Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

25
Dez 11

Silêncio

O vazio prisioneiro numa mão encharcada de amanhecer

Depois de uma noite de insónia

No cais transparente onde poisam barcos envergonhados

E gaivotas marrecas

Silêncio

Nas palavras

Silêncio

Das palavras

Um corpo de homem evapora-se dentro de um cubo de vidro

Na meia-noite de um relógio caquético

Construído de sucata

Silêncio

Nas palavras

Silêncio

Das palavras

E envelhece o dia

Na algibeira da noite

E o cubo de vidro desfaz-se em grãos de tristeza

O vendaval entra pela janela

E todas as palavras em silêncio

E todas as palavras de silêncio

Adormecem no cais transparente

Onde poisam barcos envergonhados

E gaivotas marrecas

Cessam todas as luzes e cessam todas as palavras

 

Silêncio

Das palavras

Silêncio

Nas palavras

publicado por Francisco Luís Fontinha às 17:46

 

59,4 x 84,1 (desenho de Luís Fontinha)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 01:37

25
Dez 11

 

59,4 x 84,1 (desenho de Luís Fontinha)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:31

Aos poucos

Fogem de mim as palavras

E morrem todos os sonhos

Aos poucos cessam em mim os rios e as montanhas

As árvores e os pássaros

Aos poucos

Escondem-se no mar as cinzas do meu corpo

E dos meus olhos os ramos da madrugada

Onde suspendo a minha cabeça

 

Aos poucos

Morro em cada pedacinho de silêncio

Nas linhas cruzadas de uma amarrotada folha de papel

Onde embrulho as lágrimas da noite sem estrelas

 

Aos poucos

Fogem de mim as palavras

E as cores dos meus sonhos travestem-se de negro

Nos muros clandestinos da saudade

 

E aos poucos

Sinto que desapareço no interior do fumo da tarde

Antes de adormecer

Depois de me olhar ao espelho

 

E no meu rosto pequeninos grãos de areia

E nas minhas mãos

E nas minhas mãos fatias de xisto

E migalhas de tristeza

 

Sobre a mesa de um jantar inventado

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:18
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23
Dez 11

 

59,4 x 84,1 (desenho de Luís Fontinha)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:36

No fim da rua sem saída

Uma mesa e quatro cadeiras esperam por mim

Um rio amarrotado nas ilhargas do infinito me alcança

Como se eu fosse um pássaro doente

Ou uma criança

Como se eu fosse a sombra do jardim

Quando me olha e mente

E ao espelho da noite vejo a minha vida

 

Sem vida

No fim da rua sem saída

Três vultos invisíveis deitados na calçada

Antes de adormecerem

Fingindo viver

Viver sem madrugada

 

Fingindo sentados nas três cadeiras

À roda de uma mesa ensonada

Sem vida no fim da rua

Sem saída

Sem nada

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:56
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59,4 x 84,1 (desenho de Luís Fontinha)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:04

22
Dez 11

 

Dogma House

Leeuwarden, Netherlands

 

Um dia perceberás que esta casa não me faz feliz, que o dinheiro também não me faz feliz, um dia, um dia perceberás,

- Porquê Frutuoso?,

E tenho Insónias no casebre na montanha junto à ribeira como as terei certamente nesta casa, e um dia, um dia perceberás que cresci assim,

- Assim Miserável?,

Miserável dizes-me tu quando vem a noite e o silêncio ausenta-se de mim e não há dinheiro que chegue nem esta casa para trazerem-me de volta o barulho das palavras contra a mesa-de-cabeceira, ou quando abro a janela do casebre e ao longe vejo as nuvens docemente e sem pressa na minha direção, e ao longe o acenar de um petroleiro que desce o tejo até às profundezas da noite, a minha garganta abre-se e sinto o cheiro do inverno a degolar-me antes de adormecer, Percebes?

- Não Frutuoso Não percebo,

Um dia perceberás que esta casa não me faz feliz, que o dinheiro também não me faz feliz, um dia, um dia perceberás,

Que cresci habituado a meia dúzia de moedas na algibeira e com a cabeça recheada de sonhos, e com a cabeça sempre suspensa nas árvores quando caminho,

- Sim Frutuoso Quando caminhas…,

Quando caminho desesperadamente só e sobre o meu peito escrevem-se as lágrimas da solidão, e o sorriso das mangueiras não me deixam adormecer, e o meu triciclo às voltas e às voltas e às voltas na sombra das mangueiras,

- Porquê Frutuoso?,

E o meu quintal começa a inchar e ergue-se em direção ao sol, e chove, descem piedosamente finíssimas gotas de suor de um corpo mergulhado em desejo, o algodão doce que um cigano tenta impingir a miúdos distraídos evapora-se entre as sandálias do vagabundo e os anéis de um miserável,

- Um daqueles peneirentos que acredita que ter dinheiro é ter tudo?,

Acreditar não, É a verdade e tu sabes isso Um dia perceberás que esta casa não me faz feliz, que o dinheiro também não me faz feliz, um dia, um dia perceberás,

- E o que te faz feliz?,

Só o saberei depois de me explicarem o que é a felicidade, quando caminho desesperadamente só, às voltas na sombra das mangueiras e o cigano às apalpadelas nas sandálias do vagabundo quando percebe que o peneirento lambe o algodão que sobejou junto aos anéis,

- Não Frutuoso Não percebo,

O miúdo distraído choraminga ao imaginar o petroleiro que desce o tejo até às profundezas da noite, a garganta do miserável abre-se e o cheiro do inverno a degolar insónias antes de adormecer, Percebes?

- Não Frutuoso Não percebo,

Nem eu.

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:24

 

59,4 x 84,1 (desenho de Luís Fontinha)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:05

 

59,4 x 84,1 (desenho de Luís Fontinha)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 17:32

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