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Cachimbo de Água

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Gisela

Francisco Luís Fontinha 23 Mar 12

Gisela,

- Os teus olhos

Perguntas-me o que têm os meus olhos e nada, absolutamente nada, os meus olhos são cristais de silício suspensos nas árvores do jardim junto ao mar,

- São palavras que adormecem a minha mão quando acaricio a velha máquina de escrever, eu, eu infinitamente cansado depois da tarde se evaporar entre os algarismos dos ponteiros do relógio, e sim, os teus olhos são palavras,

Ai palavras, se os meus olhos fossem palavras

- Sim Palavras, botões de rosa, um alfabeto recheado de sílabas e vogais e sonhos desfeitos sobre o rio imaginário que circunda o alpendre da noite, e eu sinto o perfume do teu cabelo junto à ombreira da velhíssima porta de madeira, entras e poisas as tuas mãos no silêncio do meu quarto, olho-te e recordas-me as tardes quando eu corria com um papagaio de papel e chorava, e chorava quando ele se prendia na mangueira e ficava com a solidão do cordel na mão,

Eu era feliz, se os meus olhos fossem palavras eu era feliz,

- Mas os teus olhos são palavras Gisela, botões de rosa, um alfabeto recheado de sílabas e vogais e sonhos desfeitos sobre o rio imaginário que circunda o alpendre da noite, e da velhinha máquina de escrever alguns pingos de saliva sobejam dos lábios, as teclas semeadas de reumático, e oiço a voz que atravessa a janela Para a tensão arterial Reumático Próstata Fígado e vesicula e Ulceras, e raio, e raio porque daqui a uns dias vou precisar dessa porcaria toda, mas os teus olhos são palavras

Sabes Tenho medo da tua voz,

- Porquê Gisela?,

Não sei Mas cada vez que oiço a tua voz fico a tremer, não sei…

- Tens medo de mim Gisela?,

Não Não tenho medo de ti, e nunca tive medo de ti, mas a tua voz

- Que tem a minha voz,

A tua voz parece as arcadas do medo quando os cristais de silício estão suspensos nas árvores do jardim junto ao mar, é assim a tua voz,

- Palavras Gisela, Palavras,

E via o rio na algibeira de um parvalhão a fumar cigarros travestidos de haxixe,

- Tens medo de mim Gisela?,

O meu nome é Gisela e sou uma personagem inventada pelo parvalhão que escreve este texto…

 

(texto de ficção)

Manhã de primavera

Francisco Luís Fontinha 23 Mar 12

Andas distraída

Ausente

Manhã de primavera

 

Abro a janela

E uma flor doente

Dobra-se sobre o chão cansado

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