Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

30
Out 11

O poema constrói-se no púbis da madrugada

E gemidos e ais

Se abraçam ao néon embriagado da noite,

Tu sorris-me com o silêncio dos lábios,

E as sílabas do sofrimento

Na sombra da minha mão

Que pausadamente constrói o poema

Junto à areia do mar,

 

Dispo o poema

E acaricio-lhe as vogais mergulhadas em desejo,

E das coxas de uma quadra…

Acorda uma flor encarnada,

 

O poema torce-se e roda sobre o meu corpo,

E o meu corpo é o mar

Que engole o poema,

E o poema ama-me e eu amo loucamente o poema

 

Quando o rio sobe as escadas do prazer,

E o poema cansado

O poema feliz

Por ser amado e desejado

 

Pelo meu corpo vestido de mar…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:42
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29
Out 11

El Rei indignado com o carro de bois que ziguezagueava nas encostas da manhã, os bois mergulhados em urros e se queixavam que o peso era muito, e El Rei tranquilo que não, o peso não era muito, e os bois teimavam em abrandar a marcha até se imobilizarem frente ao Paço,

El Rei aflitíssimo,

- E agora minhas Ratazanas?,

E que as ratazanas coçavam os pelinhos do lombo e que respondiam a El Rei,

- Não sabemos Sua Majestade, nós não sabemos o que fazer,

Os bois arfavam e da boca saiam-lhes pedacinhos de cansaço, El Rei reunia de emergência as ratazanas e os cães de caça, e faltava um,

O Conselheiro Mor e guardião das chaves do Paço empoleirado à janela do primeiro andar em gritos para os pássaros poisados junto à praia E o que é que quer?,

Ao que El Rei lhe responde que não quer nada, apenas que os bois continuem com a sua divina marcha em direção ao cais,

- Nada, não quero nada, só quero que os bois retomem a marcha,

As ratazanas engasgadas no silêncio da reunião cruzavam os braços e escreviam na ardósia que transportavam às costas,

- Não sabemos, não sabemos Sua Majestade,

O autor do texto tropeça num momento de infância e vê-se no recreio da escola com um papel preso nas costas com fita-cola Sou Burro,

- Eu sou Burro,

E há pessoas que esqueceram rapidamente o que foram no passado, e eu nunca me esqueço, o autor recorda-se de estar sentado à mesa na cozinha e enquanto comia olhava os pais, e ele perguntava,

- Vocês não comem?,

Respondiam-lhe que não tinham fome,

Hoje percebo que não comiam para que o filho se alimentasse porque a comida não chegava para todos,

E há pessoas que esqueceram rapidamente o que foram no passado, e hoje, hoje julgam-se donos do mundo,

Esqueceram-se rapidamente e fazem questão de o recordar passando por cima do que foram,

- Eu sou o dono do Mundo,

E claro que passado é passado mas às vezes um pouco de humildade faz bem e recomenda-se,

O autor volta ao texto e aos bois,

- Não sabemos, não sabemos Sua Majestade,

El Rei enfurecido gritava às ratazanas que é para isso que lhes paga, para saberem resolver os problemas quando necessário,

Uma das ratazanas, a mais fiel, que nunca tinha acontecido uma junta de bois recusar-se a trabalhar,

E outro que era a primeira vez que assistia a uma junta de bois em greve,

- N uncaa vi t al na vidaaa,

El Rei chegava à conclusão que estava rodeado de incompetentes,

(o autor do texto)

- E que se esqueceram rapidamente o que foram,

El Rei desce as escadas do Paço e junto aos bois propõe o seguinte:

- Meus amigos diz Sua Majestade, Meus amigos,

Os bois às marradas a uma árvore seminua do lado esquerdo da tapada a explicarem a Sua Majestade que não adiantava suborná-los porque estava decidido não continuarem a marcha até ao cais,

- Está decidido está decidido,

As ratazanas envergonhadas porque os bois repentinamente tinham deixado de obedecer,

- N uncaa vi t al na vidaaa,

Nem eu que sou o autor do texto, nem eu,

Mas que às vezes acontece,

O Conselheiro Mor e guardião das chaves do Paço empoleirado à janela do primeiro andar em gritos para os pássaros poisados junto à praia E o que é que quer?,

El Rei sufocado nos cortinados do fim de tarde acorda,

Minha Rainha, Minha Rainha, Os bois deixaram de obedecer-me!,

Bois qual bois seu palerma?

Os bois os bois…

E enquanto coçava a cabeça percebeu que tinha sonhado,

Porque os bois obedecem sempre à voz do maestro assim dizia o tio Serafim em Carvalhais,

- Amarela anda lá amarela,

N uncaa vi t al na vidaaa…

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:11

E se os teus lábios

Fossem uma jangada à deriva

No mar da minha boca,

Flor cansada da manhã!

 

E se o mar da minha boca brincasse

Entre as acácias cansadas dos teus seios,

E das rochas os suspiros da noite

Em mim os anseios…

 

Das pétalas do amanhecer,

Brinco com as estrelas suspensas na tua mão

Na despensa da madrugada…

Flor cansada,

No mar da minha boca

E se alicerça ao teu coração…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:46
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Os pedacinhos de amêndoa

Que a tua voz semeia nas arcadas da noite,

Quero sorrir

E um rio prende-me os braços ao mar,

 

Quero beijar-te

E a maré esconde-se no pôr-do-sol,

A areia seminua dança nas tuas mãos…

E há sempre uma gaivota proibida de voar,

 

Os pedacinhos de amêndoa

Começam a chorar,

E as gotinhas de silêncio da tua voz…

Descem pela manhã para me abraçar,

 

Dos teus lábios emergem papagaios de papel

Que um menino aprisiona na mão triste e cansada,

Nos teus lábios suspensos em mel,

Os pedacinhos de amêndoa da tua voz à janela da madrugada.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:54
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28
Out 11

 

(desenho de Luís Fontinha/MiLove)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:48

 

(desenho de Luís Fontinha/MiLove)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:54

Vive fingindo viver

Ama não amando

Fingindo sofrer

Sem fingir sonhando,

 

A manhã de outono,

 

Vive fingindo viver

As carícias do amanhecer,

Vive não vivendo

Viver

Sofrendo…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 10:24

 

(desenho de Luís Fontinha/MiLove)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 01:19

27
Out 11

(desenho de Luís Fontinha/MiLove)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:58

Estas vozes que oiço

Quando olho o mar,

O que são, Pai?

O que comem os silêncios da noite

Que se abraçam ao pôr-do-sol,

E quando os olho…

Fogem de mim,

Têm vergonha de mim, Pai,

 

Porquê, Pai?

Têm vergonha de mim

As gaivotas de Luanda

E o rio que se esconde nos socalcos…

 

Estas vozes que oiço

Quando olho o mar,

O que são, Pai?

 

Têm vergonha de mim, Pai,

Porquê?

As estrelas quando descem à lareira da noite…

E fogem, pai, e fogem de mim…

 

Também tens vergonha de mim, Pai?

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:29
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