Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

04
Ago 11

Só sairei de Alijó quando eu quiser

E por minha vontade

Não porque o doutor quer

Em seus sorrisos de vaidade,

 

Cheguei primeiro

A esta ilha desgovernada

E se alguém tiver de sair

Saia o doutor risada

Vá-se embora de madrugada

E leve todos os cães e cadelas

Que se ajoelham e lambem botas e rezam no altar de fingir

Porque Alijó era terra de paisagens belas

 

E agora parece ruir,

Ai, ai doutor risada

Que não deves conseguir dormir

Com tanta trapalhada,

 

E um dia vais cair

Tu e toda a escumalha

E Alijó voltar a sorrir

E pertencer a quem trabalha,

 

Só sairei de Alijó quando eu quiser

E por minha vontade,

 

Adeus doutor risada

Vai-te embora e leva a escumalha

E enfia as botas cu acima,

Que palhaçada

Humilhar-se quem trabalha…

É esta a sua sina!

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:02

Sumiu-se no fumo da tarde

O sorriso da gaivota

Do cigarro que arde

Em cigarros de revolta,

 

Poisa a mão o enforcado

No peito da árvore adormecida

Tomba o corpo cansado

Na tarde envelhecida,

 

Sumiu-se no fumo da tarde

O sorriso da gaivota

Do cigarro que arde

No cigarro que não volta…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:53

Saboreia na manhã o cachimbo em espuma do mar,

O fumo dilacera-se contra os ponteiros do relógio esquecido sobre a prateleira onde se abraçam livros, um barco rabelo em estanho, uma gaivota em marfim, e uma bola de cristal onde consulta os oráculos da vida, um cinzeiro de madeira encosta-se ao velho dicionário que há muito deixou de ter significado, e uma peça de louça representa uma batalha perdida com cavalos sonâmbulos e espadas de plástico, mais abaixo a bandeira de Angola e o cachecol do F. C. Porto, um busto Egípcio na sombra das pirâmides na procura das curvas do Nilo, e um crocodilo em pau-preto desembarcado em Lisboa e domesticado na paisagem do Douro,

 

O cheiro aromático do tabaco entranha-se-lhe nas mãos desgostosas de Agosto e uma tela suspensa na parede olha-o sem perceber que as acácias deixaram de florir e as árvores quando nasce o vento fincam os braços à tarde e não sorriem aos pássaros vindos das nuvens na busca de asilo,

 

Os barcos do Tejo passeiam-se dentro do minúsculo cubículo da saudade e na cidade acabada de acordar poisa levemente a manhã, sento-me nas ripas de madeira do banco de jardim e finjo olhar o rio engasgado nos detritos das gaivotas, crianças de sorriso esquecido brincam na relva incendiada pelo sol e na minha mão uma erva enfeitada de cordéis e lacinhos de seda mistura-se com o cachimbo em espuma do mar, e extingue-se nas manobras complexas de um cacilheiro,

 

No chão alguns livros aguardam o visto para a viagem até as prateleiras e enquanto a embaixada da literatura e o embaixador da minha pessoa não decidem, porque estas coisas têm o seu tempo, a mãe dele na pregação diária Quando arrumas os livros?, explico-lhe que não os posso arrumar sem ter toda a documentação necessária, passaporte, visto de entrada na prateleira e respetiva passagem de barco, e ouço o cacilheiro nas manobras complexas a atropelar um peão bêbado e com um saco de pétalas na mão,

 

Levanto-me do banco de jardim e corro até ao rio, o homem encolhido no suor da manhã está inconsciente e o saco de pétalas que com o embate se tinha rasgado padecia em pedacinhos de algodão, e as pétalas perdiam-se na água, do cacilheiro a voz do capitão Este gajos não sabem andar no rio!, e explicava-me que o semáforo estava verde e que o bêbado é que tinha de parar, e respondo ao capitão Parar se o homem é daltónico?,

O velhote em gemidos e ais Sei lá eu distinguir o verde do vermelho, a manhã da tarde, a noite do dia…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:27

Todos precisamos de sobreviver e quando a montanha não vem até nós, vamos nós ter com a montanha, e desistir é morrer, roubar ou vender droga não vou porque já não tenho paciência e já estou destreinado das poucas gramas que vendi no passado (09/05/1994) para sustentar o vício e o senhor capitão carvalho na minha peugada, portanto resolvi passar o blog Cachimbo de Água de digital a papel, nunca claro deixar de publicar em digital.

Uma história e três ou quatro poemas, cerca de 10 páginas ao custo de 1,50 € ou 2,00 €, duas vezes por mês.

E se conseguia consumir uma grama por dia sem ser necessário roubar também certamente serei capaz de sobreviver a vender folhetins, porque quem não tem emprego, porque quem não tem subsídios de coisa alguma, de alguma forma tem de sobreviver; ou roubar ou vender droga.

Prefiro os folhetins.

