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Cachimbo de Água

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As coxas da noite

Francisco Luís Fontinha 14 Mar 12

Quem sou,

Das mãos mergulhadas em mim sorri a claraboia da solidão, o cais emagrece no final de tarde, das mãos mergulhadas em mim os teus lábios embebidos nas lágrimas do paquete de partida para Lisboa, a cidade afunda-se nas mãos mergulhadas em mim, a cidade aos poucos longe e desaparece entre as palmeiras,

É noite

- Quem sou?

Na algibeira dos sonhos, é noite no sorriso das árvores, é noite

- Quem sou Mãos mergulhadas em ti quando poisas as pétalas dos teus olhos nos meus lábios, Quem sou,

É noite dentro da alvorada sem janelas para o mar, e ao longe engasga-se o rabugento paquete cansado de navegar,

- Detesto os teus versos, detesto as tuas palavras e todas as merdas que desenhas, Quem és?, uma fogueira que se alimenta de papéis e palavras e riscos e cores e de nada…

Um cachimbo de água entalado nas coxas da noite

- Talvez,

É isso que sou, um misero cachimbo de água comprado a um Marroquino abraçado às nádegas cinzentas da maré, Cais de Sodré, Cais de Sodré tem os seus encantos, e quando me sentava

- Pagas um copo Riqueza?

As meninas vestidas de algodão doce pareciam gotinhas de saliva, e eu, e eu quem sou?, e eu apenas procurava o silêncio, e eu não queria engatar nem ser engatado,

- Um cachimbo de água entalado nas coxas da noite e das mãos mergulhadas em mim sorri a claraboia da solidão, e quando me sentava sentia o meu corpo voar sobre a escuridão do Tejo,

Cais de Sodré tem os seus encantos, e eu perdia-me nos cigarros antes de descer ao poço do inferno, ziguezagueando subia a calçada em sílabas embriagadas, sentia que me seguiam, ouvia-lhe os gemidos,

- Pagas um copo Riqueza?

E que não Respondia-lhe a algibeira dos sonhos.

 

(texto de ficção)

Obrigado

Cacimbo desgovernado

Francisco Luís Fontinha 13 Mar 12

Confuso

Porque o silêncio se acorrenta às gaivotas da noite

E dentro da solidão

Uma criança

Inventa sombras na água do mar

 

Uma criança

Finge que esqueceu a ilha do Mussulo

A baía

Finge que os machimbombos eram pássaros

Suspensos nas mangueiras do quintal

Finge…

 

Finge que Luanda se abraçou ao cacimbo desgovernado

E derreteu-se antes de acordar o dia

 

Confuso

E dentro da solidão

Um espelho confuso

Inventa sombras nas mãos da criança

Quando a noite se evapora nos limos embalsamados do desejo

Finge que Luanda se abraçou ao cacimbo desgovernado

 

Uma criança

 

(Uma criança

Finge que esqueceu a ilha do Mussulo

A baía

Finge que os machimbombos eram pássaros

Suspensos nas mangueiras do quintal

Finge…)

 

Antes de acordarem as palmeiras dos teus olhos.

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