Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

28
Mar 12

Espero que a noite me leve

E do meu corpo construa um ramo de orquídeas

Espero

Espero pacientemente pelo silêncio das palavras

E que tudo em mim cesse

E que tudo em mim morra

 

Antes de acordar o dia.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:32

27
Mar 12

Vivo desesperadamente sobre um cordel de vidro, oiço o acordar das noites e para me distrair, e para me distrair faço desenhos na sombra da amoreira que habita no quintal do senhor Agripino, coitado

- Todas as janelas se cerram As ultimas palavras da tia Adosinda antes de embarcar para o jardim das camélias adormecidas,

Coitado, sempre agachado sobre os anzóis da tarde, e do outro lado da rua a voz esganiçada da empregada do estabelecimento comercial onde pedaços de plástico cobrem solitariamente a madeira encardida das mesas, é noite, de cigarro no beiço o senhor Agripino afoga a infância em vinho tinto, e a empregada histérica

- Moelas Bolinhos de Bacalhau Orelheira e Chouriço assado,

E a empregada histérica abraçada ao fogão de lenha, e a empregada histérica matutando como conseguir chegar a casa depois de um dia a aturar embriagados e putas, e paneleiros, e o filho doente e o marido a coçar os testículos no granito da rua,

- Recebo um telegrama Informamos vossa excelência que acaba de ser condecorado pelo rei da Babilónia pelos serviços prestados enquanto arrumador de automóveis,

Penso

. Estou fodido,

Penso Lá vou ter de vestir o fato e colocar a gravata com pintinhas encarnadas e calçar os sapos pontiagudos, e eu, e eu sempre odiei todas essas coisas, e até já pedi à minha querida mãezinha Não Não quero fato, Não Não quero gravata, Não Não quero sacerdote, por favor…

Missa? Não Não.

(quero que o meu funeral seja como o do Beethoven)

Coitado do senhor Agripino Quando chegou ao cemitério apenas o acompanhava o cão

- Imagino-me a chegar ao cemitério na companhia dos meus dois fiéis amigos, o REX e o NOQUI, Mas não posso levar fato, Mas não posso levar gravata, Mas não posso levar sapatos pontiagudos…

E o cão do senhor Beethoven o único com paciência para acompanhar o dono ao seu último destino

- Sim tia Adosinda Não se preocupe que no jardim das camélias não falta de nada, Veja lá que até já têm bolinhas de sabão e acácias em flor,

Então está bem Meu filho,

E o seu último destino foi precisamente a ponte invisível que brinca sobre o rio da fantasia, e quando dou por ela, e quando dou por ela oiço a voz esganiçada da empregada a suicidar-se sobre as rochas doentes da noite,

- Ai,

Foi-se entre os limos da preguiça, Agripino chorava, eu, eu dentro de uma caixa de madeira embrulhado num lençol azul bordado pela minha mãezinha muito antes de eu ter nascido, muito antes de o meu pai colocar brilhantina no cabelo e passear-se de lambreta pelas ruas de Luanda,

- Que saudades da velha lambreta Quando o meu cabelo parecia o mar que comia a noite, o mesmo mar que comeu todos os barcos, o mesmo mar que me comeu…

Vivo desesperadamente sobre um cordel de vidro, oiço o acordar das noites e para me distrair, e para me distrair invento histórias, e para me distrair

- Era tão boa menina a piquena do estabelecimento comercial,

E para me distrair oiço o AL Berto, e é tão doce a sua voz, e oiço e oiço…, e porra

- “Se disser mar em voz alta o mar entra pela janela”,

E porra que não me canso de olhar para a janela e não vejo o mar a entrar, e deixei de ver os barcos a serem comidos pelo mar, e deixei de ser comido pelo mar,

- Morri?,

Oiço a voz dela espreguiçar-se sobre as rochas encharcadas de dedos estilhaçados de incenso e mel,

- Morri,

Quando as abelhas deixaram de me picar.

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:10

Acreditava que a honestidade e a sinceridade eram uma mais-valia do ser humano; estava completamente errado.

Partilhar o que fui e o que sou sempre me custou muito caro em alguns momentos da minha vida, e acabo de aprender que nunca, que nunca devemos partilhar com os outos o que fomos e o que somos.