 

Quadros à venda em:

http://milove.blogs.sapo.pt/

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:14

03
Ago 11

Tenho dias em que me apetece fugir

Dias que quero gritar

Tenho dias em que me apetece partir

Nos dias do fundo do mar

 

Tenho dias de prazer

Dias de chorar

E tenho dias em que me apetece morrer

Nos dias do fundo do mar

 

Tenho dias de sonhar

Dias de amar

E dias de embarcar

 

Tenho dias em que me apetece esconder

Dentro dos dias ao acordar

Tenho dias em que me apetece viver

Nos dias do fundo do mar

 

Gosto praticamente dos dias de amar

Dos dias em que quero viver

Nos dias do fundo do mar

Em dias de sonhar

Dias a escrever…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:12

Na procura dos finíssimos pingos de água da madrugada a trapezista e malabarista dona Joaninha mulher dos seus cinquenta anos e trinta de varizes e de enxada na algibeira sobe ao castelo, pendura-se no arame do nascer do sol e em equilíbrios mansos atravessa o teto da aldeia,

 

Subtrai as meias às pernas e liberta as coxas das cuecas ensopadas no suor dos seis mangalas que horas antes tinha consulado e recebido cinco euros por cabeça simplesmente para deixar que mãos embaralhadas de cerveja e amendoins poisassem nas mamas desgostosas dela, um deles pergunta-lhe se mais logo pode voltar, responde que não, Só para a semana, porque vou de férias com o meu marido!,

 

Palhaço pobre que à nascença foi apelidado de desgraçadinho e enquanto o senhor vigário preparava o batismo a menina Eulália rebolava-o pelos centímetros de toalha que adormecia no altar da capela e numa reza desequilibrada concluía Este tem a vida cortada e será sempre um desgraçado!, cresceu e fez-se homem e bastava olhar uma rosa e a pobre da rosa tombava e em dois ais desparecia da tarde, casa-se com dona Joaninha no intervalo de um espetáculo em cena no bairro junto ao cascalho e pedregulhos de uma aldeia do Douro e das cambalhotas da dona Joaninha no trapézio e das palhaçadas no palco do senhor Augusto nasce uma fera indomável e irritante que sumiu-se um dia por entre nuvens e rajadas de vento e que dizem as más-línguas que é marinheiro num casco velho encostado ao tejo,

 

Para a semana viemos, um dos magalas a despedir-se da dona Joaninha, e em conversa com a roulotte dona Joaninha explica-lhe que para a semana possivelmente estará noutra localidade, porque é assim a vida de artista,

 

O vento em línguas de desassossego e o corpo de dona Joaninha soluça sobre a torre da igreja, o arame chia na noite, cansada de ser apalpada por seis esfomeados fica indecisa, continuar até ao extremo, ficar em suspenso, ou lançar-se sobre o crucifixo metálico pendurado na torre da casa de Deus, e nem uma cisa nem outra,

 

Joaninha, tens aí cinco euros que me emprestes? Pregueava o senhor Augusto na convalescença entre um copo de tinto e uma garrafa de vodka,

 

E da enxada nascem asas numa estrutura de arame e revestidas a algodão, o corpo eleva-se e em pequeníssimos voos e em curvas apertadas percebe que a aldeia diminuiu e responde ao senhor Augusto,

 

Não, não tenho cinco euros.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:47

As nuvens de luanda

Nas mãos do cacimbo

Papagaios em demanda

No silêncio do limbo

 

E ao fundo da rua o mar

A ilha dos amores

As gaivotas a saltar

Os jardins com flores

 

As nuvens de luanda

O capim verdejante do amanhecer

A sanzala que não anda

 

Na manhã desgovernada

Que não quer ver

As nuvens de luanda em pedacinhos de nada…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:03

02
Ago 11

Dom luís de francisco e francisco passeava-se e passeia-se pela rua deserta do burgo quando da sombra surge uma embarcação de mercadorias e com destino ao porto dos confins da alvorada, dom luís estranhou tamanho barco por aquelas bandas e o pior é que num dos mastros tinha pendurado um crocodilo de pau-preto, Estranho, segreda dom luís de francisco e francisco às bananeiras que o olhavam no quintal e governado pelo REX rafeiro e pelo NOQUI são bernardo importado da suíça, dom luís passeava-se de calção de malha preto e justo, ia descalço para poupar nos pneumáticos e na orelha levava uma argola semelhante a uma roda dentada, e no dedo, no dedo um cravo de uma ferradura que tinha trazido quando menino de lisboa,

O mar em aflições nos calhaus e rochas adornadas, e a embarcação derrapava na espuma da carqueja e das mimosas em flor, o chã para emagrecer as nuvens no bule de zinco adquirido a um marroquino que às vezes em visita ao burgo troca bijutarias por garrafas de vinho, e o chã servido em chávenas roubadas na loja do chinês, e as nuvens diminuem de tamanho e desparecem no horizonte, e o sol volta a sorrir nos olhos de ray-ban e soutiens com bolinhas negras e diminutos furos para a refrigeração das mamas,

