Se não és filho de pai rico

Se não lambes botas

Ou se não tens cartão do PS ou PSD

Estás completamente fodido…

 

E acredita

A cultura é uma merda que não serve para nada

O homem quer-se inculto

A cuspir no chão e a dizer palavrão…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:16

(À Sara)

 

Quando o rio nos engole no amanhecer

E os socalcos mastigam-nos os braços

Quando o xisto começa a emagrecer

Em teus olhos baços

 

Em teus lábios os beijos da madrugada

E o poema poisa na tua mão

Vem o rio à procura da alvorada

Vai o rio beijar teu coração

 

E tu deitada

Submersa nos lençóis da dor

E à janela pendurada

 

A noite dispersa no luar

O teu corpo transforma-se em flor

E a tua sombra em ondas do mar.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:30

A humidade cintilante das tuas mãos

Quando poisam no silício encardido do meu rosto

Deformado no espelho da manhã

Um monstro de sete cabeças

 

Quatro braços que se agarram ao sol

E três pernas de madeira rancorosa

A mobília do meu corpo range nas nuvens

Como uma porta transparente

 

Um barco em sofrimento

Geme no cais da saudade

E a água salgada do mar

Entranha-se nos seus braços

 

A humidade cintilante das tuas mãos

Quando beijam os meus lábios em flor

E me abraças nas arcadas do sonho

E me prendes à vida como uma árvore…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 10:49

Procuro trabalho em qualquer área, zona do país (Portugal) ou estrangeiro.

 

Francisco Luís Rodrigues Fontinha

Dados Pessoais:

- Estado Civil: Solteiro;

- Nacionalidade: Portuguesa;

- Idade: 45 anos;

- Naturalidade: Luanda/Angola;

- Carta de Condução;

 

Formação:

1989/1990 – Técnico de Desenho de Construção Civil; CICOPN

Curso de Formação Profissional

 

Habilitações Literárias:

- 12º Ano de Escolaridade, 1º curso via de ensino;

- Frequência Universitária (Engenharia Mecânica);

- Acção de Formação Teórico-Prático ao Método dos Elementos Finitos;

- Curso de Iniciação ao Matlab;

 

Experiência Profissional:

- 1990- 2000 – Desenhador de Construção Civil (AutoCad):

- 2001-2004 – Empregado de Escritório (António Luís Magalhães & Sobrinhos, LDA);

- 2004-2010 – Desenhador de Construção Civil;

 

Experiência Profissional Adicional:

- Conhecimentos de Cálculo de Estruturas (Programa Cype);

- Conhecimentos do Programa de Elementos Finitos (Ansys);

- Conhecimentos de Fortran;

- Experiência em hardware;

 

e-mail: fontinha_francisco@sapo.pt

93 585 88 70

publicado por Francisco Luís Fontinha às 10:00

27
Jul 11

Porque se cruza a paisagem,

Quando o rio me olha,

 

Todas as noites olhava no espelho a sua voz cansada e repetia infinitamente a frase que galgava-se-lhe na cabeça fina da manhã “porque se cruza a paisagem quando o rio me olha!”, não sabia porquê e abraçado ao espelho ficava-se a dormir como rosas no jardim de carvalhais,

O sino da igreja atrapalhado nas três horas da madrugada e dentro dos lençóis as pernas dele que caminhavam na margem do rio na procura de estrelas, a noite descia e poisava na água, e a música melódica dos fingertips entrava-lhe no peito, ele estancava-se junto a uma amoreira e dos lábios deslizavam silabas engasgadas no fumo dos cigarros e ouvia-se no eco da noite Porque se cruza a paisagem quando o rio me olha!,

E pensava na sua voz de submarino afogado no mar A paisagem não existe O rio não existe E eu, eu não existo, e enquanto pegava na beata do cigarro continuava nas frases soltas da garganta Só as rosas de carvalhais é que existem!, voltava um pouco atrás Talvez eu exista!,

- E se não existe rio e se não existe paisagem?, e enquanto caminhava junto à margem um peixe olha-me e saltita na água, sinto que sorri, sinto que me acompanha, eu estaciono-me e ele também se estaciona, e vem-me à ideia E se o sino da igreja não existe e se a igreja não existe?, outro peixe na minha peugada, Dois? Pergunto-me eu, e tenho a certeza que dois são demais, um, um apenas bastava para me atulhar os ouvidos de lágrimas e os olhos de sorrisos,

As rosas de carvalhais tinham um gosto poético a sonho e quando misturadas com as palavras que acordavam na eira o sabor fundia-se na boca e a mistura derretia-se debaixo dos castanheiros, junto ao poço um miúdo atirava pedras e segundos depois o pluf dos gemidos da água,

- E se eu sou um sonho?, e agora dou-me conta que já tenho a companhia de três peixes e não tarda nada tenho um pelotão às minhas ordens, uma comandita de bêbados e fumadores de charros ao pequeno-almoço, abriam o armário e sacavam da espingarda submersa em uísque e o quinto pelotão tombava na parada de instrução, o furriel sorria e explicava ao aspirante Deve ser do vento!,

Perguntavam ao miúdo porque atirava pedras para dentro do poço, e ele respondia ao avô domingos Estou a fazer uma experiência, o avô domingos encolhia os ombros e fingia que era a paisagem, e o rio olhava-o,

- O aspirante nos gritos histéricos do pequeno-almoço Seus filhos da puta!, e da poeira do saibro de agosto a voz começava-se-lhe a encolher nas âncoras dos pés e gritava Todos para a fossa da merda, e o estúpido o primeiro a entrar, e um cagalhão entra-lhe pela janela sem cortinados,

Acorda e vê o sorriso encolhido no espelho a segurar as rosas de carvalhais, e deixa cair a frase no soalho Porque se cruza a paisagem quando o rio me olha!

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:55

Entre as esquinas do dia

E as sombras da noite

O meu corpo mergulha no poema

E extingue-se na cidade adormecida

 

Folheias-me as pétalas encardidas

Quando nas mãos brotam espinhos

Cintilam uvas das videiras amassadas na neblina

E o rio entra-me coração adentro

 

Como um petroleiro que desliza na geada

Como um pai que abraça o filho

E os socalcos enrolam-se-me nas pernas

E não me deixam caminhar

 

Agarro-me ao pôr-do-sol

Que esconde o rio

E nos meus lábios constroem-se barcos rabelos

E finjo-me de morto…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:34

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