E se algum dia voltar a amar, nunca, nunca partilharei o que fui e o que sou.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 15:43

Há sílabas assassinas

Nas palavras que escrevo

E percebo que morro

Abraçado às vogais

Olho os carris presos à insónia

E sei que uma lagarta de aço

Em galope se aproxima

O meu dilema

Deitar-me pacientemente sobre os carris…

Ou

Ou subir a montanha

Mastigando cigarros invisíveis

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:50

26
Mar 12

Evaporam-se as estrelas na algibeira da dor, um corpo transparente mergulha na superfície da lua, ouvem-se lágrimas no pavimento ensanguentado de livros e pedacinhos de tela,

- Não sei chorar

Ouvem-se todos os silêncios imaginários e dentro de mim um penhasco de rocha em decomposição, o cheiro intenso a carne embebida nos lençóis de sémen, evaporam-se as estrelas na algibeira da dor,

- Porque fui construído em aço inoxidável numa cidade invisível antes de terminar o dia, oiço as palavras argamassadas de sangue poisadas na ardósia da escola, e sentado debaixo de um pinheiro doente, e sentado debaixo de um pinheiro doente dou-me conta que a primavera não existe, dou-me conta que todas as árvores são parvas, e eu, e eu apenas espero pela chegada da noite,

As flores murcham e uma abelha rouba o sol e a noite ficou eterna, e a noite tem os seus encantos quando todas as luzes se evaporam como as estrelas

- Nunca soube o que é o amor,

Estou longe e todas as estrelas rangem nas mãos do orvalho quando os pedaços de mar entram pela casa e agachados junto ao rodapé, um crucifixo, um crucifixo chora nas fendas da alvenaria,

- Quem sou Pergunta-se ele quando vê uma rocha de xisto no espelho estilhaçado que vive no quarto escuro onde se esconde o mar junto ao rodapé, Não sei chorar, e sei que o AL Berto, Algures…, e sei que o AL Berto algures me olha e aproxima-se dos meus braços,

- Um simples abraço, Pensava eu,

Nunca soube o que é o amor, nunca soube o que é a poesia, e pagava, e pagava para não saber ler, e pagava para não saber escrever,

- Que feliz, Que feliz se todo o alfabeto fosse para mim como as joias de ouro e o dinheiro, Merda amarela…

Um vazio infinitamente azul nas paredes do meu quarto, Quem sou Pergunto-me quando vejo uma rocha de xisto no espelho estilhaçado que vive no quarto escuro onde se esconde o mar junto ao rodapé, Ele não sabe chorar, e o AL Berto, Algures…, e o AL Berto algures olha-o, aproxima-se e abraça-o,

- Evaporam-se as estrelas na algibeira da dor

Antes de terem roubado o sol,

O meu corpo transparente mergulha na superfície da lua, cerro hermeticamente os olhos, e, cerro hermeticamente os olhos e dou-me conta que debaixo do pinheiro doente uma criança brinca com os ponteiros de um rabugento relógio, e a tarde, e as estrelas, e tudo evapora-se na algibeira da dor…

- Não sei chorar porque fui construído em aço inoxidável numa cidade invisível antes de terminar o dia.

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:43

Não chores

Não

Porque…

Porque eu…

Porque eu não valho uma lágrima

Um simples olhar

Ou apenas um sorriso

 

Não chores

Não.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:40

(aos poucos amigos que na obscuridade tudo fazem para que eu não passe fome; Obrigado)

 

Aqui tão perto

E tudo parecia tão longe

Aqui tão perto

Quando todos os vidros das janelas do inverno

Adormeceram

 

Aqui tão perto

Quando cresce o néon da primavera

E todas as flores

Tão belas

Tão… especiais

Aqui tão perto

E tudo parecia tão longe

Inatingível e desumano e horrível

 

Aqui tão perto

E tudo parecia tão longe

 

A primavera.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:22

25
Mar 12

Deixei de sonhar

E amar

O meu corpo é uma roda dentada

Mergulhada em limalha de ferro

E pingos de solda

Transporto-me para a algibeira da noite

E todas as minhas veias desbagoam num beco sem saída

Prendem uma corda de nylon nas minhas mãos desiludidas

E lentamente cessa em mim a respiração

E lentamente cessam em mim os fios de sémen

Que deixaste na minha insónia

Antes do clarear do dia

 