O capitão da embarcação aproxima-se de dom luís de francisco e francisco, pede-lhe um cigarro e enquanto este efetua buscas sucessivas aos alforges o capitão em voz sossegada faz-lhe a proposta Se dom luís conseguir tirar-me o crocodilo pendurado no mastro dou-lhe toda a mercadoria, e nem hesitou, dom luís salta para a embarcação, aproxima-se do mastro, poisa os calções de malha e os pneumáticos no soalho e começa a trepar o pau ensebado da noite, e vai magicando enquanto vai subindo vagarosamente, milímetro a milímetro,

Isto é canja, ai que não é, é só chegar lá cima, pregar uma bofetada ao crocodilo e descer com ele desmaiado,

E quando dom luís a meio e o bicho já lhe mostrava os dentes de marfim o pau ensebado da noite começa a murchar, e dom luís e o crocodilo em pau-preto estatelados contra os pipos de vinho, pedras preciosas e alicates para os dentes, o bicho em queda livre pelo granito adormecido do cais e dom luís a ver o céu estrelado do burgo,

O capitão cruza os braços e diz para dom luís de francisco e francisco Já me fodeu o barco todo!, e este ainda meio tonto do vinho responde-lhe que não teve culpa, conseguiu tirar o crocodilo do mastro e que tem direito a receber toda a mercadoria, e o capitão aos pontapés aos candeeiros de petróleo,

Você deve é ser maluco, receber toda a mercadoria?, rosnava o capitão às patas do rafeiro e ao rabo do são bernardo, Você devia era indemnizar-me,

E a voz do capitão a entrar por um ouvido de dom luís e a sair pelo outro,

E dentro de dom luís de francisco e francisco erguia-se um queixume nos dentes e uma silaba na língua,

E enquanto procurava no soalho os calções de malha e os pneumáticos começavam-lhe a sair da garganta pequenas frases, Quero lá

Saber

Do

Caralho do barco.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:19

Quando se ama

Perdoa-se a fúria das flores

E desejamos que da fogueira em chama

O vento construa amores,

 

Quando se ama

Não importa se a nuvem está triste ou a sorrir

Ou cansada dos fados de alfama,

Quem ama deseja construir

 

Uma casa em madeira

Entre os socalcos e o rio sonhador,

Ler um livro à lareira

 

Caminhar junto ao rio no amanhecer,

Quando se ama com amor

Não damos conta de a vida morrer…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 15:40

Cristo ressuscitou, desce pausadamente da cruz, olha-me e sorri-me, eu não acredito no que estou a assistir e penso que é mais um dos meus sonhos complexos,

Sempre me lembro existir um cristo pendurado na parede, coisas da minha mãe, uma nossa senhora de Fátima em ponto grande, uma lamparina alimentada com azeite de Trás-os-Montes e muita fé, e da fé nunca consegui alimentar o estômago, mas respeito aqueles que têm fé e acreditam, mas nunca me passou pela cabeça que o cristo ressuscitasse e me viesse visitar, pensei, Será que traz novidades? E ele questionava-se enquanto olhava o senhor em pingos de sangue e olhos cansados, Em quarenta e cinco anos e só agora?,

A minha mãe diz-me, Ajoelha-te meu filho, e eu como bom filho ajoelho-me, procuro-lhe a mão que ainda sangra e beijo-a, E agora mãe o que faço, pergunto-lhe, Nada diz-me ela, Nada?, Ouve apenas o que ele tem para te dizer, e vem-me logo à ideia que coisa boa não será certamente, porque sendo assim teria ressuscitado na casa do vizinho,

Mas educaram-me a saber ouvir os outros, mas educaram-me a respeitar as ideias dos outros, mas educaram-me na lengalenga que somos todos iguais e que todos temos as mesmas oportunidades, e é mentira, uns nascem com o rabo virado para a lua, e outros, outros como eu nascem com o rabo entalado entre dois seixos, e nunca perguntei porque razão o meu vizinho com quem brincava era preto, porque para mim ser preto ou branco é a mesma coisa, ser gay ou lésbica ou heterossexual é a mesma coisa, ser pobre ou rico é a mesma coisa, todos somos seres humanos, todo o ser humano precisa de comer sendo rico ou pobre, e todo o ser humano quando chega a hora de defecar, seja rico ou pobre defeca, possivelmente o rico numa sanita caríssima e o pobre de rabo au léu pelas fendas das carquejas, mas se analisarmos os resíduos quer de uns quer de outros poucas ou nenhumas diferenças, apenas merda, e tanto morre o rico como morre o pobre e eu fico muito feliz por saber que toda a fortuna do rico não chega para pagar a vida, e quando chega a hora, tomba como os outros, porque se fosse compra a vida muitos já o tinham feito, bastava uma OPA sobre deus e vida eterna,

Mas felizmente que deus não é cotado em bolsa,

Cristo de tanto me ouvir pergunta-me, E porque és assim?, eu respondo Assim como?, Assim herege!,

E no fim de conversarmos amigavelmente cristo diz-me que tinha descido da cruz para me informar que eu não devia desistir,

E eu respondo-lhe que não vou desistir…

Porque desistir é morrer.

 

(este texto é de ficção e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência e especulação)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:18

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