Deixei de sonhar

E amar

Quando desapareceste entre as lágrimas do rio

O meu caixão de papel treme nos lábios da solidão

E adormeço na claraboia da infância

Morro

 

Morro sem saber o que é a felicidade

E o amor que acorda nas palavras da tarde

Morro

Morro sem saber o que são acácias

 

E que na noite crescem lágrimas na mão de uma laranja

E morro

Nos pergaminhos da loucura

Antes do nascer do sol

 

Deixei de sonhar

E amar

Eu suspenso no estendal sobre o mar

Eu

Lentamente na garganta do cansaço

Quando a miséria se alimenta dos meus olhos

E na minha boca vejo o esqueleto da fome

Morro

Morro feliz porque deixei de sonhar

E amar

E cessaram em mim todas as orquídeas

E cessaram em mim todos os horrores…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:27
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Sempre vivi embrulhado a uma manta de solidão, sempre

- Porquê a mim? Tive sorte,

Que alguém entra na minha vida crescem raízes de vergonha, sempre que desce a noite sobre a seara do amor alguém sente vergonha de como eu sou e vivo, mas não me importo, não me importo porque a minha miséria pertence-me, herdei-a à nascença nas ruas de luanda,

O velho Armindo às voltas com a roda dos dias e das horas e dos minutos e dos segundos, coitado, o velho Armindo esqueceu-se da manivela das horas

- Porquê a mim?,

E nasci às sete horas e trinta minutos, quando tenho a certeza que se não fosse a inércia do velho desdentado e coxo e agarrado à próstata,

- Tive sorte,

Eu tinha nascido ao meio dia em ponto, e a parteira no intervalo das torradas e café com leite,

- Puxe Puxe que está quase,

Fiquei entalado entre as sete horas e vinte e nove minutos e as sete horas e trinta minutos, esfrego os olhinhos e ouve-se a minha primeira caralhada

- Só mais um pouco Puxe com força…

Foda-se,

A parteira encolhe os ombros e de volta às torradas e café com leite tropeça no meu pai quase a desfalecer,

- É um menino,

É gorducho e malcriado,

- Olha… Desmaiou Deve ser da emoção,

Os cigarros transpiram e dissolvem-se-lhe na algibeira da camisa, que alguém entra na minha vida crescem raízes de vergonha, sempre que desce a noite sobre a seara do amor alguém sente vergonha de como eu sou e vivo, mas não me importo, não me importo porque a minha miséria pertence-me

- É minha e É minha e É minha,

Herdei-a

- Estás a dormir Armindo? E que não Não estou a dormir apenas descanso os olhos…

Pertence-me porque herdei-a nas ruas de luanda quando sentado na esplanada do Baleizão um aglomerado de silêncio embateu contra a esplanada, o meu pai desfaleceu e tombou sobre o pavimento térreo do musseque,

- Era domingo e estava sol

Herdei-a não se cansava de gritar o gorducho remelado à porta do púbis e a proferir insultos à parteira,

Foda-se,

- E às sete horas e trinta minutos

Onde estás Armindo?

- E às sete horas e trinta minutos procuro a janela da maternidade e olho pela primeira vez a cidade, e os machimbombos de mão dada a borboletas encarnadas e caracóis loiros, como as gajas de Cais de Sodré, sentadas em mesas imaginárias à pesca de taças de champanhe e copos de uísque,

Armindo

- O primeiro cálice da noite o primeiro cigarro da noite o primeiro desejo da noite E pergunto-me, Porquê eu?,

Tiveste sorte Responde-me o velho Armindo,

- Que alguém entra na minha vida crescem raízes de vergonha, sempre que desce a noite sobre a seara do amor alguém sente vergonha de como eu sou e vivo, mas não me importo, não me importo porque a minha miséria pertence-me, herdei-a à nascença nas ruas de luanda,

Se te fosses foder Armindo…

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:20

Deixei de acreditar no amor

E nas pessoas que fingem amar

Deixei de acreditar

 

Deixei de acreditar no amor

E na insónia

Deixei de acreditar

 

Deixei de acreditar no amor

E nas pessoas que fingem amar

 

Deixei de acreditar

publicado por Francisco Luís Fontinha às 14:13
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